Luigi Bezzon

Luigi Bezzon

Graduando em Ciências Econômicas pela ESALQ/USP, Luigi Bezzon é analista do time de Inteligência de Mercado da StoneX em Fertilizantes e Óleos Vegetais.
Este texto teve a colaboração de Bruno Santos, Caíque Cober e Marcelo Di Bonifacio.

Disponibilidade global de fertilizantes nitrogenados é ameaçada por cenário de “tempestade perfeita”

Derivativos da ureia dispararam US$200/tonelada (+40%) em setembro

Matéria prima fundamental para a produção de amônia e nitrogenados, o gás natural ganhou destaque no mercado de NPK nas últimas semanas, após o anúncio de fechamentos e paralisações de plantas produtoras de fertilizantes, em decorrência da escalada dos preços do insumo. Somando mais um fator de incerteza ao já inflacionado mercado de fertilizantes.

Desde fevereiro/21, com a passagem do vórtex polar no Estado do Texas, os preços do gás natural vêm apresentando valores acima das médias históricas dos últimos 5 anos. Assim como o petróleo, o gás natural enfrenta uma situação de déficit no balanço de oferta e demanda em 2021.

No início do ano, o aumento do uso da commodity para o aquecimento de ambientes contribuiu para a redução dos estoques do produto durante a época do inverno do hemisfério norte. Paralelo a isso, o aumento da demanda pelo produto por parte dos países asiáticos e uma redução da oferta de gás advindo da Rússia limitou ainda mais as reservas existentes, principalmente na Europa, que enfrentará o próximo inverno, que se inicia sazonalmente em outubro, com os estoques de gás naturais abaixo das mínimas históricas dos últimos 5 anos.

Preço do Gás Natural TTF (USD/mmbtu)

Fonte: NYMEX e StoneX

Diante disso, as cotações da commodity começaram a sofrer fortes pressões para cima a partir do final de maio/21, quando os valores ultrapassaram as máximas históricas, sem perder o ritmo de crescimento.

Nas últimas semanas, voltou-se a observar uma sequência de valorizações nas cotações do gás natural, sustentadas principalmente pela situação da queda produtiva da Costa do Golfo diante da passagem do Furacão Ida e do Furacão Nicholas, o que gerou uma movimentação de evacuação das plataformas de extração localizadas no Estado do Texas e de Luisiana, onde se concentra a maior parte da produção americana do gás. Os EUA são os maiores produtores globais de gás natural.

Apenas no mês de setembro, o preço de referência do gás natural TTF na Europa saltou mais de 50%, enquanto no acumulado de 2021, o gás acumula quase 250% de valorização.

Com a crescente escalada nos custos de produção, a atividade produtora de fertilizantes se tornou insustentável para uma parcela das fabricantes de amônia e nitrogenados, principalmente na Europa. Na terceira semana de setembro, duas plantas da produtora CF Industries localizadas no Reino Unido, que juntas somam uma produção anual de 865 mil toneladas de amônia, ácido nítrico, NAM e NPK, anunciaram a interrupção das atividades por tempo indeterminado, respondendo a essas altas no gás natural. Sinalizando a insustentabilidade da produção diante dos custos crescentes, apesar da retomada de uma das plantas na semana seguinte, subsidiada pelo governo britânico, temendo maior desabastecimento do CO2 que também é originado na produção.

No dia seguinte ao anúncio da paralisação da CF, a Yara também comunicou que irá cortar 40% de sua produção de amônia devido aos altos custos com o gás natural nas suas plantas localizadas na Noruega, Alemanha, Reino Unido e Itália. Entende-se que a redução afetará diretamente na produção de ureia, CAN e NA, e o prazo ainda é indeterminado.

Ainda, na semana seguinte foi anunciado que mais de metade da produção de ureia da Ucrânia seria desativada, com a paralisação de duas plantas da produtora OPZ, que juntas somam capacidade instalada de produção de 800 mil toneladas/ano de ureia, e duas plantas da Ostchem, com capacidade de 1.280 mil toneladas/ano combinadas.

Além da natural preocupação com o fechamento de plantas e redução da capacidade de produção de ureia, o momento atual é particularmente delicado.  Logo após a série de anúncios de paralisações produtivas na Europa, a Índia divulgou um novo leilão para compra de ureia. O volume total demandado ainda não foi anunciado, no entanto, espera-se que gire em torno de 1 milhão de toneladas do nutriente para este próximo certame, o que deverá apertar ainda mais o quadro de O&D global de N.

Como se não bastasse a forte demanda indiana e o crescimento dos custos de produção de ureia, a China também entrou no radar no final de setembro. A maior produtora e exportadora de fosfatados planeja interromper as exportações do nutriente até junho 2022, visando manter a oferta doméstica e reduzir emissões de carbono na produção de DAP e MAP. A medida ainda não foi oficialmente confirmada pelo governo chinês, mas já é dada como certa pelo mercado. A dúvida que resta é se medidas similares também serão aplicadas sobre as exportações de ureia, em que a China é o segundo maior exportador global, apenas atrás da Rússia. O tom de incerteza aquece o mercado, elevando o sentimento altista para os preços diante do possível colapso de oferta do macronutriente.

Logo após a primeira confirmação de fechamento de plantas na Europa devido ao alto custo do gás natural, na metade de setembro, os derivativos da ureia dispararam para as entregas nos próximos meses, temendo maiores custos de produção e desabastecimento do nutriente. O papel da ureia em Nola com entrega em novembro, encerra o mês cotado a US$693/tonelada, alta de US$191/tonelada, contra o preço no praticado no início da semana (US$502/tonelada).

Ureia granulada FOB Nova Orleans (USD/tonelada)

Fonte: CME e StoneX

Do ponto de vista da oferta e demanda, as perspectivas são pouco animadoras. Nos Estados Unidos, apesar da recuperação das plantas afetadas pelas tempestades no início do mês, estima-se que 31 bilhões de pés cúbicos de gás natural deixaram de entrar no mercado desde o dia 27/08 até o dia 15/09. Na Europa, em números absolutos, os estoques de gás natural são os menores para esta época do ano desde 2013, e a tendência é que a disponibilidade se reduza nos próximos meses, com a reaproximação do inverno no hemisfério norte, intensificando ainda mais o desequilíbrio do balanço de gás natural existente no mercado internacional.

Estoques de gás natural na Europa (% da capacidade instalada de estocagem)

Fonte: GIE e StoneX

Luigi Bezzon

Graduando em Ciências Econômicas pela ESALQ/USP, Luigi Bezzon é analista do time de Inteligência de Mercado da StoneX em Fertilizantes e Óleos Vegetais.
Este texto teve a colaboração de Bruno Santos, Caíque Cober e Marcelo Di Bonifacio

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