Gabriela Fontanari

Gabriela Fontanari

Graduada em Relações Internacionais pela FACAMP, está concluindo sua bidiplomação em Economia pela mesma instituição. Integra o time da Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2017 nos mercados de Fertilizantes, Algodão e Pecuária.

Tensões comerciais e gripe suína africana podem afetar área de soja e demanda por fertilizantes no Brasil

Apesar de perspectiva favorável do USDA, estoques elevados e demanda questionável podem limitar expansão da cultura no Brasil e relações de troca com adubos

A divulgação do relatório mensal do USDA, com os primeiros números para a safra 2019/20 de soja, trouxe grandes expectativas quanto às estimativas para os EUA e para a China, em meio ao contexto de oferta ampla da oleaginosa e preocupações com a demanda chinesa. Para o Brasil, como a safra 2019/20 ainda está distante, pois começará a ser semeada somente a partir de setembro, os números do Departamento não tiveram maiores impactos no mercado. Entretanto, estas primeiras estimativas indicam qual o sentimento em relação ao próximo ciclo da oleaginosa no país, dando indícios acerca do consumo de fertilizantes no segundo semestre.

O USDA espera que a área cultivada com soja no Brasil continue avançando, a exemplo da tendência observada nos últimos anos. A estimativa para a área ficou em 36,9 milhões de hectares, o que representaria um crescimento de 3,1% em relação ao número oficial da Conab para o ciclo 2018/19. Com esse aumento, o Departamento está apostando em uma produção recorde de soja no Brasil em 2019/20, alcançando 123 milhões de toneladas.

A conjuntura apontada pelo USDA sinalizaria à indústria de fertilizantes a possibilidade também de um consumo recorde no Brasil em 2019. No último ano, as entregas aos produtores avançaram 3,1% no comparativo anual, atingindo 35,5 milhões de toneladas, segundo dados recém-divulgados pela Siacesp-ANDA. O volume de adubos entregues no Mato Grosso avançou 10,8%, indicando maior aplicação dos nutrientes nas lavouras de grãos, o que foi favorecido pela expansão da área e melhor capitalização dos agricultores na última safra.

No entanto, apesar de, considerando a tendência histórica, fazer sentido a continuidade do crescimento da área de soja no Brasil, mesmo porque o país ainda conta com amplo espaço para a expansão da agricultura, o contexto atual poderia indicar que o USDA está superestimando esse crescimento. Além da expectativa de aumento ser superior ao registrado em 2018/19, quando o setor vivia um momento de grande otimismo, em meio à guerra comercial e às exportações recordes, o mercado de soja atual está diante de um contexto de grandes dúvidas pelo lado da demanda, além de a oferta também encontrar-se em níveis muito confortáveis.

A taxação da soja norte-americana pela China continua em vigor e as tensões entre os dois países foi acirrada recentemente, o que gera dúvidas sobre de onde o país asiático originará o montante que consome internamente, para alimentar seu enorme rebanho. Contudo a maior preocupação, que ainda pode resultar em mudanças significativas nos números de oferta e demanda mundiais da soja, é o impacto da peste suína africana, com os recorrentes surtos registrados na China. Apesar de não haver números oficiais, estimativas apontam que 40% dos animais do país já tenham sido afetados. Com isso, há dúvidas importantes sobre qual será a demanda chinesa por soja, independentemente se comprada do Brasil ou dos EUA.

Caso o consumo e as importações chinesas comecem a dar sinais de uma queda mais significativa, pesando ainda mais sobre os preços, as decisões de plantio da safra brasileira podem ser afetadas, freando uma possível expansão de área, pelo menos nos níveis esperados pelo USDA. Consequentemente, neste cenário, o consumo de fertilizantes no mercado interno seria impactado negativamente no segundo semestre.

Além de ser limitada a possibilidade de um aquecimento das compras em função de uma expansão da área plantada, as relações de troca entre os adubos e a soja também seriam afetadas. A queda do patamar das cotações da oleaginosa em Chicago, em decorrência das preocupações acerca do futuro incerto do mercado da soja, aliada à alta dos preços dos fosfatados e potássicos – principais fertilizantes aplicados na cultura – diminuiu o poder de aquisição dos adubos pelo produtor brasileiro. A relação de troca entre o Cloreto de Potássio e a soja avançou 44,4% no último ano, atingindo 18,71 sacas/tonelada no início de maio. A relação entre o Fosfato Monoamônico e a oleaginosa, apesar de registrar avanço em menor grau, também encareceu 12,7% para 19,90 sacas/tonelada.

Espera-se que as compras brasileiras de fertilizantes se intensifiquem a partir de julho, em preparação para o plantio da safra 2019/20. Entretanto, com o nível elevado das importações no primeiro trimestre do ano e as preocupações permeando o balanço mundial da soja, o Brasil pode apresentar uma demanda inferior às 35 milhões de toneladas observadas em 2018. Um barateamento dos custos de aquisição dos adubos no mercado internacional ante uma perspectiva mais cautelosa de possíveis impactos na área, em decorrência da peste suína africana (conforme analisado aqui) poderia favorecer as relações de troca em detrimento de uma queda nas cotações dos adubos, mas o menor otimismo dos produtores ainda pesaria sobre o mercado no segundo semestre.

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