O mercado de milho e a nova dinâmica para a indústria consumidora

Escrito por Etore Baroni, consultor em gerenciamento de risco da StoneX Brasil.

Quem acompanha o mercado de milho há algum tempo sabe muito bem a quantidade de mudanças e ajustes que este vem sofrendo nos últimos anos em diversos aspectos.

Comecei a trabalhar no mercado agrícola em 1997 no interior do Estado de São Paulo e me lembro bem de duas palavras chave que sempre ouvia quando se referiam ao milho. São elas: cobertura e liquidez. Ainda menino, queria aprender e questionava tudo. Hoje, após anos na estrada acompanhando o mercado, sigo cada dia mais apaixonado pela agricultura e essas duas palavras fazem muito sentido na avaliação e nas mudanças do mercado de milho desde então.

Cobertura significa aquele milho que era plantado como segunda safra após a colheita da safra de verão de soja, assim, essa segunda safra serviria como cobertura da terra para que houvesse palhada e proteção na área para ser realizada uma boa safra de verão, até então a principal cultura da agricultura brasileira.

Essa segunda safra ficou famosa e conhecida como “safrinha”, uma vez que havia pouco investimento por parte do produtor e, consequentemente, os rendimentos eram bem menores que os rendimentos do milho verão, por exemplo.

Hoje, temos investimentos altos que, aliados com os ajustes nas tecnologias e colaboração do clima, fazem com que a produtividade da safrinha suba ano a ano. O que era uma safra somente para cobertura, se tornou uma cultura tão importante quanto a soja da safra verão, para a composição da receita e rentabilidade do produtor e a safrinha na verdade, se tornou um safrão.

A segunda palavra é liquidez. Essa na verdade é a principal mudança que estamos vendo nos últimos 5 anos no mercado de milho e a mais rápida e profunda para o mercado, principalmente na questão do preço.

Me lembro da dificuldade de vender um volume mesmo que pequeno de milho. Era dureza, depois que a safrinha era colhida, o volume era armazenado nos silos e as empresas iam vendendo de acordo com a necessidade e apetite da indústria.

De 2010 pra cá, quando o Brasil deu um salto na produção de milho safrinha, vimos uma mudança muito forte, tanto na produção, quanto na comercialização e liquidez do milho brasileiro.

A safra de milho verão veio reduzindo sua área plantada ano a ano, à medida que a soja se tornou muito mais rentável e com menos risco que o milho. Mesmo com o aumento de ganho de produtividade no verão, a queda da produção foi inevitável. Dessa forma, a produção da safra de verão, que chegou a ser de 40 milhões de tons em 2008, hoje estacionou e gira perto de 26 a 28 milhões de tons por ano.

Por outro lado, a safrinha veio subindo área plantada ano a ano, o que consequentemente aumentou muito a produção de milho no segundo semestre. Saímos de uma área próxima de 5,4 milhões de hectares em 2010 para quase 14 milhões de hectares em 2020, fazendo com que a produção saísse de 22 para perto de 75 milhões de toneladas. Podemos ver essas evoluções de área e produção nos gráficos abaixo:

Todo esse ajuste entre safra verão e safrinha tem o seguinte balanço na produção de 2010 pra cá:

  • Área de milho verão: saiu de 7,72 mi hectares para 4,16 mi hectares = queda de 3,56 mi há (- 46,11%)
  • Produção de milho verão: de 34,1 milhões de tons para 26,6 milhões de tons = queda de 7,50 milhões de tons (- 22%)
  • Área de milho safrinha: saiu de 5,27 mi hectares para 13,38 mi há = aumento de 8,11 mi hectares (+ 153,89%)
  • Produção de milho safrinha: de 22,5 milhões de tons para 73 milhões de tons = aumento de 50,50 milhões de tons (+ 224,44%)

Vejam que tivemos grandes mudanças na produção de milho. Uma das principais é a redução da área plantada da safra verão ano após ano. Por outro lado, a área da safrinha aumentando ano após ano, vem fazendo com que o mercado sofra um aperto de balanço entre oferta e consumo no primeiro semestre, e uma oferta muito além do consumo no segundo semestre.

