Ana Luiza Lodi

Ana Luiza Lodi

Formada em Ciências Econômicas pela UNICAMP com Mestrado em Teoria Econômica pela mesma universidade. Trabalha desde 2012 na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil, com foco na área de grãos.

Peste suína africana pode ser oportunidade para o Brasil

Uma maior produção de carnes aumenta a demanda interna por grãos

O mercado de grãos está muito centrado no clima nos EUA, que tem afetado o início do ciclo 2019/20, com excesso de chuvas e atrasos enormes no plantio, principalmente no caso do milho, o que pode acabar resultando em ganhos de área de soja de última hora.

A despeito das indefinições sobre a produção norte-americana, o lado da demanda por grãos também traz fatores de grande relevância, como a continuidade da guerra comercial entre China e EUA e os recorrentes surtos de peste suína africana no país asiático, que, antes da doença, respondia por cerca de 50% da produção mundial de carne de porco. Com os sucessivos casos de peste suína na China, desde agosto de 2018, há estimativas apontando que cerca de 40% do rebanho do país já possam ter sido afetados.

Diante desse cenário, além da preocupação com a demanda por grãos para ração, principalmente no caso da soja, commodity da qual o país é o maior importador mundial, há muita especulação de como a queda na oferta de carne suína para o mercado doméstico chinês será substituída.

A China já está demandando mais carne no mercado internacional, incluindo as compras de produto brasileiro. Contudo, considera-se que, mesmo todos os países do mundo aumentando as exportações de carne suína para a China, essa oferta ainda não será suficiente para compensar a queda da produção doméstica. Cabe lembrar, que no caso das compras chinesas de carnes, os países exportadores, como o Brasil, precisam cumprir requisitos e ter seus frigoríficos habilitados pelas autoridades do país asiático.

Dessa forma, mesmo que não seja possível fazer frente à totalidade da demanda chinesa, o momento atual é uma grande oportunidade para o Brasil aumentar sua produção e exportação de carnes. Neste cenário, o setor de carne de frango conta com uma maior facilidade, devido às próprias características do segmento, cujo ciclo é curto, em torno de 40 dias, o que permite uma resposta mais rápida da produção.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o aumento da demanda chinesa pode resultar em um novo recorde exportações de aves, por parte do Brasil, cujo crescimento anual em 2019 tenderia a superar 10%. No caso da carne suína, a instituição tem perspectivas de que o aumento possa ser superior a 20%, lembrando que em termos absolutos a produção de carne suína é muito inferior à avícola. É importante destacar que outros países também têm o potencial de aumentar a demanda pelas carnes com origem no Brasil, mas a maior demanda chinesa tende a ser o principal condicionante do crescimento das exportações.

Considerando-se um aumento das exportações de 10% para a carne de frango e de 20% para a carne suína, os embarques brasileiros destes dois tipos de proteína em 2019 alcançariam 4,51 milhões de toneladas e 770 mil toneladas, respectivamente. Em uma estimativa conservadora, assumindo-se que o crescimento da produção de carne suína e de frango se daria somente para atender uma demanda maior do setor exportador, mantendo o consumo interno inalterado, uma vez que as perspectivas para a recuperação econômica brasileira estão patinando, a produção de frangos em 2019 cresceria 3,2% e a de carne suína 3,5%.

Para atender a exportações e produção maiores, o consumo de insumos pela indústria de carnes, como milho e farelo de soja, que são os principais componentes da ração, também aumentaria. Em 2018, de acordo com a última previsão do Sindirações, foram consumidas 41,5 milhões de toneladas de milho e 14,9 milhões de toneladas de farelo de soja para o total de ração produzido no país, incluindo todos os tipos de criação. Para frangos de corte, o consumo de milho teria alcançado 20,5 milhões de toneladas e 7,8 milhões de toneladas de farelo de soja. Para a criação de suínos, o consumo de milho seria de 11,2 milhões de toneladas e 3,7 milhões de toneladas de farelo de soja.

Em 2019, um crescimento de 3,2% na produção de frangos de corte aumentaria o consumo de milho para 21,2 milhões de toneladas, ou mais 700 mil toneladas do cereal em comparação a 2018. No caso da produção de carne suína, o consumo de milho cresceria 400 mil toneladas, alcançando 11,6 milhões de toneladas. Para o farelo de soja, haveria um aumento de 250 mil toneladas, no caso da ração para frangos de corte, e de 130 mil toneladas para a ração de suínos.

Assim, pelo lado da demanda, tudo indica um momento muito favorável ao mercado brasileiro de carnes, com impactos no consumo doméstico de grãos. Os próximos movimentos da China continuarão sendo acompanhados de perto, para ver como ocorrerá a continuidade dos ajustes para substituir, pelo menos em parte, a queda de produção de carne suína no país.

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