Greve dos caminhoneiros impactou o nível geral de preços, porém taxa de inflação ainda está abaixo da meta do Banco Central

Como era amplamente esperado, os níveis de preços sofreram um forte choque pelo lado da oferta no último mês de junho, em decorrência direta da paralisação causada pela greve nacional dos caminhoneiros em maio. As altas observadas nos resultados para o IGP-10 (1,86%) e para o IPCA-15 (1,11%), já haviam sido absorvidas pelo mercado, elevando as expectativas registradas no Boletim Focus para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo para 1,11%, ainda na semana encerrada em 22/06.

De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgado na última sexta-feira (6), o IPCA disparou de 0,40% para 1,26% em junho, atingindo a sua máxima para o mês nos últimos 23 anos. Dentre os nove grupos de produtos, as principais influências positivas foram Habitação (2,48%), seguida de Alimentação e Bebidas (2,03%) e Transportes (1,58%).

Considerando que esses três grupos correspondem a 60% do consumo das famílias, pode-se afirmar que cerca de 93% da alta observada em junho incorreu sobre bens de primeira necessidade para a população. No grupo de Habitação, os itens catalisadores das altas foram a energia elétrica (7,93%), gás de botijão (4,08%), gás encanado (2,37%) e a taxa de água e esgoto (1,10%). Em Alimentos e Bebidas, o encarecimento dos alimentos para consumo no domicílio deram suporte ao índice, com alta de 17,16% na batata-inglesa, 15,63% no leite longa vida, 8,02% no frango inteiro e 4,60% nas carnes. Por fim, nos Transportes, as altas de 5% na gasolina e de 4,22% no etanol contribuíram com cerca de 21% do IPCA de junho.

Inflação, desemprego e ociosidade

Apesar da alta acelerada, e do fato de que alguns setores ainda estão repassando parte dos prejuízos gerados pela paralisação ao consumidor final, o suporte aos preços domésticos tende a ser pontual, devendo ser atenuado já a partir de julho. De fato, os últimos dados da pesquisa semanal do Boletim Focus indicam que o mercado espera que a inflação retorne ao patamar esperado antes da greve, de 0,35%, neste mês.
Essa perspectiva se fortalece ainda mais diante da grande dificuldade que o país tem enfrentado para retomar o ritmo da atividade econômica. A recessão, seguida de baixo crescimento da economia brasileira nos últimos trimestres, já se estende por quatro anos. Ao longo desse período, a taxa de desocupação elevou-se em 6,3 p.p., atingindo 12,7%.

Mais recentemente, a PNAD Contínua apurou que, apenas no trimestre de março à maio de 2018, o número de pessoas desempregadas atingiu a casa de 13,2 milhões. Além disso, os postos de trabalho que ainda resistem aos desacertos econômicos dos dois últimos governos foram precarizados após a reforma trabalhista do governo do presidente Michel Temer, frustrando o objetivo da medida, que era estimular a criação de novos empregos. Expressivos 32,8 milhões de brasileiros (ou -1,1%) perderam trabalhos com carteira assinada no período, enquanto 11,1 milhões (2,9%) passaram a trabalhar no setor privado ou por conta própria sem carteira assinada. Em suma, uma nova alta nos preços, como a observada em junho, poderia retrair ainda mais a tímida demanda do atual contexto de desemprego elevado e alto grau de informalização no país.

Por outro lado, o crítico cenário para o mercado de trabalho no Brasil é um dos sintomas da ampla capacidade ociosa observada na indústria brasileira. Isso significa que ainda há mão-de-obra e maquinário parados disponíveis para atender um eventual incremento na demanda, o que limitaria a possibilidade de pressões inflacionárias advindas do consumo. Ainda, os baixos níveis da inflação observados nos meses anteriores à greve, bem próximos dos patamares alcançados logo após a implementação do Plano Real (1994), corroboram para o diagnóstico de que a profunda estagnação do crescimento do PIB continua sendo o principal problema a ser enfrentado na economia brasileira ao longo dos próximos meses - assim como em meados da década de 1990.

Inflação, política monetária e câmbio

É importante observar que, mesmo após a forte aceleração recente, a inflação ainda está distante do teto da meta de 6% estabelecida pelo Banco Central para o ano de 2018, e permanece no centro da meta nas expectativas para 2019 e 2020, o que reduz consideravelmente as pressões para a autoridade monetária alterar a tendência mais “dovish” (menos inclinada à alta nos juros) da política monetária e promover uma elevação na taxa básica de juros (Selic). Aliás, é conveniente lembrar que, em junho, quando o contexto externo apontava para uma tendência firme de alta no dólar, intensificando as pressões do mercado em torno de um aumento na Selic, o BC optou pela manutenção da taxa de juros no patamar de 6,50%.

Por outro lado, o atual contexto de acentuada desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar pode voltar a estimular maiores pressões para um aumento na Selic. As justificativas para o aperto monetário poderiam ir desde uma possível pressão inflacionária resultante de causas externas— uma vez que um enfraquecimentono real pode encarecer as importações e elevar os custos de empresas e famílias—até a necessidade de conter a fuga de capitais do país diante da alta nos juros observada nos EUA.

Contudo, como dito anteriormente, tendo em vista que o estímulo ao investimento é a necessidade mais urgente do país atualmente, o BC deve dar continuidade à escolha de manter a Selic em patamares estimulativos, eventualmente lançando mão do uso de instrumentos cambiais - como o swap e os leilões em linha - para responder a momentos de baixa liquidez no mercado de câmbio gerada por choques externos.

Co-escrito por

Vitor Andrioli

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