Nesse mesmo período, tivemos um crescimento considerável no consumo interno. Saímos de 48 milhões de tons para 68 milhões de tons, um aumento de 20 milhões de tons. Se dividirmos esse consumo por semestre de uma forma simplista, o país consome 34 milhões de tons de milho por semestre. Então, se no primeiro semestre o verão produz 26 milhões de tons e consome 34 milhões de tons, esse período é totalmente dependente do estoque de passagem do ano anterior para chegar até a próxima safrinha. Ao mesmo tempo, entrando a safrinha no segundo semestre, a oferta de milho de 75 milhões de tons é muito maior que a demanda interna do semestre, que necessita da exportação para enxugar o mercado interno e não derreta o preço do milho ao produtor.

No geral, nesse período, tivemos um aumento da produção total de milho de 56,60 milhões de tons para 101 milhões de tons e um acréscimo na demanda interna somente de 20 milhões de tons. Olhando assim, de forma simplista, teoricamente a indústria interna consumidora não teria com o que se preocupar, uma vez que a produção subiu 43 milhões de tons no período, enquanto o consumo aumentou somente 20 milhões de tons a mais, correto? Errado. É aí que entra a questão da liquidez.

De 2010 para cá, foram criados dois mercados para o milho brasileiro. O primeiro chama-se etanol, com foco na região Centro-Oeste do país, que consome hoje em torno de 7,5 milhões de tons, com expectativa de aumento em média entre 1 a 2 milhões tons por ano. Acredito que essa questão do etanol veio para ficar, uma vez que pelo preço do milho, essas indústrias têm payback médio de 5-7 anos, o que é excelente para um ativo do agronegócio. Ainda veremos muitos investimentos nos próximos anos mais focados na região Centro-Oeste do país, região com pouca produção de etanol de cana, alta produção de milho e com um fator muito importante: cadeia de bovinos, destino do DDG que é o subproduto (farelo de milho) que sobra do processo do etanol de milho.

O segundo mercado, e principal em relação ao volume, é a exportação. Saímos de uma exportação de 10 milhões de tons em 2010, para 41 milhões de tons em 2019. Para 2020 a projeção da StoneX é de 34,5 milhões de tons.

Notem que todo o aumento da produção de milho na safrinha, foi sendo destinado a novas demandas. Isso tem deixado o mercado interno com níveis de estoques apertados e mantendo preços firmes no interior, mesmo com todo o ganho de produção que tivemos nos últimos anos.

O mundo produz hoje perto de 1,165 bilhões de tons e o Brasil somente 101 milhões de tons (8,67% do total da produção mundial). Mas, mesmo com produção muito menor que o Estados Unidos por exemplo, 385 milhões de tons, o Brasil hoje é o segundo maior exportador de milho mundial com 35 milhões de tons ficando atrás de EUA com projeção de 56,5 milhões tons.  Então, a exportação brasileira ganhou mercado nos últimos anos e veio para ficar.

Adicionando, temos mais alguns pontos sobre a avaliação.

1 – Logística: Temos que considerar que tivemos profundas melhoras nas questões logísticas nos últimos anos. Tivemos investimentos privados e governamentais, melhorias e organização nos portos, ajustes internos de estradas que nunca saíam do papel e travavam o escoamento brasileiro. Isso torna possível exportar 16 milhões de tons de soja em um único mês em plena safra. Essa melhora faz com que a soja seja escoada cada vez mais rápido no primeiro semestre e deixa a logística praticamente livre para a exportação do milho no segundo semestre, momento do pico de colheita da safrinha. Temos que lembrar que em alguns anos atrás, essa era quase impensável exportar soja e milho no mesmo tempo, o que acontece hoje de forma natural.

