Gabriela Fontanari

Gabriela Fontanari

Graduada em Relações Internacionais pela FACAMP, está concluindo sua bidiplomação em Economia pela mesma instituição. Integra o time da Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2017 nos mercados de Fertilizantes, Algodão e Pecuária.

O papel da China no mercado de fertilizantes em 2019

Flutuações nos preços influenciaram alterações na postura chinesa no cenário internacional

O ano de 2019 se caracterizou pelo quadro de demanda atípica em ambos os lados do glo-bo, influenciando uma queda acentuada dos preços dos fertilizantes nas principais praças negociadas. Neste contexto, a China se destacou ao mudar seu modus operandi no merca-do internacional de adubos, com alterações de estratégias que afetaram o complexo NPK. Nos próximos parágrafos iremos discorrer sobre a influência chinesa nos respectivos mer-cados, além de traçar perspectivas para 2020.

Nitrogenados

A indústria de nitrogenados enxergou na Índia uma oportunidade de escoamento de sua produção em 2019. Ante o quadro arrefecido dos preços, o país asiático constantemente retornava ao mercado internacional buscando internalizar volumes de ureia para manutenção de seus estoques domésticos.

Preponderava a expectativa de que as licitações indianas, que favoreceram a importação de 6,43 milhões de toneladas no ano corrente (dados computados até a primeira quinzena de dezembro), concedessem ímpeto altista às cotações do nitrogenado ao absorver parcela significativa da produção do Oriente Médio – a região usualmente se mostra a principal origem dos montantes importados pela Índia nos leilões inversos.

Contudo, o apetite de compras latente atravessou fronteiras e impactou o mercado doméstico de nitrogenados da China. Em meio a um consumo interno pouco atraente, os fabricantes de ureia do gigante asiático voltaram suas atenções para os países vizinhos,desencadeando um aquecimento significativo das exportações chinesas para a Índia, tornando o país o maior fornecedor indiano em 2019.

Dados oficiais da alfândega chinesa apontam a exportação de aproximadamente 4,0 milhões de toneladas de ureia no acumulado até outubro de 2019. No comparativo anual, o avanço representa um incremento de 187% perante os 1,35 milhão de toneladas acumuladas até o mesmo mês do ano anterior. O volume já representa um ganho de 60% contra o total exportado em 2018, de 2,45 milhões de toneladas – conforme pode ser observado no gráfico 1.

De tal modo, a maior presença chinesa no mercado internacional corroborou para a pressão baixista sobre as cotações da ureia nos últimos meses. Isto pois a licitações indianas se mostraram insuficientes para sustentar os preços em outros polos consumidores, em virtude dos consideráveis estoques formados ao longo do ano.

Nos próximos meses, o foco dos fabricantes chineses deve retornar ao mercado doméstico, com o início da temporada de intensificação de compras após o Ano Novo Chinês. O ano do Rato terá início em 25 de janeiro, garantindo um tom moroso ao mercado no curto prazo. Não obstante, a China deve continuar se destacando como fornecedora importante à Índia, relembrando também a disponibilidade de ureia iraniana¹ no âmbito interno chinês, passível de reexportação. A oferta mais robusta acirra a competição com o Oriente Médio por carregamentos na Ásia, e, visto a influência do OM sobre os as cotações no Brasil, os preços no país sul-americano podem ser pressionados até a manifestação da demanda nos Estados Unidos – a qual, se espera, auxilie em um aperto no balanço de O&D de nitrogenados em 2020.

Gráfico 1 – Exportações chinesas de  ureia acumuladas (em milhões de toneladas)

Fonte: Customs Statistics of China. Elaboração: StoneX.

Fosfatados

O posicionamento da China no mercado internacional de fosfatados mostrou tendência divergente ao contexto dos nitrogenados. A queda expressiva dos preços do fosfato diamônico e do monoamônico pressionaram as margens de lucro dos fabricantes chineses, após as cotações nas principais praças se aproximarem dos custos operacionais de alguns produtores (segundo notas à imprensa).

Os preços internacionais surpreenderam ao permanecerem em trajetória de queda no segundo semestre de 2019, sem aparentemente se depararem com um piso. Ante tal cenário, e um balanço de oferta e demanda folgado, o grupo de fabricantes “6+2” da China acordou em realizar cortes na produção, passando a operar entre 50% e 60% de sua capacidade produtiva.

