Vitor Andrioli

Vitor Andrioli

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP com Mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR. Trabalha desde 2015 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil como analista de Câmbio e Algodão.

Mercados enfrentam sua pior semana desde 2008 sob ameaça de pandemia

Março se inicia com as atenções voltadas aos impactos econômicos do coronavírus e à crise entre os Poderes no Brasil na discussão do orçamento impositivo

A moeda americana voltou a registrar novo recorde nominal contra o real brasileiro na última sexta-feira (28), chegando a operar acima dos R$ 4,51 nas máximas do intradia ao repercutir as preocupações no exterior com os impactos econômicos do coronavírus e a incerteza dos investidores locais diante da deterioração nas relações entre Congresso e Executivo. No encerramento, o par dólar/real encerrou próximo das mínimas da sessão, cotado a R$ 4,481, em alta diária de 0,1% e variação semanal de +2,0%.

Ao longo do mês de fevereiro, a moeda americana registrou alta de 4,6% em relação ao real, acumulando ganho de 11,7% desde o início do ano. Depois de três semanas seguidas em alta, o dollar index perdeu força com o anúncio do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que alertou sobre a possibilidade de um surto de coronavírus nos Estados Unidos. Em baixa de 1,1% na semana, a divisa encerrou cotada a 98,08 pontos.

Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)

Fonte: CommodityNetwork Traders’ Pro. Elaboração: StoneX.

Cenário externo

No final da sexta-feira passada, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, emitiu comunicado indicando que a autoridade monetária “agirá conforme apropriado” para sustentar o crescimento e o nível de emprego na economia americana em meio à crise global de saúde causada pelo coronavírus. A declaração foi recebida pelos mercados como sinal da iminência de um corte de juros, aguardado para a próxima reunião do Comitê de Mercado Aberto do Fed (FOMC) entre os dias 17 e 18 de março.

Na manhã desta segunda-feira (2), o mercado de futuros da Fed Funds Rate (FFR), a taxa de juros do Fed, mostra que as apostas por um corte de 50 pontos base em março se tornaram unânimes. Há uma semana, cerca de 80% dos agentes contava com a manutenção da taxa de juros neste mês e 20% considerava a possibilidade de um corte de apenas 25 pontos.

Após o comunicado de Powell na sexta-feira, o mercado também passou a precificar chances de uma redução adicional de 25 pontos no final de abril, com probabilidade de cerca de 73%. Caso esse segundo corte seja concretizado, a meta para a taxa de juros do Fed seria reduzida ao intervalo de 0,75% a 1,00%, apagando todo o ajuste realizado pelo banco central americano desde meados de 2017 para normalizar sua política monetária.

Cortes no referencial de juros neste momento podem se traduzir em suporte aos mercados acionários americanos, que tiveram na última semana seu pior desempenho desde a crise financeira de 2008, e exercer pressão sobre o rendimento dos títulos do Tesouro americano e sobre as cotações do dólar no exterior. O aumento nas apostas por um afrouxamento monetário nos Estados Unidos também beneficia a recuperação dos índices de commodities, que registraram no fechamento da semana passada os seus menores valores desde o início de 2016 devido às preocupações com uma desaceleração econômica global e o consequente enfraquecimento da demanda por matérias-primas e energia.

Os mercados de ações ainda respondem de maneira mista ao anúncio de flexibilização monetária nos Estados Unidos e aos pacotes de estímulo prometidos por outras economias impactadas pelo coronavírus nesta segunda-feira. Os principais índices acionários na Ásia encerraram em alta, com destaque para o avanço de 3,3% do índice de Xangai e Shenzhen, enquanto a maior parte das bolsas europeias operam no vermelho.

Após a divulgação de números fracos da indústria italiana em fevereiro, o índice FTSE da bolsa de Milão passou a registrar queda considerável de 2,3% hoje, acumulando baixa de 9,7% desde o início do ano. Em fevereiro, a Itália registrou queda de 0,2 ponto do PMI do setor manufatureiro em fevereiro, para 48,7 pontos, indicando que o setor se encontra em contração. Visto que os dados do PMI de fevereiro foram levantados até o dia 21 do último mês, a intensificação do surto de coronavírus no país ainda não foi capturada pelo indicador. Com cerca de 1.700 casos confirmados de coronavírus e 34 mortes em decorrência da doença, os dados da atividade econômica italiana ainda devem piorar bastante antes de começarem a mostrar alguma recuperação.

A deterioração da situação na Itália e a possibilidade de que a pandemia de coronavírus continue a atingir outras economias e tenha impacto prolongado foram os argumentos usados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para revisar suas projeções para o PIB global nesta segunda-feira. Para 2020, a OCDE espera um crescimento de 2,4% da economia mundial, o que corresponde a uma redução de 0,5 p.p. em relação à projeção divulgada em novembro e ao seu pior nível desde 2009. Os economistas da Organização também não descartaram a possibilidade de um cenário mais grave e indicaram que, no evento de efeitos mais intensos e duradouros causados pela doença, o crescimento da economia mundial neste ano poderia ser de apenas 1,5%. Para o Brasil, a OCDE projeta crescimento de 1,7% em 2020 e de 1,8% em 2021, mantendo suas estimativas de novembro.

A fim de combater os distúrbios causados pela crise de saúde, a OCDE sugere que os governos atuem de maneira “rápida e contundente” por meio de políticas monetária e fiscal expansionistas para restaurar a confiança das empresas e famílias. Segundo a Organização, “em uma perspectiva mais ampla, taxas de juros mais baixas e gasto público mais robusto podem ajudar a impulsionar a confiança e a dar suporte à recuperação da demanda assim que os surtos se enfraquecerem e as restrições de viagem forem removidas”.

Cenário doméstico

A primeira semana de março deve ser acompanhada com atenção pelos investidores no Brasil, que esperam pelos dados oficiais das Contas Nacionais Trimestrais para o período de outubro a dezembro de 2019 e por novos desenvolvimentos do conflito entre Executivo e Legislativo em torno da discussão do orçamento impositivo. A crise fragilizou ainda mais o relacionamento entre os Poderes e tem elevado a incerteza sobre o progresso da agenda de reformas econômicas do governo.

Desde 2015, com a aprovação de emenda à Constituição que tornou obrigatória a execução de emendas parlamentares ao Orçamento, o Congresso tem ampliado progressivamente seu controle sobre o uso dos recursos do Orçamento federal. Até então, o governo podia ou não cumprir com as emendas parlamentares, usando-as como um instrumento de barganha em votações de interesse do Planalto.

Em 2019, deputados e senadores aprovaram a obrigatoriedade da execução das emendas das bancadas estaduais, e na votação da proposta de Orçamento de 2020, foi incluída a obrigatoriedade das emendas apresentadas por comissões do Congresso e as emendas definidas pelo relator do Orçamento, deputado Domingos Neto (PSD). Na prática, ambas as medidas significam que, dos R$ 137 bilhões do Orçamento Federal, um terço deverá ser alocado pelo Legislativo, retirando parte significativa da liberdade do Executivo na execução do Orçamento.

O presidente Jair Bolsonaro vetou parte dessas medidas, mas deputados e senadores ameaçam derrubar os vetos presidenciais. Essa troca de farpas se intensificou na semana passada, depois que Bolsonaro divulgou vídeo favorável a protestos contra o Congresso, e a crise parece longe de se resolver.

 

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