Fernando Maximiliano

Fernando Maximiliano

Engenheiro Agrônomo formado pelo Instituto Federal do Espírito Santo. Participante do Brazilian Scientific Mobility Program (BSMP) na Oregon State University, Estados Unidos. Possui experiência em pesquisa e análise de mercado. Trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil com foco em Café.
Este texto teve a colaboração de Leonardo Rossetti.

Fundamentos positivos promovem aumento do apetite dos agentes especulativos pelos papeis de arábica

Forte aumento nas exportações vietnamitas pressiona as cotações de café robusta, enquanto mercado brasileiro para o tipo segue com diferenciais positivos

RESUMO

  • Cotações de café arábica avançaram 310 pontos (1,35%) em NY na semana, encerrando cotado a US₵ 231,55/lb.
  • Indicador Cepea de café arábica avançou 2,1%, encerrando a R$ 1.271,49/sc.
  • Preços de café robusta recuaram USD 34 (1,6%) em Londres, para USD 2096/ton.
  • Indicador Cepea para o robusta apresentou avanço de 1,2% e terminou a semana cotado em R$ 817,25/sc.
  • Produção na Colômbia caiu 13% em março ▲
  • Índia revisa para baixo as estimativas para a produção do país em 2021/23 ▲
  • ABIC: consumo de café avançou 1,7% no Brasil em 2021 ▲
  • Exportações vietnamitas avançaram 28,3% no primeiro trimestre do ano ▼
  • Secex: as exportações brasileiras para a Rússia e Ucrânia despencaram em março ▼
  • Tensões entre Rússia e Ucrânia gera sentimento de incerteza ▼
  • Café robusta alcançou prêmios acima de USD 800/ton na última semana ▲
  • Dólar avança com cautela global após ata do FOMC▼
  • IPCA confirma forte aceleração da inflação no Brasil ▲
  • Preços do café moído ao consumidor final acumulam alta de 64% em 12 meses.

▼ Fatores baixistas   ▲ Fatores altistas

Sem grandes novidades, mas com fundamentos ainda positivos, em meio a restrição da oferta em 2021/22 e menor disponibilidade em 2022/23, foi observado um maior apetite dos agentes especulativos pelos contratos de café arábica, que avançou mesmo com a alta do dólar na semana. O contrato mais ativo de café arábica (julho/22) encerrou a sexta-feira (08) cotado a US₵ 231,55 /lb, um avanço de 310 pontos (1,35%) em relação à sexta-feira anterior (01). No Brasil, seguindo a tendência de Nova Iorque, o indicador CEPEA para o café arábica terminou a semana em alta, apresentando um avanço de R$ 26,17 (2,1%), cotado a R$ 1.271,49/saca.

Por outro lado, pressionados pelo avanço nas exportações vietnamitas, os papeis futuros de café robusta terminaram a semana em queda. O contrato mais ativo do robusta (julho/22), recuou USD 34 (1,6%) para encerrar a semana cotado a USD 2.096. No Brasil, suportando pela demanda no mercado doméstico, o indicador CEPEA para o café robusta apresentou um importante avanço de 1,2% e terminou a sexta-feira (08) cotado em R$ 817,25/sc.

INTRADAY SEMANAL (CONTRATO MAIS ATIVO) – 01/04 A 08/04

Fonte: CommodityNetwork Traders’ Pro. Elaboração: StoneX.

No ponto de vista dos fundamentos, a perspectiva ainda é positiva, em meio a oferta restrita de café no atual ano-safra e a expectativa de menor disponibilidade em 2022/23. Além da grande redução na produção brasileira, a Colômbia tem enfrentado um cenário adverso, que resultou em menor produção e adicionou ao sentimento altista. Os últimos dados da Federação Nacional dos Cafeteiros da Colômbia indicaram que houve uma queda de 13% na produção do país em março, quando foram produzidas 914 mil sacas.

Além disso, em nova avaliação pós-monção, a Índia revisou suas estimativas para a produção de café. O Conselho do Café da Índia reduziu suas estimativas em 5,6% para a safra 2021/22, totalizando 5,8 milhões de sacas, ante 6,15 milhões na estimativa anterior. A estimativa para o arábica foi reduzida em 8,6% para 1,65 milhões de sacas e a estimativa para o robusta foi reduzida em 4,3% para 4,16 milhões de sacas. No entanto, as projeções ainda apontam para um avanço de 4,3% com relação à safra 2020/21.

