Leonardo Rossetti

Leonardo Rossetti

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, atuando nas análises sobre os mercados de café, cacau, câmbio e macroeconomia.

Após atingir máximas em 10 anos, cotações de café registram forte queda na semana

Depois de tocar os US₵ 250,00/lb, forte movimento de liquidação pressionou as cotações na semana

Resumo

Após renovar novas máximas no início da semana, os preços futuros de café completaram 3 sessões de perdas e terminaram a semana com balanço negativo. O contrato mais ativo de café arábica na bolsa de Nova Iorque, com vencimento em março/22, registrou recuo semanal de 1075 pontos (4,4%) para encerrar a sexta-feira (10) cotado a US₵ 232,60/lb. No Brasil, o indicador CEPEA para o café arábica registrou perdas de 2,4%, cerca de R$ 35,60/saca para encerrar a sexta-feira (10) cotada a R$ 1.435,60/saca.

Intraday semanal (Contrato mais ativo)  – 06/12 a 10/12

Fonte: CommodityNetwork Traders’ Pro. Elaboração: StoneX

As cotações do arábica iniciaram a semana dando continuidade ao forte movimento altista observado desde meados de novembro, conforme os sinais de que o potencial da safra 2022/23 terá perdas irreparáveis se consolidava, após uma florada não-ideal e alguns problemas de pegamento em parte das lavouras. Ao longo do intradia da terça-feira (7), as cotações do contrato mais ativo chegaram a atingir em termos nominais seu maior patamar em pouco mais de 10 anos, quando os preços tocaram máximas de US₵ 252,35/lb.

Todavia, após atingir a região dos US₵ 250,00/lb, que pode ser considerado uma forte resistência psicológica, os preços passaram a recuar de maneira expressiva. Ainda no intradia da própria terça-feira, os preços encerraram com queda de 655 pontos, que se estenderam com retrações de 400 e 760 nos últimos 2 pregões da semana. Levando em consideração que os fundamentos permanecem predominantemente altistas, a retração parece ter ocorrido por fatores técnicos, de forma a corrigir a forte alta de 1660 pontos (7,1%) ocorrida no período imediatamente anterior, entre os dias 1 e 6 de dezembro. Na próxima sexta-feira (17), o relatório CFTC, que revelará o movimento dos agentes no período entre os dias 7 e 14 de dezembro, pode confirmar se houve volumes mais intensos de venda por parte dos fundos especulativos – que atualmente se encontram em um alto volume liquidamente comprados – indicando um movimento técnico de realização de lucros.

Foram divulgados pelo USDA na última semana os dados de importações dos Estados Unidos no mês de outubro. O maior consumidor global importou no mês 2,06 milhões de sacas de café verde, maior volume para o mês no comparativo com os últimos 6 anos, ficando 20,7% acima do importado em outubro de 2020 e 15,2% acima da média dos últimos 3 anos. A exemplo dos dois meses anteriores, o resultado de outubro também mostrou variação significativa nas importações em relação à média dos últimos anos, refletindo as questões logísticas que afetam não só o Brasil, principal fornecedor de café aos Estados Unidos, mas também os demais países exportadores. Devido aos atrasos, período maior do produto em trânsito e postergações de bookings, tanto os dados de importação dos países consumidores quanto os dados de exportação não têm refletido necessariamente a real demanda e oferta do grão no mundo, o que tem tornado os resultados mais imprevisíveis e sua interpretação mais complexa.

importações de café verde pelos estados unidos (milhões de sacas)

Fonte:  USDA. Elaboração: StoneX.

Entre as principais origens, as importações de café do Brasil avançaram 2,1% no comparativo com outubro de 2020, totalizando 460 mil sacas no mês, com a colômbia avançando 23,5% para 697 mil sacas, e alta de 23,3% para o café importado do Vietnã, com 263 mil sacas. Outro destaque ficou para o café importado de Honduras, que apesar de sazonalmente apresentar números menores no último trimestre do ano, registrou 59,8 mil sacas, alta de 212% ante o mesmo mês no último ano e de 180% frente à média de 21 mil sacas nos últimos 3 anos, com as importações de café hondurenho acumulando no ano 1,5 milhões de sacas, 35,9% superiores ao mesmo período de 2020.

Nesta semana, além do clima no Brasil, que com bons indicativos de chuvas pode contribuir para pressionar os preços em Nova Iorque, os agentes devem repercutir na quarta-feira (15) a divulgação dos estoques nos portos americanos em novembro da Green Coffee Association (GCA). A média dos últimos 5 anos aponta para uma queda de 3,0% ou 197 mil sacas na passagem de outubro para novembro. Caso uma queda de semelhante magnitude se confirme, o nível de estoques nos portos pode voltar a ficar significativamente distante dos patamares de 6 milhões de sacas, o que pode contribuir para trazer novo tom altista para as cotações.

