Jaine Gomes

Jaine Gomes

Graduada em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Integra o time da Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2019 nos mercados de Energia e Fertilizantes.

Desmoronamento da Declaração de Cooperação da OPEP+ derruba petróleo

O distúrbio causado pela reunião ministerial da OPEP+ ao fim da última semana sobre o mercado de petróleo foi gigantesco. A recusa russa em alinhar-se ao aprofundamento dos cortes de produção da OPEP+ em mais 1500 mil barris de petróleo por dia (kbpd), e a resposta saudita ampliando a oferta de petróleo a preço reduzido no mercado, pressionam as cotações do hidrocarboneto para as mínimas desde início de 2016. O contrato para maio do Brent encerrou o pregão de sexta-feira (09) a USD 45,27/bbl, com queda de 9,44%, enquanto o contrato para abril do WTI registrou queda de -10,07%, para USD 41,28/bbl.

Os receios do mercado após o primeiro dia de reunião ministerial da OPEP concretizaram-se na sexta-feira (06). A Rússia, principal país aliado da Declaração de Cooperação (DoC), confirmou sua oposição aos cortes adicionais recomendados pelos países da OPEP+, sinalizando que havia chegado ao limite de seu esforço para estabilizar o balanço global do petróleo. Moscou vinha dando sinais de seu descolamento, de modo que seu output não vinha obedecendo os tetos produtivos assumidos, além de fala do ministro de Energia, Alexander Novak, afirmando que os cortes não poderiam durar para sempre.

Ao fim da reunião, Novak, confirmou que a partir de 1º de abril, data de expiração do acordo estabelecido em dez/19, nenhum país terá qualquer restrição de produção. Deste modo, além do cartel não responder ao distúrbio pelo lado da oferta, resultante do surto de coronavírus, o corte de 2,100 kbpd (dos quais 400 kbpd eram voluntariamente cortados pela Arábia Saudita) existente até então, cai por terra.

A resposta da Arábia Saudita ao descolamento russo atingiu o mercado com forte tendência baixista. O principado decidiu reduzir os preços de exportação de seu petróleo e ampliar sua produção, na contramão das ações que vinha tomando até então. A movimentação tende a inundar este mercado que já se encontra sobreofertado.

Ademais, além da ação do líder de fato da OPEP ser uma resposta à Rússia, a pressão sobre os preços internacionais também atua no sentido de estrangular os produtores do xisto estadunidenses e das areias betuminosas no Canadá (os quais têm verificado significativos crescimento de produção, com avanços de market share). Os produtores destas regiões, considerados não convencionais, respondem rapidamente às variações dos preços. No caso específico dos EUA, o tempo de respostas é estimado entre 03 a 04 meses, com um fôlego adicional em função do elevado volume de hedge efetuado pelos produtores.

Assim, os maiores custos de produção e a necessidade de manutenção dos investimentos faz com que o aperto dos preços do petróleo seja responsável por retirar do mercado parcela significativa destes produtores marginais. Deste modo, mesmo que os países que faziam parte da DoC não cheguem a um novo acordo de restrição de produção, os preços do petróleo tendem a se recuperar e estabilizar em torno dos USD 45/bbl no médio prazo (em menos de 6 meses) – a depender dos impactos do COVID-19 sobre a demanda.

Vale destacar que a movimentação da Arábia Saudita neste fim de semana é bastante similar à postura adotada em 2014. Na época, a corrente de pensamento mais liberal da OPEP, cujo alinhamento ocorre no sentido de que os cortes de produção do cartel devem ser extintos, ganhou espaço e a OPEP manteve sua oferta abundante. Naquele período, a ação do grupo começou a surtir efeito sobre a produção estadunidenses, a qual inverteu a tendência de seu output para retração.

Contudo, os preços mais baixos do hidrocarboneto geraram desconforto aos balanços fiscais dos principais países produtores. Sabendo-se que o petróleo é um dos alicerces do financiamento destes governos, o maior giro da produção não conseguia compensar o estreitamento das margens. Assim, para contornar o cenário fiscal desfavorável, os países que compõem a OPEP+ assinaram a DoC ao fim de 2016. O break-even fiscal dos países da OPEP e seus aliados continua a ser um ponto potencial de desconforto, de modo que se mantém como um elemento que pode trazer esses países novamente à mesa de negociações.

Diante dos recentes acontecimentos o mercado tenta precificar os impactos dos distúrbios de oferta e demanda sobre o balanço do hidrocarboneto. No momento de redação deste relatório, o Brent opera com baixa de 22% ante o fechamento de sexta-feira, enquanto o WTI posiciona-se 21% abaixo de seu encerramento.

Evolução da produção de petróleo na Rússia, Arábia Saudita e EUA, e preço do Brent

Fonte: EIA, OPEP, Minenergo, Bloomberg.

 

 

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