Ademais, o fim da pandemia e a recuperação do consumo a níveis pré-pandêmicos nos EUA, por exemplo, atuam como fatores altistas para o mercado. Recentemente, a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) divulgou os dados de consumo no Brasil entre novembro de 2020 e outubro de 2021, indicando que o consumo no país teve um aumento de 1,7%, totalizando 21,54 milhões de sacas. A expectativa de consumo forte adiciona um sentimento construtivo para as cotações de café.

Enquanto os fatores supracitados têm atuado de forma positiva para as cotações, os impactos da guerra entre a Rússia e Ucrânia seguem adicionado um sentimento de grande incerteza. Os dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério da Economia, apontaram para forte recuo nas exportações de café do Brasil para a Rússia e Ucrânia em março.

De acordo com a SECEX, as exportações brasileiras de café para a Rússia totalizaram 54,5 mil sacas em março, volume 36,4% inferior ao observado em fevereiro e 38,3% menor que o total exportado em março de 2021 – as exportações em março foram 25,4% inferiores à média dos últimos 3 anos para o mês.

sazonalidade das exportações de café para a rússia (mil sacas)

Fonte: SECEX. Elaboração: StoneX.

Segundo tendência similar, as exportações brasileiras para a Ucrânia em março totalizaram 2.559 sacas, postando um recuo de 69% se comparado com fevereiro. Apesar de não haver diferença entre março de 2022 e de 2021, o volume exportado em 2022 é 29,6% inferior à média dos últimos 3 anos para o mês. Até o momento da produção deste conteúdo, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) não havia divulgado os dados oficiais das exportações brasileiras, porém a divulgação está prevista para as 16 horas de hoje (11) e deve corroborar com o cenário apresentado acima.

sazonalidade das exportações de café para a Ucrânia (mil sacas)

 

Fonte: SECEX. Elaboração: StoneX.

Na contramão da tendência de Nova Iorque, o mercado de café robusta esteve pressionado durante a semana em meio ao sentimento de oferta confortável da variedade, apoiado pelos avanços nas exportações vietnamitas de café. De acordo os dados da agência aduaneira do Vietnã, as exportações do país totalizaram 9,7 milhões de sacas, aumento de 28,3% se comparado com o primeiro trimestre de 2021.

Exportações vietnamitas de café (milhoes de sacas)

Fonte: Vietnam Customs. Elaboração: StoneX.

Como já foi apresentado em outras edições deste relatório, o aumento das exportações de café robusta do Vietnã ocorre em meio à forte queda nas exportações brasileiras para o tipo, como reflexo da condição dos diferenciais. Devido à forte restrição na oferta de café no Brasil, e a alta nos preços do arábica, houve o aumento da demanda de café robusta por parte das indústrias, resultando em diferenciais positivos no mercado doméstico brasileiro; na última semana, o diferencial entre o indicador Cepea para o robusta e a bolsa de Londres atingiu valores acima de 800,00 USD/ton.

Relatório CFTC aponta maior apetite dos agentes spec pelos papeis de arábica

O relatório Commitment of Traders da CFTC revelou na última semana que os fundos especulativos ampliaram suas posições liquidamente compradas em futuros e opções de café no período entre 29 de março e 5 de abril na bolsa de Nova Iorque. Segundo o relatório, os specs elevaram suas posições compradas em 4.743, enquanto reduziram suas posições vendidas em 2.918, avançando seu saldo liquidamente comprados em 7.661 para 23.395 contratos. No mesmo período as cotações avançaram 1.545 pontos, indo de US₵ 215,80/lb para US₵ 231,25/lb.

Nota-se que desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, quando uma forte onde de aversão ao risco tomou os mercados globais, os especuladores vinham reduzindo significativamente suas posições compradas, indo de 58.881 até 22 de fevereiro, último relatório antes do início da guerra, para 26.237 em 29 de março. É importante notar que conforme se arrefeceram os temores em relação aos efeitos da guerra, o avanço nas compras dos fundos na última semana se deu junto de uma redução nas posições vendidas, que atingiram seu menor nível desde janeiro, e que também foi acompanhada de uma redução nas posições abertas pelos especuladores. O movimento sinaliza uma possível retirada dos apostadores nas baixas do café, e caso se consolide, pode contribuir com mais força para os atuais fundamentos altistas que têm impulsionado novamente as cotações de café em patamares elevados desde o início de abril.

Dólar avança com cautela global após ata do FOMC

Depois de cinco semanas consecutivas de valorização, período que posicionou o real como moeda relevante de melhor desempenho no mundo em 2022, o par real/dólar avançou 1,0% em meio a pregões de grande volatilidade na última semana, encerrando o período cotado a R$ 4,712. A divisa americana apresentou durante a semana uma amplitude que foi de uma mínima de R$ 4,479 a R$ 4,793. O dollar index registrou expressivo avanço de 1,2% na semana para encerrar cotado a 99,8, maior encerramento em uma semana desde maio de 2020.

