Exportações do Brasil chegando ao limite. Quais são as opções da China?

Volume programado para exportação já atinge 76,56 milhões de toneladas e se aproxima do teto. Último trimestre de 2018 será crítico para a comercialização de soja

Enquanto os dados da Secex apontam que entre janeiro e setembro de 2018 o Brasil exportou 69,21 milhões de toneladas de soja, informações portuárias apontam para um volume significativamente maior: 73,66 Mt. Neste caso, como mais de 2,90 Mt já estão programadas para saírem de portos brasileiros, a exportação do Brasil deverá chegar a 76,56 Mt até o fim de outubro. O volume representa cerca de 98,2% da estimativa da INTL FCStone, de 78 Mt em 2018, o que indicaria forte proximidade ao fim do ciclo de exportação. Na verdade, caso se confirmem, os dados apontam para a possibilidade de que novembro e dezembro apresentem uma exportação média de apenas 721 mil toneladas, o que poderia levar à um desabastecimento de proteína na China, pelo menos até a chegada da safra brasileira 2018/19, a partir de janeiro de 2019.

Assim, para evitar um eventual desabastecimento no último trimestre, o mercado pode tomar algumas medidas para continuar a abastecer o mercado Chinês, que serão exploradas a seguir. São elas:

  • Triangulação de soja dos EUA
  • Soja dos EUA esmagada no Brasil
  • China importa soja dos EUA
  • China trabalha com a menor oferta e aguarda a safra brasileira 2018/19
  • Contrabando de soja por outros países

Triangulação de soja dos EUA

A triangulação comercial ou o comércio triangular é um termo utilizado para descrever um fluxo comercial de um mesmo produto ou de uma cadeia de produtos entre três países diferentes. Este fluxo ocorre quando um país exporta produtos importados com nenhuma ou quase nenhuma agregação de valor, buscando se aproveitar de vantagens comerciais ou de barreiras tarifárias contra o país original.

O governo Trump até mesmo acusou o Brasil, em março deste ano, de triangular o aço da China, aproveitando os impostos colocados sobre as importações chinesas. Iremos considerar agora a possibilidade do Brasil triangular soja dos EUA para a China.

Considerando as cotações do início de outubro, o preço FOB de soja brasileira em Paranaguá se encontrava 22,5% acima do cotado no Golfo dos EUA. Mesmo com o preço maior, a soja do Brasil chegava no porto de Dalian, na China, com uma cotação 2,9% inferior à dos EUA, devido à tarifa de 28% colocada sobre o produto norte-americano.

Este diferencial de preço devido à taxação abre a possibilidade do Brasil importar a soja dos EUA e reexporta-la para a China, como um produto nacional. Com dados para o início de outubro, o preço final da soja triangulada na China ficaria em US$522,4/tonelada, cerca de 1,7% mais cara do que a exportação norte-americana e 4,7% mais cara do que a soja brasileira. Contudo, esta conta considera os custos portuários de embarque e desembarque — operação que permite que a soja troque de navio, para que sejam emitidos novos documentos de exportação,  eliminando as evidencias da operação. Porém, é possível que empresas exportadoras emitam novos documentos e utilizem o mesmo navio para realizar a triangulação, eliminando os custos portuários de embarque e desembarque. Neste caso, eliminando-se os custos portuários, a soja triangulada chegaria em portos chineses cotada a US$475,3/tonelada, cerca de 4,7% mais barata do que as exportações brasileiras atuais. No entanto, isso aumenta o risco de identificação, o que pode prejudicar os laços comerciais destas empresas com a China.

Soja dos EUA esmagada no Brasil

Outra possibilidade seria a importação de soja dos EUA para ser esmagada no Brasil, exportando o farelo de soja para a China.

Esta opção é viável, desde que a soja seja esmagada no porto brasileiro. Considerando a importação para o porto de Paranaguá e o esmagamento em uma das três esmagadores presentes no local, a soja norte-americana importada ficaria cerca de 5% mais barata do que a atual cotação da soja brasileira no porto, considerando uma taxa de câmbio de US$ 3,90.