Exportações brasileiras recuam 41,5% em novembro

Com 2,574 milhões de sacas embarcadas em novembro, as exportações de café verde recuaram 41,5% no comparativo com o mesmo mês do último ano, quando 4,415 milhões de sacas foram enviadas ao exterior, segundo o relatório mensal de exportações divulgado pelo Cecafé na última sexta-feira (10). As exportações de café arábica totalizaram 2,388, queda de 41,5% frente às 4,080 em novembro de 2020, enquanto as de café robusta alcançaram 186 mil sacas, recuando 44,4% frente às 334 mil sacas do ano anterior.

Exportações mensais de café verde do brasil (mil sacas)

Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.

Os entraves logísticos permaneceram como principal fator para a queda a brusca, além do fato de a atual safra estar em bienalidade negativa. De acordo com Nicolas Rueda, presidente do Cecafé, “Diante da colheita mais baixa este ano, seguimos convivendo com disputa por contêineres, espaço nos navios, sucessivos cancelamentos de bookings, rolagens de cargas e fretes extremamente altos”. Não é possível afirmar quando as cadeias logísticas se reestabelecerão, mas é certo que as dificuldades com embarques devem se arrastar ao menos até meados de 2022, o que tende a continuar dando suporte para os preços e pressionando os estoques no curto-prazo.

No acumulado entre janeiro e novembro de 2021, as exportações de café verde totalizaram 32,678 milhões de sacas, queda de quase 3,9 milhões (-10,5%) frente às 36,525 milhões exportadas no mesmo período em 2020. Adicionando o café torrado e moído e café solúvel, os embarques totalizam neste ano 36,288 milhões, contra 40,298 no último ano.

Apesar da queda, a remuneração pelo café vendido se mostra 5,9% superior em 2021 até o momento, com as receitas cambiais totalizando US$ 5,4 bilhões contra 5,097 no último ano, fruto dos preços médios na casa de US$ 148,81/saca, significativamente acima dos US$ 148,81. Se analisado na moeda local, a receita gerada foi ainda mais favorecida em função da desvalorização da divisa brasileira, chegando a R$ 28,994 bilhões, 10,3% superior aos R$ 26,296 bilhões recebidos até novembro de 2020.

Receita cambial das exportações brasileiras de café (US$ bilhões)

Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.

 

Colômbia recorre a importações de café em meio a produção aquém do esperado

A Federação nacional de cafeicultores da Colômbia informou que a produção de café do país no mês de novembro foi de 310 mil sacas ou 22% menor que o mesmo mês do ano passado, totalizando 1,131 milhão. A menor produção seria o resultado de chuvas torrenciais, conforme a estação chuvosa secundária se fundiu com o La Niña. Condições climáticas adversas devem impactar a produção para o ano safra de 2021/22, já que se espera que o La Niña cause chuvas mais pesadas durante o importante período de florada, em janeiro e fevereiro.

Juntamente com uma produção mais baixa, a Colômbia teve um aumento da demanda interna. Em 2021, o consumo interno de café no país aumentou para 2,8 kg per capita, de acordo com novos cálculos baseados em um estudo rigoroso realizado pelo Reinova1. O estudo revelou que a incidência de consumo de café aumentou de 86% em 2015 para 96% em 2021, ou seja, quase o limite máximo populacional.

Como resultado, a Colômbia importou 1,23 milhão de sacas de 60 kg entre janeiro e setembro de 2021, um aumento de 99.6% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados do departamento fiscal do país, o DIAN. As importações quase duplicaram em relação às 615.933 sacas de 60 kg importadas entre janeiro e setembro de 2020.

A Colômbia, terceiro maior produtor mundial de café, importa de países vizinhos para abastecer o mercado local devido à escassez de café de baixa qualidade produzido nacionalmente. Toda a produção de arábica de alta qualidade da Colômbia é exportada, mas era costume deixar os grãos afetados por doenças como a broca do café ou fungo roya para consumo local. No entanto, em 2015, a federação de produtores de café removeu uma proibição que barrava a exportação de grãos de baixo grau. Como resultado, não resta café de baixa qualidade para a indústria local, promovendo o aumento das importações.

O Brasil é o maior fornecedor de café para a Colômbia, que importou 470.416 sacas de 60 kg em janeiro-setembro, quase seis vezes mais do que 85.700 no mesmo período do ano passado. O Peru enviou 208.850 sacos em janeiro-setembro, contra 163.983 na mesma comparação. A Colômbia ainda importou 69.400 sacas de 60 kg de Honduras, em comparação com 33.333 sacas no mesmo período do ano passado.

