Marina Malzoni

Marina Malzoni

Formada em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP e mestranda em Economia Agrícola pela University of Alberta. Trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, com foco na área de milho e pecuária.

Carne bovina perde competitividade em meio à pandemia

O mercado de proteínas de origem animal segue penalizado com a manutenção das políticas de quarentena e isolamento social. Em meio ao fechamento de restaurantes e à mudança no padrão de compra do consumidor, o escoamento de carnes vem perdendo força e a maior relação O&D para o setor já penaliza as margens da cadeia pecuária como um todo.

Em resposta, desde o início do ano, o indicador ESALQ/SP do suíno vivo desvalorizou 25%, atingindo a mínima de R$ 3,87/kg em São Paulo. Da mesma foram, a avicultura também segue pressionada, com o preço do frango vivo já retraindo 9% em relação à mar/20. Ao passo que o setor de aves e suínos lida com uma forte pressão de baixa, para o mercado do boi gordo, o movimento de queda tem sido menos expressivo.

Em meio ao seu ciclo de alta, marcado pelo menor descarte de vacas para o abate, e com os pecuaristas ainda optando por reter as boiadas no pasto, à espera de melhores condições de negócios, a baixa oferta de animais terminados é o que vem fornecendo suporte às cotações. Ainda assim, considerando a praça de Araçatuba/SP como referência, a arroba do boi gordo já caiu 2,4% desde o início do ano, puxada para baixo pelo arrefecimento do consumo doméstico.

Gráfico 1: Relação de troca entre proteínas (kg/kg)

Fonte: Cepea. Elaboração: StoneX (*carne bovina, refere-se ao boi casado)

Assim, enquanto o preço da carne suína e de frango desvalorizaram cerca de 26% e 40%, respectivamente, desde o início do ano, o preço do boi casado seguiu em tom mais estável, retraindo apenas 3% no período. A alteração na dinâmica de preços das proteínas de origem animal já penaliza também a competitividade da carne bovina. Neste contexto, a carne suína tem ganhado relevância no mercado doméstico, sendo, até o momento, a proteína que mais desvalorizou, ganhando destaque para o consumo em meio à retração do poder de compra do consumidor final.

No entanto, vale ponderar que, neste período de quarentena, a demanda pelas três proteínas tem sido prejudicada, com o mercado atento às medidas políticas de relaxamento do isolamento social, o que deverá estimular o escoamento da produção pecuária. Porém, em resposta à recessão econômica, mesmo com o fim da quarentena, o consumo de cortes mais nobres, tais como o traseiro bovino, deverá continuar retraído, acompanhando a descapitalização da população.

Gráfico 2: Preços dos cortes bovinos (R$/kg)

Fonte: Cepea. Elaboração: StoneX

Este fato já vem sendo observado no período recente, com os cortes do dianteiro bovino, que por apresentarem uma menor qualidade são mais baratos, sendo menos prejudicados que os cortes mais nobres do animal. Assim, em relação ao início de jan/20, enquanto os preços dos cortes do traseiro recuaram 6,9%, os do dianteiro sofreram uma valorização de 7,3%. Com isso, conclui-se que a crise sanitária já altera o padrão de consumo, com o temor pelo desemprego e perda de capital alterando a alocação de renda do consumidor e levando à uma maior procura por cortes de baixo valor agregado, o que colaborou com o movimento de alta.

Por mais que a carne bovina tenha tido fundamentos de mercado sustentando as cotações até o momento, para os próximos meses, uma pressão de baixa já é esperada para o preço da arroba do boi gordo. Com a entrada do inverno e a perda de qualidade das pastagens, pecuaristas começarão a entregar as boiadas com maior afinco, o que, sazonalmente, implica em uma queda nas cotações físicas da arroba.

Ainda que a crise atual seja preocupante, em função do fechamento de fronteiras, com o mercado ainda incerto sobre o impacto da recessão econômica na elasticidade da demanda por carnes, a conjuntura vigente tem fortalecido o Brasil no âmbito externo.

Diante do retorno da China às compras e incidência de novos focos de Peste Suína Africana (PSA) na Ásia e na Europa, houve um incremento na demanda por proteína animal do Brasil. A perda de rebanho efetivo na Austrália, assim como a menor exportação de carne de búfalo proveniente da Índia, também favoreceu o estreitamento de laços com o Sudoeste Asiático e Oriente Médio.

Neste contexto, destaque para o bom manejo fitossanitário da pecuária brasileira e para o mercado cambial, com o real sendo a moeda que mais desvalorizou em 2020. Sendo assim, a carne brasileira ganhou competitividade, com os embarques batendo máximas históricas neste primeiro trimestre do ano, o que preveniu o mercado doméstico de quedas mais bruscas nas cotações. Nos últimos dias, as notícias de paralisação das atividades de frigoríficos norte-americanos, em função do contágio da doença entre funcionários, também trouxeram otimismo para as exportações brasileiras.

Para as próximas semanas, a atenção continuará voltada ao possível retorno das atividades econômicas, com alguns estados norte-americanos já indicando uma iniciativa de reabertura, o que deverá movimentar o mercado com o avanço do consumo doméstico. Para a carne bovina, em específico, investidores já especulam uma queda na projeção dos números do confinamento para 2020, diante da alta nos preços dos insumos e do bezerro, além da falta de indícios que apontem para uma recuperação da arroba futura do boi gordo, o que poderá dar suporte ao preço ao longo do segundo semestre do ano. Tudo irá depender do comportamento do consumo doméstico, que detém o destino de mais de 70% da produção de carnes do Brasil, assim como, do ritmo das exportações.

 

 

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