Ana Luiza Lodi

Ana Luiza Lodi

Formada em Ciências Econômicas pela UNICAMP com Mestrado em Teoria Econômica pela mesma universidade. Trabalha desde 2012 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, com foco na área de grãos.

Com superciclo ou não, China pode mudar a dinâmica do mercado de milho

Atualmente, a maior parte das commodities, das energéticas às agrícolas, apresenta tendência de elevação dos preços, situação que tem levantado a possibilidade de estarmos entrando num novo superciclo.

De maneira simplificada, um superciclo é caracterizado por um desequilíbrio entre a demanda e a oferta, que leva um longo tempo para ser ajustado, mantendo os preços das matérias-primas fortalecidos. Como exemplo, podemos citar o superciclo entre 2001 e 2014, com destaque para o papel do crescimento chinês e dos estímulos pós crise de 2008.

Por outro lado, essa denominação de superciclo, atualmente, também tem sido utilizada para descrever um período mais curto, em torno de um ano, que duraria, assim, até meados de 2022, quando um reequilíbrio já estaria a caminho.

Independentemente, de se estamos ou não iniciando um superciclo, com destaque aqui para as commodities agrícolas, e das divergências que rondam essa denominação, considero ser interessante olhar mais de perto para a situação atual do mercado de milho, dada a sua representatividade para o agronegócio brasileiro.

No mercado doméstico, os preços do cereal estão muito fortalecidos desde meados de 2020, devido a uma combinação de fatores, como as vendas antecipadas, o real desvalorizado, o relaxamento do isolamento social e as exportações aquecidas. Além disso, outros players também tiveram uma participação importante nessa conjuntura, com a safra 2020/21 dos EUA ficando aquém do esperado e a China comprando quantidades significativas de milho norte-americano.

Diante desse cenário, 2021 começou com a manutenção de preços elevados do cereal no mercado interno brasileiro, mesmo com a entrada da primeira safra, que corresponde a cerca de um terço do volume produzido durante safrinha. Foram tomadas medidas para tentar aliviar as cotações, como a suspensão da Tarifa Externa Comum (TEC), para se importar de fora do Mercosul, uma vez que o milho é o principal custo na produção de carnes, respondendo por cerca de 65% da composição das rações.

Com isso, a grande expectativa estava na nossa segunda safra, que poderia ultrapassar 80 milhões de toneladas neste ano, mas, além dos atrasos no plantio, o clima não ajudou, com pouca chuva em abril e maio, inclusive, com o país estando diante de uma séria crise hídrica. Atualmente, a StoneX estima que a produção da safrinha 2021 atingirá apenas 62 milhões de toneladas.

Além dessa perspectiva de quebra no Brasil, é importante destacar que tanto Argentina quanto Ucrânia enfrentaram problemas em suas safras 2020/21 e que o ciclo 2021/22 dos EUA, cujo plantio foi recentemente finalizado, ainda está diante de muitas incertezas, com perspectivas de um balanço de oferta e demanda apertado no país. Como já ressaltado, a China tem centrado suas importações de milho nos EUA, comprando mais de 23 milhões de toneladas do cereal norte-americano do ciclo 2020/21. Ressalta-se, também, a recuperação do setor de etanol dos EUA, após o impacto inicial da pandemia, que tem mostrado um maior ímpeto que o esperado anteriormente.

Assim, em meio a uma demanda aquecida ao redor do mundo, as atenções estão voltadas para a oferta. Mesmo que a safra norte-americana registre crescimento de área e uma boa produtividade, resultando em volumes elevados de produção, precisamos acompanhar como vai ser o próximo ciclo em outros países, como Brasil, Argentina, Ucrânia e a própria China. Safras sem maiores problemas tenderiam a dar uma folga à disponibilidade do cereal ao redor do mundo, o que vai ao encontro das perspectivas de que um equilíbrio entre a oferta e a demanda poderia ser alcançando em um período mais curto.

Por outro lado, não podemos esquecer da China. No ano safra 2020/21, o país asiático já vai ocupar o posto de maior importador mundial de milho, com estimativas em 26 milhões de toneladas. A título de comparação, até o ciclo passado as compras externas do cereal ficavam ao redor de 5 milhões de toneladas. A China é o segundo maior produtor de milho, atrás somente dos EUA, e vinha participando pouco do comércio exterior do grão até a metade de 2020. Os dados disponíveis indicam que o país conta com estoques elevados de milho, mas o aumento dos preços domésticos e a maior importação levantam dúvidas quanto à qualidade e os volumes desses estoques.

Pelo lado da demanda chinesa, além da recuperação do rebanho suíno, depois de controlada a pior fase da peste suína africana, cujos surtos eclodiram em agosto de 2018, existem planos para investimento em energia limpa, que contariam com uma importante participação do segmento de etanol. Devido aos preços elevados do milho e à necessidade de se importar mais, a intenção de se atingir uma mistura de 10% de etanol na gasolina está em compasso de espera, mas deve ser retomada num futuro próximo.

Dessa forma, por mais que a oferta mundial de milho se “normalize” já no próximo ano, a demanda chinesa pode ser um fator que vai mudar profundamente a dinâmica global do setor, a exemplo do ocorrido na década de 2000, com a soja.

 

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