Pânico de compras alimenta alta do robusta

O mercado de robusta atingiu máximas de quase dez anos na semana passada, conforme um “pânico de compras” alimentou o rally. O café continua a ser diretamente afetado por desafios logísticos, incluindo carência de mão de obra, falta de contêineres e grandes atrasos dos navios de transporte. O Vietnã, especificamente, tem lidado com atrasos no transporte durante o período de pico da sua colheita. Os traders acreditam que este “pânico de compras” diminua após as festas, embora não haja previsão de que o atraso logístico se resolva até 2023, ou depois.

As ofertas provenientes do Vietnã, principal produtor, também estão mais restritos, o que acrescenta suporte no mercado. As exportações desde o início do ano até novembro caíram 4,4% em relação ao ano passado.
O USDA recentemente reduziu suas previsões para exportações na safra 2021/22 para 25,8 milhões de sacas, em relação a 28,8 milhões anteriormente.

O foco também tem sido o clima do Vietnã, que tem atingido níveis de precipitação acima da média. As chuvas da semana passada retardaram a colheita e a secagem, mas as vendas para a safra nova já começaram.

Em semana volátil, dólar termina em queda no mercado cambial brasileiro

Amparado pela última decisão de política monetária do ano no Brasil com elevação da taxa básica de juros, par real/dólar recuou 1,1% na última semana, terminando o período cotado a R$ 5,614.

Na última quarta-feira (8), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu elevar a taxa básica de juros (Selic) em 1,5 p.p., de 7,75% para 9,25% ao ano. Apesar de o ajuste ter ocorrido dentro das expectativas do mercado, o tom do comunicado divulgado pelo Comitê surpreendeu, afirmando comprometimento com a continuidade de uma atuação firma na política monetária para a garantir a estabilidade de preços no horizonte relevante, a saber, 2022 e 2023. Na semana anterior, após a divulgação de retração de 0,1% do PIB brasileiro do terceiro trimestre, que colocou a economia em situação de recessão técnica, parte dos analistas especulava que o colegiado poderia reduzir o seu ritmo de alta da Selic, a fim de tentar manter algum grau de estímulo à economia.

O Copom ainda indicou que deve realizar novo ajuste de mesma magnitude em seu próximo encontro, no início de fevereiro, o que levaria a taxa de juros a 10,75%. Nesta terça-feira (14) o BC divulgará a ata da reunião, que pode trazer novos elementos sobre as discussões sobre como a autoridade monetária atuará para manter o equilíbrio entre estabilidade de preços e crescimento econômico.

Em função da elevação da Selic e do resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de novembro, que registrou alta de 0,95%, ficando abaixo das expectativas, o Boletim Focus do BC mostrou nesta segunda-feira o primeiro ajuste para baixo das projeções do mercado para a inflação após 34 semanas consecutivas de altas. De acordo com a pesquisa, a mediana das apostas do mercado é de que o IPCA encerrará o ano de 2021 em 10,05%, abaixo das projeções da semana anterior, de 10,18%. Ainda assim, a expectativa é de que a inflação do ano fique na casa dos dois dígitos, significativamente acima do limite superior da meta do BC de 5,25% a.a. para 2021, enquanto as perspectivas para a economia e para a divisa brasileira seguem em deterioração. Para o crescimento do PIB no ano, o Focus mostrou uma retração nas projeções pela 9ª semana consecutiva, indo de um crescimento de 4,71% na pesquisa anterior para 4,65%, enquanto as expectativas para a taxa de câmbio evoluíram pela segunda semana seguida, indo de R$ 5,56 para R$ 5,59.

No exterior, os mercados globais devem continuar acompanhando com alguma cautela o crescimento do número de casos de Covid-19 no hemisfério norte, enquanto cientistas ainda tentam avaliar o possível impacto da nova variante ômicron, e irão repercutir a decisão da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve, que acontecerá na quarta-feira (15). A expectativa é de que o Fed opte por acelerar o ritmo da redução do programa de compras mensais de ativos para combater a inflação, com a possibilidade de que os membros do comitê iniciem um debate sobre o momento adequado de elevar a taxa básica de juros no próximo ano.

Caso a postura mais contracionista do Fed se confirme, a expectativa de redução da liquidez de dólar e de elevação da remuneração de títulos de renda fixa americanos pode estimular uma saída de investidores de economias emergentes, o que atuaria de maneira altista para a moeda americana. O FOMC também deve divulgar suas projeções trimestrais para os principais indicadores da economia americana, que ajudarão na visualização sobre como os membros do Comitê enxergam os ajustes na taxa de juros em 2022, 2023 e 2024.
Tabela de indicadores

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.

Leonardo Rossetti

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, atuando nas análises sobre os mercados de café, cacau, câmbio e macroeconomia.

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