Clima impõe desafios e incertezas para a safra de milho nos EUA

Nos últimos três meses, a precipitação acumulada nos estados do Meio Oeste norte-americano excedeu, em média, mais de três vezes o volume esperado para o período. Ademais, nesta primavera no hemisfério norte, o clima tem sido marcado por temperaturas inferiores ao normalmente registrado.

Com efeito, o cenário climático atual traz impactos relevantes para a produção agrícola no país, e tem sido o foco central das discussões acerca da safra norte-americana em 2019/20—sobretudo em relação ao milho, já que os números finais da safra, como área plantada, produtividade e produção, estão diretamente associados ao tema.

O atraso no plantio do milho e a possível redução da área plantada

O efeito mais imediato das chuvas no Meio Oeste dos EUA é o atraso no plantio da safra nova, uma vez que o clima adverso inviabiliza os trabalhos no campo. Na região, que é o cinturão agrícola do país, há diversos casos de fazendas inundadas, o que impede o acesso de caminhões e maquinário.

Nesse contexto, o milho tem sido muito afetado, já que possui a janela de plantio com o início mais precoce, em comparação à soja, começando no início de abril. Com efeito, 2019 já é o ano com o progresso de plantio mais demorado do registro histórico.

A região do corn belt é a mais impactada pelas chuvas, notadamente, os estados de Illinois, Iowa, Kansas e Nebraska—que, somados, respondem por 48% da produção de milho do país. De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), até o momento, o plantio do cereal registra progresso de 80% tanto em Iowa como em Nebraska, ante média para a data de 98% para ambos os estados. Em Illinois, principal produtor, a situação é mais crítica: apenas 45% da área de milho foi plantada, consideravelmente inferior à média histórica de 97%. No agregado para os EUA, 67% da safra de milho total encontra-se semeada, o que se compara a uma média de 95% para a data em questão.

Nesse cenário, destaca-se que a janela ideal de plantio do milho nesses estados se encerra entre a última semana de maio e a primeira semana de junho – isto é, caso o milho seja semeado após esse período, há menor probabilidade que a safra tenha desenvolvimento adequado.

Com isso, cresce a perspectiva de que a área plantada final de milho na safra 2019/20 poderá ser menor do que a previamente estimada, havendo possibilidade de troca de área em favor da soja—cuja janela de plantio é mais prolongada. No momento, ainda restam mais de 12 milhões de hectares de milho a serem plantados, cerca de um terço da área total estimada pelo USDA para o ciclo atual.

A incerteza sobre a produtividade da safra

O atraso no plantio e a possível redução de área têm motivado a trajetória altista das cotações dos contratos futuros milho em Chicago nas últimas semanas. No entanto, o ímpeto recente nos preços é suportado, também, pela preocupação de que o clima adverso levará a rendimentos inferiores ao projetado para o ciclo 2019/20. Isto pois, mesmo que plantado dentro da janela de plantio, o milho enfrentará condições de solo, umidade e temperatura desfavoráveis—o que pode reduzir a produtividade final da safra.

Nesse sentido, é valido analisar o Índice de Saúde da Vegetação (ISV) das principais regiões produtoras. O ISV pondera impactos da temperatura e umidade sobre as lavouras, variando de 0 (estresse extremo) a 100 (condições ideais), e pode ser considerado um indicador de produtividade, principalmente se comparado com os valores observados em outros anos.

Desse modo, por exemplo, verifica-se que o ISV da área agricultável de Iowa está atualmente abaixo da média para o período, enquanto o índice de Illinois, embora ainda elevado, apresenta trajetória descendente. Contudo, ressalta-se que o comportamento do ISV nas próximas semanas será determinante: normalmente, o final de maio marca o início da primavera, que é acompanhado de temperaturas mais elevadas e menos precipitação—o que tende a melhorar as condições do solo e, consequentemente, elevar o ISV.

Entretanto, caso as previsões climáticas se confirmem e o clima frio e úmido no corn belt se mantenha, o ISV pode não apresentar a recuperação que é observada sazonalmente. Nesse quadro, a safra de milho sofreria com circunstâncias desfavoráveis para o seu pleno desenvolvimento—o que poderia resultar em sementes não germinadas, plantas defeituosas, grãos com tamanho reduzido, etc.

Ademais, outro fator que possui potencial de impactar negativamente a produtividade final da safra 2019/20 é a ausência de adubação adequada do solo e da lavoura. De início, o solo excessivamente úmido impede o manejo adequado do mesmo pré-plantio, assim como a aplicação de fertilizantes—já que o terreno não absorve os nutrientes satisfatoriamente sob as condições atuais.

Além disso, as chuvas têm criado obstáculos para a própria aquisição de fertilizantes, defensivos e demais insumos químicos por parte dos agricultores, uma vez que parcela considerável desses produtos chega nas lavouras do Meio-Oeste por via fluvial através da bacia do rio Mississippi. No entanto, o volume elevado de chuvas provoca uma série de pontos de enchentes ao longo do rio, causando graves entraves logísticos e o bloqueio das vias utilizadas.

Nesse cenário, surge um contexto de grande incerteza em relação à safra de milho dos EUA, já que tanto a área plantada como os rendimentos da safra são uma incógnita, devido às chuvas. Ao que tudo indica, a produção de milho norte-americana em 2019/20 será menor que o previsto anteriormente—no entanto, mensurar tal redução é tarefa difícil. De todo modo, a conjuntura atual pode permanecer sustentando os preços internacionais do milho no curto prazo – o que, associado à produção reduzida nos EUA, pode favorecer as exportações de milho brasileiras em 2019, impulsionadas por uma safrinha volumosa e câmbio desvalorizado.

 

Matéria escrita por Lucas Pereira, colaborador INTL FCStone até agosto de 2019.

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