Vitor Andrioli

Vitor Andrioli

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP com Mestrado em Desenvolvimento Econômico pela UFPR. Trabalha desde 2015 na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil como analista de Câmbio e Algodão.

Dólar retorna aos R$ 3,30 com adiamento da votação da Previdência

Divisa teve ligeiro avanço no exterior, limitado pela perspectiva dovish do Fed

Diante da falta de transparência e da comunicação descuidada do governo sobre a reforma da Previdência, o dólar comercial encerrou a última sexta-feira em alta semanal de 0,4% cotado a R$ 3,308. Na véspera, a confirmação do adiamento da votação da PEC 287/16 para o ano que vem levou a divisa a flertar com o patamar de R$ 3,34, seu maior valor intradia em cerca de seis meses.

Cenário doméstico

O mercado cambial brasileiro iniciou a semana exibindo certa estabilidade, com o dólar comercial avançando apenas 0,08% para o patamar de R$ 3,297 na segunda-feira (11). Em seu maior fechamento desde meados de novembro, a moeda americana continuava a acompanhar de perto as perspectivas para a aprovação da reforma da Previdência. Depois de abrir o dia em baixa, cotada em torno dos R$ 3,28, a divisa obteve suporte da fala do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), afirmando ser “difícil” votar a reforma da Previdência na Casa na semana de 18 a 22 de dezembro. Maia indicou que a matéria só irá a plenário caso o governo possa oferecer “garantias muito claras” de que terá o apoio dos deputados.

No mesmo dia, a declaração do deputado Carlos Marun (PMDB), substituto de Antonio Imbassahy (PSDB) na Secretaria de Governo pelo presidente Michel Temer, indicando que o governo ainda precisaria conquistar entre 40 e 50 votos a favor da Previdência também contribuiu para a apreensão dos investidores com a medida. “Temos um crescimento constante [de votos], mas ainda não se criou aquela onda.”, afirmou o peemedebista sobre a proposta. Para aprovar a PEC 287/16 ainda em 2017, o governo teria de contar com o apoio de pelo menos 308 deputados em 2 turnos de votação. De acordo com Marun, as discussões sobre a medida teriam início na Câmara na quinta-feira (14).

O real esteve entre as moedas com um dos piores desempenhos diante do dólar na terça-feira (12), desvalorizando-se sob o peso das expectativas cada vez menos otimistas com a aprovação da reforma da Previdência e do movimento da divisa nos mercados internacionais. Com volume de negociação reduzido na sessão, a taxa de câmbio da moeda brasileira registrou forte alta de 0,9% cotada a R$ 3,328, seu maior valor desde 23 de junho. Os contratos futuros da moeda na BM&;F também fecharam o dia em alta de 0,9%, apesar do anúncio no final da tarde da data do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na segunda instância da justiça, que pode impedi-lo de concorrer nas eleições de 2018 pela lei da Ficha Limpa. A notícia gerou entusiasmo na última meia hora de pregão no mercado acionário e levou o Ibovespa a encerrar o dia em alta.

Após quatro sessões seguidas em desvalorização, a moeda brasileira voltou a se recuperar na quarta-feira (13), obtendo fôlego do agendamento da data do julgamento de Lula anunciado na noite anterior, assim como da decisão do PSDB fechando questão a favor da reforma da Previdência. Na sessão, o dólar comercial recuou 0,4% ante o real, fechando no patamar de R$ 3,316.

A notícia de que o ex-presidente deve ser julgado pela segunda instância no caso do tríplex do Guarujá em 24 de janeiro trouxe algum otimismo entre os investidores. O mercado associa o ex-presidente a políticas econômicas menos ortodoxas e também projeta que seu governo seria pouco eficaz na aprovação de uma agenda legislativa devido ao encolhimento da bancada do Partido dos Trabalhadores no Congresso.

O fechamento de questão do PSDB também foi recebido de maneira positiva pelo mercado, e levou a taxa de câmbio a registrar a mínima da sessão de R$ 3,288 por volta do meio-dia. A decisão política, no entanto, não dava garantias do apoio dos parlamentares do partido: o anúncio feito pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, recém-eleito presidente da legenda, não indicou punições àqueles que descumprirem a orientação de voto. De acordo com o líder tucano na Câmara, Ricardo Tripoli, cerca de 20 dos 46 deputados do PSDB declarou apoio à reforma.

Após o fechamento das negociações, o mercado acompanhou o anúncio da decisão de política monetária do Federal Reserve, assim como as declarações do líder do governo brasileiro no Senado, Romero Jucá (PMDB). Surpreendendo os investidores e o próprio governo, Jucá afirmou que há um acordo entre os presidentes da Câmara e do Senado para que a reforma da Previdência só seja votada em fevereiro. A afirmação foi mais tarde atenuada pelo governo, que manteve a leitura do projeto no plenário para esta quinta-feira.

Na quinta-feira, o dólar comercial voltou a assumir trajetória de alta motivado tanto pela comunicação desastrada do governo em torno da reforma da Previdência na véspera, quanto pela confirmação de que a votação da medida ficará para fevereiro do ano que vem. Depois de atingir a máxima de R$ 3,349 ainda pela manhã, a moeda americana encerrou o dia acumulando alta de 0,6% e cotada a R$ 3,337.

No dia anterior, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB), anunciou em coletiva que a PEC 287/16 só seria apreciada em 2018, declaração feita a contragosto do Palácio do Planalto e
rapidamente amenizada por meio de nota à imprensa. Em entrevista publicada pelo jornal Folha de São Paulo na quinta-feira, o senador voltou a afirmar que o governo não deveria “mistificar” a votação da Previdência: “Se não tem [os votos], o governo tem que dizer que não tem e está tentando conseguir”.

Durante a tarde do mesmo dia, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), acabou validando as afirmações feitas por Jucá. Maia comunicou que o projeto que modifica as regras das aposentadorias e pensões só deve ser discutida pela Casa a partir do dia 5 de fevereiro, quando os deputados retornam do recesso parlamentar, e votada na semana do dia 19 de fevereiro, após o Carnaval.

O projeto de reforma da Previdência foi apresentado pela primeira vez pelo governo de Michel Temer em dezembro de 2016 e sua aprovação havia sido prometida para o início do ano seguinte. Com tantos atrasos em sua votação, o mercado tem enxergado com ceticismo as chances de aprovação em 2018, visto que em anos eleitorais a disposição da classe política de discutir matérias impopulares, que supõem a revisão de direitos, é menor. Depois de definido o adiamento da reforma da Previdência e sem novas notícias, o dólar comercial encerrou a semana em correção, devolvendo parte considerável das altas registradas nos dias anteriores que o levaram à sua máxima em seis meses. Na sexta-feira (15), a divisa apresentou recuo de 0,85% diante do real, encerrando no patamar de R$ 3,308—próximo das mínimas do dia.

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