Lucas Pereira

Lucas Pereira

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, com passagem pela School of Management da Technical University of Munich. Trabalha desde 2018 na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil, atuando nos mercados de Grãos e Pecuária.

Definição acerca da Guerra Comercial influenciará área do milho nos EUA

Negociações entre China e EUA impactam preços futuros do milho e da soja, referência para as decisões de plantio dos produtores norte-americanos

Entre o final de fevereiro e meados de março, os produtores de grãos norte-americanos decidem em relação ao plantio de culturas na nova safra. Uma vez que tanto a soja como o milho podem ser cultivados nas mesmas condições de clima e solo, tais produtores determinam a proporção do uso da área cultivável disponível para cada uma das culturas, tendo em vista obter a maior rentabilidade possível no final do período.

Com efeito, a fim de mensurar e relacionar a rentabilidade de cada uma das culturas, os produtores usam como referência os contratos futuros negociados em Chicago dessas commodities para os meses de referência para a comercialização da safra que será colhida. No caso da soja, tal preço é a cotação do contrato com vencimento para o mês de novembro da safra nova; ao passo que para o milho é utilizado o vencimento para o mês de dezembro do mesmo ano.

A simples razão entre os dois preços, denominada ratio, indica ao produtor qual cultura irá gerar a maior rentabilidade por área cultivada. Ratios elevados significam que os preços da soja estão mais altos em relação aos do milho, o que faz com que a soja seja comparativamente mais lucrativa. Analogamente, ratios menores indicam retornos maiores para o milho em relação à soja.

Com efeito, se é verificado em meados de fevereiro um ratio elevado entre o preço da soja para novembro e a cotação do milho para dezembro, a tendência é que haja uma ampliação da área plantada de soja naquele ano-safra, em detrimento do plantio de milho. Caso seja registrado um ratio baixo, a tendência é a inversa.

Nos últimos meses, um dos principais drivers das cotações dos grãos em Chicago tem sido a guerra comercial entre EUA e China. Desde junho de 2018, as tarifas de importação impostas pelos dois países para uma série de produtos, sobretudo commodities agrícolas, têm afetado significativamente o mercado internacional de grãos, principalmente a soja.

No caso norte-americano, a soja se torna comparativamente mais sensível do que o milho ao conflito comercial por conta do demanda pela produção de soja dos EUA. Na safra 2017/18, 49,6% da produção de soja dos EUA foi destinada às exportações, sendo que 49% desse montante foi adquirido pela China — padrão recorrente nos últimos anos. Com o conflito tarifário e forte retração das importações chinesas, que atingiram níveis praticamente nulos no final do ano, os preços da soja em Chicago passaram a ficar em um patamar menor.

A produção de milho nos EUA, por sua vez, se mostra menos dependente das exportações do que a soja: em 2017/18, apenas 16,5% da produção norte-americana foi destinada ao mercado externo. Isto pois a demanda interna para consumo de milho é consideravelmente grande e constante, impulsionada pela utilização do cereal como ração animal e como insumo industrial, principalmente na produção de biodiesel. Apesar de a guerra comercial também exercer pressão nos derivativos do milho, esta é menos acentuada que no caso da soja.

Portanto, embora o preço de ambas as commodities tenha registrado propensão baixista com a tensão sino-americana, o milho demonstra a tendência de recuar relativamente menos do que a soja. Com efeito, desde o estopim do conflito em junho, é observada a diminuição da razão entre os contratos da soja e do milho para os meses finais da safra 2019/20.

No primeiro semestre de 2018 o ratio variou entre a faixa de 2,35 e 2,45, acima da média dos últimos anos. Entretanto, com o acirramento da relação entre os dois países a partir de junho, o ratio demonstrou forte recuo—operando abaixo da média para o período até meados de novembro. Neste mês, a perspectiva de avanço nas negociações entre EUA e China no encontro do G20 em Buenos Aires promoveu uma valorização relativa da soja, elevando o ratio.

Desde então, as cotações da soja e do milho em Chicago têm variado entre uma faixa relativamente ampla de preços, alternando movimentos de alta e de baixa em meio ao clima de incerteza que voltou a ser a característica marcante das negociações entre EUA e China. Assim, o ratio apresenta comportamento semelhante, oscilando próximo da média dos últimos 3 anos.

Nas próximas semanas, que serão fundamentais para a decisão de plantio dos produtores norte-americanos, o principal fator determinante dos preços da soja e do milho em Chicago –e, portanto, do ratio—continuará sendo as negociações entre EUA e China. Caso as conversas avancem e se aproximem de um acordo, haverá a tendência de valorização da soja e elevação do ratio. Por outro lado, se o conflito permanecer indefinido o milho poderá ser favorecido nas decisões de plantio este ano.

Contudo, destaca-se que o ratio não é a única variável observada pelos produtores no processo de decisão de plantio. Fatores como condições climáticas, nível de estoques e compra antecipada de sementes e fertilizantes também são determinantes. De qualquer maneira, o acompanhamento do ratio se faz um indicativo relevante nesse contexto.

Em 2018/19, o ratio médio no mês de fevereiro foi de 2,56, valor que pode ser considerado elevado quando comparado com a média histórica. Com efeito, na safra passada foi verificada uma expansão de 8,3% da área cultivada da soja nos EUA, ao passo que a área do milho recuou 4,6% no mesmo período. Este ano, o ratio está atualmente em cerca de 2,38, patamar relativamente baixo—o que pode indicar uma redução da área da soja, com avanço do milho e demais culturas.

No entanto, tal decisão será fortemente influenciada pelo andamento das negociações acerca do conflito entre EUA e China. Além disso, o subsídio oferecido pelo governo norte-americano ao cultivo de soja também exercerá influência, podendo minimizar o efeito do milho relativamente mais lucrativo.

O USDA divulgará seu relatório de intenção de plantio no final de fevereiro, fornecendo os primeiros indícios do que será observado ao longo da safra 2019/20.

Facebook
Google+
Twitter
LinkedIn

Veja também

Teste já!

Experimente nossa plataforma de relatórios gratuitamente
Carrinho Item removido. Desfazer
  • Sem produtos no carrinho.