2 – Produtor: O produtor se modernizou, investiu, cresceu em produção e, juntamente a isso, tem hoje em suas mãos pelos celulares, de forma instantânea, informações de safra, preço, mercado do Brasil e do mundo. Há 10-15 anos atrás, pensar que o produtor iria acompanhar cotações na bolsa de Chicago, dólar, níveis de preços, dentre outras coisas, era algo somente para produtores muito grandes e empresas. Hoje praticamente todos tem as informações de preços quase que ao vivo.

Outro fator importante do lado do produtor é a comercialização antecipada, mais um fator que impulsionou a liquidez. Em anos anteriores, excluindo o Mato Grosso, o produtor praticamente não vendia milho antecipado. O produtor aguardava o plantio, e o bom andamento da safra era determinante para suas vendas. Hoje isso mudou. Claro que com a ajuda do dólar alto, que puxa os preços para cima no porto, como também no interior.

Então vamos lá, fazendo um resumo da movimentação do mercado de milho temos: consumimos 68 milhões tons, passamos em média nos últimos anos com estoque de passagem de um ano para o outro de 10 milhões tons, produz 100-102 milhões tons por ano e exporta perto de 35 milhões tons.

E quais as principais mudanças do mercado dos últimos anos? São várias. O milho verão que antes abastecia o 1ª semestre e chegava até a entrada da safrinha não chega mais com a queda na produção. A safrinha é, a cada dia que passa, vendida mais antecipadamente. A exportação e o etanol vieram para ficar, e o produtor cada vez mais capitalizado e com muita informação em relação aos preços, escolhe os melhores momentos para seus negócios.

Se voltarmos 10-15 anos, toda a produção de milho brasileira ficava no mercado interno, não tinha concorrência nenhuma. Colhia verão e safrinha, as empresas no mercado interno sabiam que teriam o volume dentro de casa e compravam à medida que fosse necessário. Era relativamente confortável para a indústria, uma vez que o milho ficava 100 % no mercado interno e não havia competição de demanda.

Hoje, com a atual mudança, temos um mercado muito mais competitivo que, além da indústria de proteína e indústria em geral comprando, temos mais o etanol e a exportação que conseguem precificar esse produto para 1, 2, 3 anos antecipadamente.

E esse é o principal fator de mudança no mercado. A indústria consumidora não pode ficar vendo o mercado rodar antecipado seja na exportação ou para o etanol e não se posicionar, é muito arriscado. Esse volume pode rodar, seja ele no mercado interno ou na exportação e termos exatamente o que está acontecendo hoje no Brasil. Estamos colhendo a segunda maior “safrinha” da história com 73 milhões de tons e sem oferta de milho. Mas como assim? Sim, em plena a colheita, não tem oferta, porque 75% do volume desse milho já foi negociado nos meses anteriores e agora em plena colheita, resta pouco volume a ser comercializado.

Essa é uma mudança que estamos vendo há anos e viemos falando com os nossos clientes consumidores a respeito. E como participar disso? Não é simples, mas é crucial para a manutenção dos custos de produção. As indústrias consumidoras (proteínas), terão que se adaptar e ajustar internamente sua operação e ir participando da originação à medida que o mercado interno for rodando. Dizemos que a indústria terá que tomar posição parecida com as tradings. Deixar de ser um consumidor. Deixar de somente avaliar se o preço está caro ou barato, se cabe ou não no custo para posicionar as compras futuras. Esforço que será crucial para não deixar a operação no risco de volume e preço. Temos novos concorrentes, o mercado mudou e a necessidade de ajuste na operação é inevitável. Se ficar aguardando o preço chegar a um nível confortável ou esperar a colheita para comprar, corre o risco de não ter volume disponível no mercado.

Para isso, avalie bem, tenha informações reais e não midiáticas do mercado, entenda e tenha certeza de que sua equipe conhece 100% da dinâmica do mercado e os instrumentos de proteção e hedge para operações futuras.

Dessa forma, você terá uma operação muito mais saudável e competitiva no mercado, com maior previsibilidade de orçamento e margem, se ajustando à medida que o mercado exigir. O mercado é cada mais dinâmico e necessita de melhorias e ajustes constantes. Avalie sua operação, avalie o mercado, tenha segurança no dia a dia e vamos em frente.

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