Jaine Gomes

Jaine Gomes

Graduanda em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Integra o time da Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2019 nos mercados de Energia, Fertilizantes e Cacau.

IMO 2020 pode fazer com que o enxofre retome seu status de subproduto

Contudo, encarecimento dos fretes marítimos pode ampliar preço dos fosfatados

A poucos meses da vigência do IMO 2020, com as frotas internacionais de navios traçando suas estratégias para cumprir as normas estabelecidas, os impactos sobre o mercado de fertilizantes ainda são envoltos em grande incerteza.

O IMO 2020 é o nome pelo qual ficaram popularmente conhecidos os novos parâmetros impostos pela International Maritime Organization (IMO) às embarcações marítimas. De acordo com a nova regulamentação, o limite à concentração de enxofre na composição dos combustíveis utilizados cai de 3,5% (estabelecido em 2012) para 0,5% a partir de janeiro de 2020.

De acordo com estimativa da EIA (Administração de Informações Energéticas dos Estados Unidos), o IMO 2020 gerará um rápido e massivo impacto no padrão de abastecimento das embarcações estadunidenses: em 2019, 58% do abastecimento dos navios yankees será feito por meio de óleo combustível de alto teor de enxofre (HSFO), enquanto que em 2020 esta estimativa cai para 3%. Sabe-se que a participação de HSFO no consumo dos UEA é relativamente menor que em outras regiões, ao passo que Estados Unidos e Europa já possuem regulamentações de emissões mais rígidas em suas águas nacionais, deste modo, entende-se que o impacto gerado em demais países pode ser ainda maior.

Nesse sentido, diante da necessidade de adaptação, e tendência à ampliação do consumo de combustíveis com menor concentração de enxofre, é esperado maior volume de enxofre residual à disposição de outros mercados, como é o caso dos fertilizantes fosfatados.

Com novas unidades produtivas em planejamento ou em curso de construção, a capacidade produtiva da indústria global de fosfatados deve ser ampliada em quase 10% entre 2017 e 2021, saindo de 47,8 milhões de tonelada/ano para 52,5 milhões de tonelada/ano, de acordo com a ICIS, e abre espaço à incorporação de maior volume de enxofre como matéria-prima. Vale ressaltar que o crescimento da indústria de fertilizantes é impulsionado pelo avanço da população mundial, ao passo que com mais pessoas demandando alimentos, maior é o esforço dispendido pela indústria agrícola, tanto na ampliação da área agricultável como em insumos para ampliar a produtividade das lavouras.

Contudo, a atual conjuntura do mercado de fosfatados não se mostra favorável à absorção desta oferta no curto prazo. Ao longo de 2019, desenhou-se um cenário de sobreoferta no balanço global, desencadeando vultuosas quedas nos preços internacionais: o índice médio de preços do DAP na região do Golfo do México acumulou queda de 22% no ano, atingindo menor patamar em cerca de 10 anos, enquanto o MAP no Mar Báltico sofreu retração de 24%.

A fraca atividade do mercado de fosfatados refletiu-se diretamente sobre a dinâmica do mercado de enxofre. A China, maior importador global do insumo, tem registrado morosidade na retomada do apetite de compra pela matéria-prima, pois a indústria de MAP e DAP encontra-se com aproximadamente 40% de sua capacidade instalada inativa – além da elevada quantidade de enxofre disponível em estoque.

Deste modo, apesar da norma estar a poucos meses de entrar em vigor, seus impactos ainda são incertos. Pela ótica dos combustíveis, são possíveis três caminhos à adaptação, contudo, ainda é nebuloso qual será a participação de cada estratégia na totalidade das embarcações: pode-se fazer uso de combustíveis com menor concentração de enxofre; instalação de scrubbers – equipamento capaz de captar as emissões resultantes da queima do combustível, e manter a embarcação em conformidade com a norma, sem necessidade de troca do energético –, ou ainda migrar para combustíveis não tradicionais, a exemplo do gás natural liquefeito.

Contudo, a segunda e a terceira alternativa envolvem elevados investimentos para adequação das embarcações, o scrubber ainda traz consigo o desafio de eliminação dos resíduos captados enquanto o uso de GNL enfrenta entraves da limitada infraestrutura para o abastecimento.

Por fim, há ainda a possibilidade de parte das embarcações não se adequarem aos limites estabelecidos. Ao fim de julho, um membro do Ministério do Transporte da Indonésia afirmou que o país não imporá aos navios domésticos o limite de enxofre (0,5%) para circularem em águas nacionais. De acordo com o porta-voz, os elevados custos dos combustíveis com menor concentração do enxofre embasam a decisão, e o país somente deve endossar o acordo quando a disponibilidade interna de combustíveis em acordo com a regulamentação se ampliar.

Deste modo, os reflexos sobre o balanço de oferta e demanda para os mercados de fertilizantes ainda são incertos, contudo, o encarecimento dos encargos logísticos sobre a cadeia de insumos (via aumento dos fretes) é um dos impactos mais prováveis.

Ademais, o enxofre sempre foi um subproduto da atividade de refino para obtenção de petróleo e gás natural, todavia, diante da recente ampliação de seu consumo pela cadeia de fertilizantes, sobretudo na China e na Índia, o insumo passou a ter valor comercial. A partir da vigência da IMO, o enxofre pode regressar ao status de subproduto, contudo, como seu custo já é reduzido, a elevação dos fretes pode resultar em preços mais elevados dos fosfatados na modalidade CRF.

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