Marcelo Bonifacio

Marcelo Bonifacio

Graduando em Ciências Econômicas pela Unicamp. Integra o time de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2021 nos mercados de Algodão e Fertilizantes.

O que as Olimpíadas de Inverno de 2022 têm a ver com o mercado de algodão?

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, sediado este ano na cidade de Pequim, na China, chegou ao fim no dia 20 de fevereiro. O evento carregou diversas polêmicas que envolvem o governo chinês, tendo os Estados Unidos aplicado boicote diplomático aos Jogos em 6 de dezembro do ano passado, embora seus atletas tenham competido – movimento acompanhado por diversos outros países. Mas, afinal, o que isso tem a ver com o mercado de algodão?

A região de Xinjiang e os direitos humanos

Desde o início de 2020, após a divulgação de um estudo pela Australian Strategic Policy, o governo chinês vem sendo acusado de promover “trabalho forçado” à população uigur. Os uigures são um grupo étnico de ascendência turca e nativo na China, historicamente assentado no oeste do país. Segundo o relatório, mais de 80 mil uigures teriam sido retirados de suas casas e levados para fábricas e “campos de detenção”, onde teriam treinamentos ideológicos e seriam impedidos de praticarem suas rotinas religiosas, ligadas ao islamismo. O esquema teria, assim, sido financiado pelo governo da China, envolvendo mais de 82 empresas – a maioria de conhecimento público.

Com o passar dos meses, os relatos foram crescendo, especialmente por veículos de mídia ocidentais, e ganhando novos espaços na cadeia produtiva. Como trazido em reportagem da BBC, no final de 2020, o esquema também envolveria a integração entre os campos de algodão, as fábricas têxteis e programas de “reeducação”, tudo isso direcionado às minorias uigures na região de Xinjiang – principal província do Oeste da China e maior produtora da fibra natural no país.

O Partido Comunista Chinês (PCCh) nega as acusações alegando respeitar os direitos das minorias étnico-religiosas no país e explica os “campos de reeducação” como medidas de combate ao terrorismo dentro da China. No entanto, diversas entidades na comunidade internacional passaram a retaliar o Estado chinês, como foi o exemplo da Better Cotton Iniciative (BCI), que retirou a licença do algodão de Xinjiang, “não recomendando” a compra do produto às fábricas.

Repercussões da polêmica envolvendo Xinjiang e as Olimpíadas de Inverno

Em julho de 2021, a Equipe de Inteligência de Mercado, que monitora os impactos das acusações ao algodão chinês no mercado de algodão, produziu um relatório explicando detalhadamente o contexto das tensões em Xinjiang e o acirramento no comércio global da pluma. Na publicação, foi salientado como as consequências diretas para o setor são complexas, mas como também o caso ainda deveria repercutir por anos. Você pode conferir o relatório completo clicando aqui.

Diversos países, em decorrência das acusações, passaram a aplicar sanções econômicas aos produtos derivados do algodão de Xinjiang. Por mais que a rastreabilidade ainda esteja em processo de melhoramento, é fato que a indústria têxtil chinesa é afetada com menor demanda de suas mercadorias por países europeus e americanos, grandes mercados consumidores.

A Casa Branca, desde o governo Trump, é enfática em condenar os abusos do PCCh à comunidade uigur e, no dia 06 de dezembro de 2022, protagonizou novo episódio do embate geopolítico anunciando boicote diplomático dos Estados Unidos aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de 2022, sendo realizado em Pequim. Alguns países europeus seguiram o exemplo e não enviaram representantes governamentais à China. Nesse contexto, o mercado de algodão se conecta, mesmo indiretamente, aos conflitos geopolíticos entre Estados Unidos e China, principalmente, por envolver as tensões e acusações que envolvem a região de Xinjiang. Mas por que é importante acompanhar esse cenário e o mercado chinês de algodão?