Porém, a maior parte das unidades esmagadoras estão no interior do país e não nos portos, o que poderia encarecer a operação, inviabilizando-a. Por exemplo, considerando-se o esmagamento em Ponta Grossa, a 215 km de Paranaguá, a soja norte-americana ficaria 4,98% mais cara em relação à cotação local.

Segundo levantamento da INTL FCStone, apenas 13 unidades se encontram suficientemente próximas aos portos para permitir a viabilidade desta operação; menos de 10% das plantas nacionais.

Consequentemente, o volume de soja que poderia ser importado dos EUA para esmagamento nos próximos meses não deve atingir níveis elevados o suficiente para causar algum impacto significativo no balanço dos EUA. Em contrapartida, esses pequenos volumes de farelo podem ajudar a China a ter acesso à proteína enquanto a safra brasileira 2018/19 não é colhida.

China importa soja dos EUA

A China também possui a possibilidade de passar a comprar soja norte-americana, considerando que mesmo com a tarifa os preços colocados no porto de Dalian se encontram atrativos.

Entretanto, esta alternativa passa por questões além de comerciais, dado que a atual guerra entre EUA e China não é apenas comercial mas também está tendo um tom político, de disputa de força entre as duas maiores economias do mundo. A China passaria a importar soja diretamente dos EUA , o que poderia ser percebido como um sinal de fraqueza em momento de guerra comercial, o que está sendo evitado de todas as maneiras pelo governo Chinês.

Também houve relatos do governo ter explicitamente sugerido às suas tradings estatais que evitassem a compra de soja norte-americana, mesmo quando as cotações forem atrativas. Todas estas questões fazem com que esta alternativa seja menos provável.

China trabalha com a menor oferta e aguarda a safra brasileira 2018/19

Caso o Brasil não triangule e nem importe soja dos EUA para esmagar, a China se encontraria com uma séria falta de proteína no último trimestre de 2018. O país, contudo, pode lidar com a situação, mantendo a busca por outras fontes proteicas e abatendo animais com menor peso de carcaça.

Isto elevaria o custo da guerra comercial sobre o setor de proteína animal chinês. A escassez de oferta seria normalizada a partir da entrada da safra 2018/19 do Brasil, em janeiro, e da safra argentina, em março. Serão três meses nos quais a China terá de lidar a falta de proteína.

Contrabando de soja por outros países

Por fim, como última possibilidade, está o contrabando da soja norte-americana. Trata-se de uma pratica bastante comum em outros mercados de commodities, como no açúcar, no qual é utilizada para se contornar tarifas e barreiras de importação. Em 2015/16, por exemplo, estima-se que Myanmar importou quase 3 milhões de toneladas de açúcar, com parte importante deste volume sendo adquirido para o contrabando à China.

Estes mercados secundários de soja podem começar a aparecer em países que fazem fronteira com a China, mas empresas que forem descobertas comprando soja nestes mercados enfrentarão sérias sanções do governo, assim como ocorre com compradoras de açúcar do mercado negro.

Conclusão

Analisamos algumas das principais formas que a China poderá lidar com a falta de soja nos próximos meses, diante do esgotamento da oferta brasileira. Vale notar, no entanto, que em todos os casos discutidos há perda de eficiência e aumento significativo de custos, resultado da guerra comercial e da imposição de tarifas tanto pelos EUA quanto pela China.

Todas as opções apresentam um aumento de custo com taxas portuárias, taxas de importação ou fretes frente à exportação dos EUA sem a sobretaxa. A possibilidade de contrabando ainda coloca um custo adicional de aumento de incerteza sobre o mercado, dado que não se sabe a qual preço ou qual volume estaria entrando no mercado chinês.

Matéria escrita por João Macedo, colaborador INTL FCStone até janeiro de 2019.

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