Além do ambiente de maior aversão ao risco global em função da guerra entre Rússia e Ucrânia, que parece longe de seu fim e apresentou um arrefecimento nas negociações entre as nações, os mercados globais reagiram à postura mais contracionista do Federal Reserve indicada na ata da última reunião do Comitê Federal de Política Monetária (FOMC). Entre seus principais indicativos, a ata mostrou que os membros do Comitê se mostraram mais inclinados a um ajuste de 0,50 p.p. na taxa básica de juros americana em sua próxima reunião, que será realizada em maio, e que só não optaram por iniciar aumentos desta proporção já em março devido às incertezas trazidas pelo início da guerra russo-ucraniana. Além disso, o documento revelou que os membros concordaram por iniciar uma redução de até US$ 95 bilhões mensais em ativos do balanço patrimonial do Fed, como mais um instrumento para reduzir a liquidez de dólares no mercado.

Em vista do posicionamento mais firme do Fed para a redução dos estímulos monetários nos próximos meses e da perspectiva de elevação dos juros americanos e, consequentemente do rendimento dos ativos de renda fixa do país, a procura de investidores globais pela moeda americana se elevou na última semana. A divulgação nesta terça (12) e quarta-feira (13) do Índice de Preço ao Consumidor (CPI) e do Índice de Preços ao Produtor (PPI) de março nos Estados Unidos, que devem continuar indicando uma inflação acelerada no país, devem dar maior suporte às perspectivas de ajustes mais firmes na política monetária pelo Fed e continuar como fator favorável à procura global pela moeda americana nesta semana.

Já no Brasil, o destaque na semana ficou para a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, que revelou um significativo avanço nos preços de 1,62%, contra uma expectativa do mercado de 1,3% e maior avanço para o mês desde 1994. Segundo o IBGE, a alta se deu principalmente em função dos aumentos nos custos dos transportes (3,02%), após uma nova rodada de ajustes no preço médio da gasolina (18,77%) pela Petrobrás em março, e pelo grupo de alimentos (2,42%). Desta forma, os três primeiros meses do ano já contabilizam alta de 3,2%, com o acumulado nos últimos 12 meses avanço de 10,54% em fevereiro para 11,30%.

Os dados contribuem para a percepção do mercado de que o Banco Central (BC) deve continuar atuando ativamente para o controle da inflação no país, podemos possivelmente seguir no avanço da taxa básica de juros (Selic) além da provável alta de 1,0% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), como sinalizado no último encontro do Comitê. Desta maneira, os dados e a postura firme que o BC vem adotando em suas últimas decisões indicam que os diferenciais de rendimento das taxas de juros em Brasil e Estados Unidos devem continuar elevados, o que tende a ser positivo para a atração de investimentos estrangeiros para o país, e consequentemente, favorável ao real. Devido à greve dos servidores do BC, a instituição não divulgou nas últimas duas semanas uma série de indicadores, assim como o Boletim Focus. No entanto, é provável que após o resultado do IPCA as projeções do mercado para o resultado IPCA em 2022 tenham se elevado além dos 6,86% indicados no último Boletim divulgado, no dia 28 de março.

Para o café especificamente, o índice mostrou uma evolução de 2,87% nos preços de café torrado e moído ao consumidor final, alta mais fraca que a registrada em janeiro (4,75%), porém maior que a vista em fevereiro (2,51%), indicando que a indústria tende a manter ainda um grau significativo nos repasses mensais aos mercados, ainda que em menor intensidade que os fortes ajustes do 2º semestre de 2021. Com o resultado, o acumulado dos últimos 12 meses para o café moído avançou de 61,19% em fevereiro para 64,66% em março. Já o café solúvel registrou alta de 2,53% no mês, depois de marcar avanços de 2,09% e 1,81% em janeiro e fevereiro, respectivamente, com o acumulado em 12 meses avançando de 15,43% para 15,76%.

EVOLUÇÃO DA INFLAÇÃO SOBRE O CAFÉ TORRADO E MOÍDO NO BRASIL NOS ÚLTIMOS 12 MESES

Fonte: IBGE. Elaboração: StoneX.

Fernando Maximiliano

Engenheiro Agrônomo formado pelo Instituto Federal do Espírito Santo. Participante do Brazilian Scientific Mobility Program (BSMP) na Oregon State University, Estados Unidos. Possui experiência em pesquisa e análise de mercado. Trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil com foco em Café.
Este texto teve a colaboração de Leonardo Rossetti

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