Os impactos da peste suína africana

A epidemia da peste suína africana segue impactado drasticamente o mercado de carne suína no sudeste asiático, trazendo disrupção para toda a cadeia global de proteínas. Segundo estimativas da INTL FCStone, após produzir aproximadamente 54 milhões de toneladas (MT) em 2018, a China deverá ter sua produção anual de carne suína reduzida em pelo menos 30%, para 38 MT em 2019, dado tamanha a severidade e dificuldade de controle da doença.

Com um modelo de produção apoiado em baixíssima tecnologia, onde as atividades de criação, abate e comercialização são frequentemente compartilhadas pelos mesmos membros de uma mesma comunidade, o que facilita a propagação cruzada do vírus, e onde a ração animal pode ser facilmente contaminada pelo descarte impróprio de animais infectados, a indústria de produção chinesa é particularmente vulnerável à peste suína africana, o que explica sua rápida disseminação ao longo de todas as suas principais praças de criação desde sua introdução no país, em agosto de 2018. A impossibilidade do controle no curto prazo é ainda potencializada pela inexistência de uma vacina efetiva contra a doença, que apresenta taxa de mortalidade superior a 95% e viabilidade viral por até 6 meses fora do hospedeiro.

Assim, antecipam-se mudanças seculares tanto no padrão alimentar chinês, onde a carne suína corresponde por cerca de 75% da demanda total por carnes, quanto dos fluxos internacionais, uma vez que o país, maior produtor mundial, e que tradicionalmente é autossuficiente na oferta, se verá forçado a importar, frente a um déficit projetado em 16 MT, somente em 2019. Enquanto parte da demanda será atendida pela substituição da carne suína pela de aves e bovinos, projeções da equipe global de Inteligência de Mercado da INTL FCStone apontam para aumento das compras chinesas de carne suína em até 70% já este ano, para 3,5 MT, podendo alcançar 4,5 MT em 2020.

Contudo, poucas regiões no globo tem o potencial produtivo necessário para atender à parte significativa deste expressivo volume, equivalente a 1,6 vezes a quantidade de carne suína exportado ao longo de todo um ano, em todo o mundo. Além disso, barreiras comerciais tarifarias e não-tarifarias vem inibindo uma resposta mais ágil da indústria mundial, como consequência de maior volatilidade dos preços e maiores riscos à investimentos na produção.

Neste contexto, destaca-se a União Europeia, segundo maior produtor e maior exportador mundial de carne suína. Porém, o volume necessário para atender ao aumento esperado de compras chinesas revela-se muito superior ao atual excedente existente hoje na região, que anualmente exporta 2,9 MT. Há, sim, potencial para que a região expanda seu plantel de animais ao longo dos próximos anos. Porém, diversos países do bloco vêm apresentando focos de peste suína, com casos crescentes especialmente no leste europeu, o que poderia inibir a expansão da produção ou até mesmo retraí-la, caso a doença venha a se tornar epidêmica em importantes países produtores, como Alemanha e Espanha.

Nos Estados Unidos, terceiro maior produtor e segundo maior exportador global, barreiras tarifarias decorrentes da guerra comercial com a China vêm impossibilitando maiores margens ao produtor e retraindo a oferta. A situação é altamente dinâmica, com novos desdobramentos das negociações comerciais ocorrendo semanalmente, o que acarreta em incertezas e ineficiências logísticas que encarecem a comercialização e inibem investimentos.

O entrave entre Estados Unidos e China vem também respingando diretamente sobre o Canadá, quarto maior exportador mundial, que vem enfrentando suas próprias barreiras para acessar ao mercado chinês, especialmente desde que a China passou a proibir a importação da carne suína canadense após verificar ampla utilização de ractopamina na produção animal daquele país. O produto, utilizado para estimular a sedimentação de gordura animal, é permitido pelos órgãos canadenses reguladores, mas foi prontamente banido das importações chinesas após a prisão no Canadá e posterior extradição aos EUA de uma executiva chinesa do conglomerado Huawei, durante a escalada da guerra comercial ao início do ano.

Apesar das dificuldades, parece claro que um ajuste global da produção de carnes será inevitável ao longo dos próximos anos. Após espalhar-se por todas as principais praças de produção na China, o vírus segue avançando sobre Vietnã, Camboja e Laos, colocando em xeque a segurança alimentar de toda uma região cuja base da alimentação proteica tem na carne suína seu principal pilar de sustentação. Com tudo isso, fica evidente o cenário altamente desafiador para a indústria mundial de carnes, que se desdobra para os próximos anos.

Neste sentido, o Brasil, quarto maior produtor mundial e exportador de carne suína, possui ampla aptidão para alavancar sua oferta aos mercados asiáticos. Contudo, investimentos serão necessários e a indústria brasileira ainda vem se recuperando desde os impactos causados pelo embargo comercial russo às exportações nacionais em 2018. Além disso, a turbulência comercial global, insegurança cambial e possibilidade de introdução de novas barreiras não-tarifarias, como, por exemplo, em resposta de economias avançadas às queimadas na Amazônia, trazem riscos que desestimulam investimentos.

De qualquer forma, é mera questão de tempo até que a indústria mundial se organize frente a todos os desafios e aumente a oferta. Entre incertezas e riscos, só é certa a necessidade de maiores investimentos. A situação já começa a refletir em uma escalada dos preços globais e a conquista do mercado asiático desponta como oportunidade fantástica para todos os fornecedores. Mesmo assim, segue incerto quais players conseguirão aproveitar a oportunidade para expandir seus negócios.

Com tudo isso, para o Brasil desdobra-se um cenário extremamente favorável à sua indústria de carnes. O aumento da participação de produtos de maior valor agregado em detrimentos de grãos in natura na pauta de exportação nacional pode ser um divisor de águas no relacionamento do país com a China, seu principal parceiro comercial. Resta saber se o agronegócio nacional conseguirá agir com a diligência e investimentos necessários para aproveitar a oportunidade.

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