Lucas Pereira

Lucas Pereira

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, com passagem pela School of Management da Technical University of Munich. Trabalha desde 2018 na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil, atuando nos mercados de Grãos e Pecuária.

Gripe Suína Africana deve influenciar comércio global de carnes e grãos

Menor produção de carnes na China terá impactos na demanda por ração animal e importação de carnes no país

Desde agosto do ano passado, quando foi relatado o primeiro caso da doença, a China já reportou 115 casos de Gripe Suína Africana (em inglês, African Swine Fever, ou ASF) no país.

Apesar de não oferecer risco para seres humanos, o vírus da ASF é mortal para suínos, sendo que os rebanhos precisam ser sacrificados após a identificação da doença.

Com efeito, de acordo com o governo do país, a população total de porcos no país reduziu 16,1% em 2018, totalizando atualmente 374 milhões de cabeças. A título de comparação, o total de suínos sacrificados na China até o momento, cerca de 78 milhões, é superior ao rebanho total de porcos nos Estados Unidos e Canadá somados.

O país asiático é o maior produtor e consumidor mundial de carne suína, o que faz com que o surto de ASF promova consequências significativas no mercado global de alimentos.

Impacto no mercado de carnes

Como resultado de tal disfunção no seu setor suíno doméstico—cuja recuperação tende a ser lenta—a China terá que abastecer a demanda interna por proteína animal através de um incremento das importações.

De acordo com projeções do USDA, por conta do surto de ASF no país, as importações chinesas de carne suína devem registrar em 2019 expansão de 33%. Ademais, o consumo de bovinos deverá crescer 20% e o de aves, 9%.

Tal necessidade de aumento das importações já é evidente: no último mês, a China adquiriu o terceiro maior volume semanal de carne suína dos EUA já registrado, além de suspender barreiras fitossanitárias para importação de frangos da França. Nesse contexto, outros importantes produtores de carne suína—como União Europeia, Brasil e México—também devem ser beneficiados.

Além da carne suína, a produção de aves também deve receber incentivo nos países que miram a demanda chinesa, uma vez que o balanço global de carnes se encontra apertado e a produção de frangos é mais flexível e responde mais rápido à investimentos em aumento de capacidade do que outros rebanhos, como suínos e bovinos.

Nesse caso, o Brasil deve ser favorecido em especial, uma vez que é o principal fornecedor de frango para o país asiático. Em 2018, as exportações para a China totalizaram 450 mil toneladas—70,2% do total de carne de aves exportadas pelo Brasil no ano.

Impacto no mercado de grãos

No caso das commodities agrícolas, a epidemia de ASF na China provocará uma alteração no fluxo global de grãos, sobretudo aqueles utilizados como ração animal.

Por um lado, devido à perda de rebanho, a China deve demandar menos insumos para ração animal no curto e médio prazos. Tendo em vista o atual cenário, o Ministério da Agricultura do país reduziu a estimativa de consumo de soja e milho no país este ano em, respectivamente, 5% e 6%. Ademais, as últimas semanas têm registrado volumes cada vez menores de importações chinesas de sorgo, cevada e DDGs.

No entanto, nos demais mercados—cujos setores de proteína animal encontram incentivo para expandir a produção, por conta do aumento das importações chinesas e preços elevados—a tendência é de maior demanda por grãos para ração animal, sobretudo farelo de soja e milho.

Nesse âmbito, novamente, o Brasil pode ser beneficiado, podendo exportar mais grãos/farelo para países que também são produtores de carnes, mas destaca-se que no curto e médio prazos, a produção de carnes fora da China não deve compensar a queda da demanda por grãos do país. Aumentar a produção de carnes é um processo mais lento, em comparação à dinâmica do mercado de grãos, por exemplo.

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