Fábio Rezende

Fábio Rezende

Possui graduação em Ciências Econômicas e especialização em Finanças Corporativas pela UNICAMP. Trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2014.

Variabilidade da paridade de preço entre etanol e gasolina em SP

A paridade de preço entre o etanol e a gasolina nas bombas é uma importantíssima variável a ser monitorada pelas empresas dos ramos de produção, transporte, distribuição e revenda dos combustíveis, uma vez que as suas oscilações podem causar variações bruscas no consumo final dos dois bens substitutos.

O poder calorífico do etanol hidratado é cerca de 70% o da gasolina C, de modo que a paridade de preço etanol/gasolina de 70% é considerada o ponto de equilíbrio do mercado. Entretanto, nota-se que a paridade não permanece nesse ponto. Neste estudo, vamos analisar a magnitude e as causas da variabilidade desse indicador, usando como base três municípios no estado de São Paulo: a capital, Campinas e Ribeirão Preto.

Utilizamos dados a partir de 2013 porque, segundo estimativa da UNICA, é a partir de quando os motores “flex fuel” passaram a ter uma participação superiora a 60% na frota brasileira de autoveículos leves (excluindo motores à diesel). Antes disso, como um menor número de motoristas tinham a opção de abastecer com etanol, a taxa de substituição entre os bens era menor. Nota-se que, desde 2013, os “flex fuel” continuaram a ganhar participação e, em 2018, representaram 76,4% da frota.

Disponibilidade e tributação  

Observando a série histórica de preços dos combustíveis nos postos das três cidades acima, nota-se que, na maior parte do tempo, a paridade ficou abaixo do ponto de equilíbrio de 70%. Em outras palavras, em termos de poder calorífico, o etanol costuma ficar mais barato que a gasolina.

Tal fato é observado em praticamente todo o estado de São Paulo, porém não é a realidade na maior parte das regiões brasileiras. A explicação para isso é simples: enquanto a maior parte das UFs brasileiras são deficitárias em etanol, São Paulo possui ampla disponibilidade do combustível, já que concentra a maior parte da produção de cana-de-açúcar, barateando o produto. Ribeirão Preto, como fica num polo sucroalcooleiro, apresentou paridades abaixo do equilíbrio em 82% dos meses analisados. Os municípios São Paulo e Campinas, que ficam próximos de refinarias de petróleo, tiveram paridades atrativas ao etanol 69% e 65% dos meses, respectivamente.

No ano-safra 2018/19 (abril a março) da cana-de-açúcar, apenas sete estados brasileiros tiveram superávit na produção de etanol; e apenas cinco registraram paridades etanol/gasolina inferiores a 70%. Desses cinco, três (SP, GO e MT) se encontram entre aqueles com superávit. Os outros dois (MG e PR) são vizinhos dos três principais estados superavitários (SP, GO e MS), de modo que conseguem receber transferências com custo relativamente baixo.

Além de estarem próximos de estados superavitários, Minas Gerais e Paraná também apresentam outro diferencial que permite que apresentem paridades favoráveis ao etanol, mesmo sendo deficitários: uma grande diferença entre as alíquotas de ICMS da gasolina e do álcool, gerando uma vantagem tributária ao etanol.

Conclui-se, portanto, que dois são os principais determinantes das diferenças regionais nas paridades entre os preços de etanol e gasolina: a disponibilidade e a carga tributária. Mas o que explica as oscilações da paridade ao longo do tempo?

Sazonalidade da cana-de-açúcar  

Como analisamos, a disponibilidade dos combustíveis é um fator chave para se determinar a paridade de preços. Enquanto a produção de gasolina é estável ao longo do ano, a do etanol apresenta comportamento sazonal. Visto que, no Brasil, o etanol é majoritariamente fabricado a partir da cana-de-açúcar, sua oferta é maior durante o pico da colheita da cultura: entre maio e setembro. Consequentemente, esse período também costuma apresentar as menores paridades entre etanol e gasolina, como mostram os gráficos ao lado.

A sazonalidade explica a maior parte da variabilidade da paridade ao longo do tempo, porém ainda não a explica por completo. A tabela no final da próxima página nos mostra a paridade média para cada mês nas três cidades de referência, bem como seu desvio padrão (um indicativo da dispersão das paridades observadas) e o intervalo de confiança de 90% (intervalo no qual pode se esperar que as paridades estarão, nos respectivos meses, em 90% dos anos).

Nota-se que os meses de pico de safra costumam apresentar menor variabilidade. Durante a entressafra da cana-de-açúcar, os estoques restantes de etanol ditarão a disponibilidade, de modo que a paridade pode variar significativamente de ano para ano dependendo dos estoques finais. Já durante a safra, as usinas, de modo geral, têm flexibilidade para controlar a oferta através do ajuste da produção entre etanol e açúcar. A decisão do “mix” produtivo das usinas, portanto, é outro fator que tem impacto na paridade, especialmente durante a safra de cana, e estará relacionada a outra variável: a paridade de preço entre o etanol e o açúcar.

Preço do açúcar  

Ao se traçar as curvas da variabilidade da paridade etanol/gasolina não explicada pela sazonalidade ao longo do tempo, e a curva da paridade açúcar/etanol (média dos indicadores ESALQ para o estado de São Paulo), é possível observar uma correlação entre elas. Há, porém, um atraso, de aproximadamente três meses, entre as oscilações na paridade do açúcar e as oscilações na paridade da gasolina. Isso ocorre porque as usinas não são completamente flexíveis para adaptar a produção: questões técnicas industriais e contratos de entrega futura, por exemplo, limitam a sua capacidade de alterar o mix. Além disso, há um leve atraso entre o repasse das variações do preço do etanol na usina ao preço na revenda.

Não obstante, ao se considerar uma defasagem de três meses, a correlação entre a paridade açúcar/etanol nas usinas durante o pico da safra de cana (maio a setembro) e a paridade etanol/gasolina dessazonalizada nas revendas da cidade de São Paulo é de 92,5%. Na cidade de Campinas, a correlação é de 92,7%. Em Ribeirão Preto, contudo, a correlação é menor, de somente 62,9%.

 

Conclusão  

Atualmente, o preço da gasolina no Brasil é determinado internacionalmente: a política da Petrobras é de ajustar as cotações em suas refinarias de acordo com a paridade de importação, em intervalos de tempo não definidos, mas em geral menores de 30 dias. Tais preços são, por via de regra, repassados das distribuidoras às revendas, e das revendas aos consumidores finais, com devidas defasagens.

O fato da paridade de preço do etanol e da gasolina tender a um ponto de equilíbrio, mostra que o preço do etanol no Brasil é, em parte, formado a partir do preço da gasolina, particularmente no estado de São Paulo. Isso deriva da capacidade do consumidor final de escolher, na bomba, o combustível mais economicamente atrativo, podendo causar grandes variações na demanda dos produtos quando a paridade está fora do equilíbrio.

No entanto, concluímos que outros fatores além do preço da gasolina (e questões subjetivas relacionadas à preferência do consumidor) também impactam o mercado do álcool, causando a oscilação observada na paridade. São eles: o balanço regional de oferta e demanda dos combustíveis, as diferenças entre as tributações estaduais dos dois combustíveis, a sazonalidade da cana-de-açúcar e o preço do açúcar (que impacta o mix produtivo das usinas).

 

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