Variáveis de atenção no mercado chinês em 2022

A China é a maior consumidora e maior importadora de algodão no mundo. Com as sanções à pluma chinesa pelo mundo, é possível que essa demanda por importação cresça no médio prazo com receios da indústria doméstica em ter seus produtos boicotados por mais tempo – embora, vale dizer, seu mercado é resiliente em não dar atenção a essas acusações do Ocidente.

Os prêmios na China, ainda, sustentam esse cenário apertado para as fábricas no país. Por mais que o algodão chinês seja, historicamente, mais caro, parece ter havido um descolamento um pouco maior nos últimos meses dos basis em outras praças. Desde meados de outubro de 2021, o China Cotton Price Index, que reflete a média ponderada nacional da pluma entregue a mais de 200 empresas chinesas, vem registrando valores acima de US¢ 140/libra-peso, encarecendo fortemente o setor têxtil. Por isso, é aguardado que a China, em algum momento dos próximos meses, busque repor parte de seus estoques abrindo novos leilões de compra com maiores participações de fibras importadas, cujos preços estão mais atrativos.

Preço do algodão físico na China (CCI*) vs. preços futuros na ICE/NY (em US¢/libra-peso)

Fonte: Bloomberg, ICE. Elaboração: StoneX. *CCI é o China Cotton Price Index, que reflete a média ponderada nacional da pluma entregue a mais de 200 empresas chinesas

Refletindo essa questão, neste início de 2022, o ritmo de importações chinesas deve melhorar, ao passo que o segundo semestre do ano passado registrou desaceleração – por conta de diversos fatores como a crise de logística global, economia menos aquecida, problemas no setor energético. Já entre novembro e dezembro de 2021, houve aumentos mensais de volume importado na China, beneficiando principalmente Brasil e Estados Unidos, que estavam com parte de suas exportações travadas especialmente pela menor participação chinesa. Por conseguinte, é possível que os meses de janeiro e fevereiro tragam dados mais robustos com melhora na disponibilidade de navios e contêineres e com a volta da China aos negócios e desembarques do algodão global em direção às suas fábricas.

China – Importações de algodão em 2021 (em mil toneladas)

Fonte: Administração Geral das Alfândegas da China. Elaboração: StoneX.

Um termômetro importante para essa dinâmica são as vendas de exportação dos Estados Unidos. Semanalmente, a China é a principal componente das compras do algodão norte-americano, e o mercado aposta na continuidade dessa figura. Nas últimas semanas, o ritmo de compras chinesas contribuiu para bons números, que vêm animando os agentes, combinando com as aquisições de outros países asiáticos, como Paquistão, Vietnã e Bangladesh.

Estados Unidos | Vendas líquidas semanais da safra 21/22 (em mil toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.

No entanto, o ritmo de exportações estadunidenses esteve lento (registrando melhoras desde meados de dezembro) e por isso o USDA vem cortando suas estimativas para os embarques finais até julho, correspondentes à safra 21/22. A intensificação das importações chinesas também é crucial nos próximos meses para materializar essas compras e afastar maiores possibilidades de cancelamentos de cargas. É fato, a indústria chinesa tem necessidades crescentes de consumo, frente à forte retomada econômica chinesa.

Estados Unidos | Exportações acumuladas no ano-safra 21/22 (em mil toneladas)

Fontes: USDA. Elaboração: StoneX.

Portanto, sempre quando o assunto é a China, o mercado da fibra natural deve acender um alerta, uma vez que qualquer mudança na dinâmica da maior demandante de algodão pode afetar diretamente não só os fundamentos globais de O&D como a própria estrutura dos mercados. No momento, com os preços futuros em Nova Iorque atingindo máximas dos últimos 11 anos, a trajetória de alta sustentada pelo lado especulativo precisa da materialização no lado físico do mercado, sendo a participação da China na demanda internacional seu principal driver.

Marcelo Bonifacio

Graduando em Ciências Econômicas pela Unicamp. Integra o time de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2021 nos mercados de Algodão e Fertilizantes.

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