O impacto se refletiu sobre as exportações chinesas de DAP e MAP. Segundo dados oficiais, os carregamentos de DAP ao exterior haviam recuado 14% no YoY, passando de 6,2 milhões de toneladas em outubro de 2018 para 5,34 milhões de toneladas no mesmo mês de 2019. A mesma tendência se demonstra no mercado de MAP, com as exportações recuando 2% no comparativo anual, totalizando 2,14 milhões de toneladas.

Entretanto, os cortes não se mostraram suficientes para conter o ímpeto baixista, diante de vendas de carregamentos de DAP chinês por tradings a patamares cada vez menores. Assim, no quarto trimestre, os principais fabricantes anunciaram uma extensão dos cortes produtivos até abril de 2020. A tentativa de contenção de declínio das cotações se expandiu também para um acordo de limitação das exportações de fosfatados até o mesmo mês, buscando restringir a oferta na Ásia durante o primeiro trimestre do próximo ano.

Caso consolidada, a restrição impulsionará os preços na Ásia nos primeiros meses de 2020, movimento que deve ser fortalecido pela menor disponibilidade de fosfatados da OCP durante o período, devido ao compromisso de entrega de 880 mil toneladas de P para a Etiópia. Ademais, no final de fevereiro o USDA irá divulgar suas projeções para área plantada de grãos nos Estados Unidos durante a temporada 2020/21, o que deve confirmar a tendência de expansão do plantio da soja, após as fortes contrações observadas durante a primavera norte-americana no ano corrente.

Enxofre

A China é um demandante fundamental ao mercado de enxofre, de modo que ocupa a liderança das importações globais do insumo. Nesse sentido, a fraca procura pela matéria-prima para produção de fosfatados – diante do reduzido fator de utilização da capacidade instalada – tem gerado pressão nas cotações internacionais do insumo, os quais verificaram quedas de quase 60% ao longo de 2019.

Apesar deste cenário, as entradas de enxofre nos portos do país verificaram aumento de 3,9% para 9,6 milhões de toneladas no acumulado até outubro, contudo, significativa parcela do material importado tem se acumulado nos portos do país diante da fraca demanda interna. Na última semana, os estoques aproximaram-se da marca de 2,5 milhões de toneladas, com aumento de 1,0 milhão de toneladas no comparativo de 12 meses.

Nesse sentido, as comemorações do ano novo chinês em conjunto com as perspectivas de limitada produção de fosfatados nos primeiros anos do novo ano e do massivo volume de enxofre à disposição em território nacional tendem a se colocar como fatores de pressão aos preços do insumo nos primeiros meses de 2020.

Potássicos

A China é uma importadora líquida (net importer) de fertilizantes potássicos, realizando contratos de longo prazo com os fabricantes internacionais, visando fornecimento constante ao longo de um ano-safra. Tipicamente, os agentes chineses iniciam as negociações contratuais com os fornecedores no terceiro trimestre, acordando em um preço padrão com todos os fornecedores. De tal modo, os contratos servem de parâmetro para as cotações do Cloreto de Potássio na Ásia no segundo semestre, balizando os preços para os negociadores da Índia – país que segue sistema semelhante para importações de potássio.

Gráfico 4 – Importações chinesas de potássicos (em mil toneladas)

Fonte: Customs Statistics of China. Elaboração: StoneX.

A demanda internacional arrefecida, no entanto, pressionou as cotações do KCl no sistema internacional em 2019, após fortes altas registradas no ano anterior. Neste contexto, fazendo uso de cláusulas que permitem a aquisição de montantes adicionais, além das previstas em contrato, os importadores chineses aproveitaram para internalizar um volume expressivo do potássico ao longo dos últimos meses. Conforme observado no gráfico, as importações mensais ultrapassaram o internalizado em 2018 quase na totalidade dos meses, com exceção de março – acarretando em um acumulado 38% superior no YoY ao analisar o mês de outubro, equivalente a 8,165 milhões de toneladas contra 5,912 milhões de toneladas em 2018.

A aproximação das festas do Ano Novo Chinês, no final de janeiro, as negociações dos contratos de potássio provavelmente terão início apenas em fevereiro de 2020. Não obstante, servirão de parâmetro para novas negociações indianas no segundo trimestre, visto que os contratos entre a Índia e seus fornecedores se encerrarão em 31 de março de 2020.

 

Este texto teve a colaboração de Jaine Gomes, membros da equipe de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil.

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