Fábio Rezende

Fábio Rezende

Possui graduação em Ciências Econômicas e especialização em Finanças Corporativas pela UNICAMP. Trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2014.

Retrospectiva de Oferta e Demanda de gás natural no Brasil em 2018 e perspectivas para 2019 

Co-escrito por

Jaine Gomes
Jaine Gomes

Retrospectiva 2018

O consumo de gás natural no Brasil totalizou 60,57 milhões de metros cúbicos por dia (Mm³/d) em dezembro do ano passado, de modo que a demanda anual totalizou uma média de 78,85 Mm³/d. Esse volume representa uma queda de 11,1% com relação ao mês imediatamente anterior. Em relação ao mesmo mês do ano anterior, o consumo gás natural no Brasil recuou 31,2%. Na média, o balanço final para o ano de 2018 indicou uma demanda média de 78,85 Mm³/d, representando uma redução de 7,8% frente ao acumulado de 2017.

A redução no montante demandado no ano pode ser explicada essencialmente por dois motivos. O primeiro deles foi a recorrente variação da demanda de gás para geração elétrica, a qual saiu de um consumo de 34,25 Mm³/d em 2017 para 27,69 em 2018. A variação no uso do combustível nas termoelétricas ocorre em função de determinações do ONS quanto ao uso das diferentes matrizes geradoras de energia, tentando alcançar o mix menos custoso possível. As matrizes brasileiras são principalmente duas: a hidroelétrica e a termoelétrica. Assim, o uso das termoelétricas mostra-se inversamente proporcional à capacidade de geração de energia das hidroelétricas brasileiras.

Deste modo, as variações do volume dos reservatórios refletiram-se claramente no uso de gás natural para geração elétrica – entre os meses de julho e outubro, do ano passado os reservatórios na região sudeste estavam em níveis muito baixos, coincidindo com o aumento do consumo de gás, em sentido oposto, com o aumento do volume hídrico na região Sudeste/Centro-Oeste a partir de outubro o volume demandado do gás natural se reduziu.

O segundo fator principal à redução do consumo de gás natural foi o recuo do consumo do setor industrial, o qual está ligado ao tímido crescimento do PIB brasileiro no ano passado assim como à desaceleração que a Petrobrás começou a impor ao funcionamento das Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados (FAFENs) dado a recorrência de suas operações deficitárias.

Por outro lado, o consumo do setor automotivo apresentou incremento no ano de 2018, registrando uma média de 6,06 Mm³/d, frente aos 5,40 Mm³/d consumidos no ano antecedente. A procura pela instalação veicular do popularmente conhecido Kit Gás, geralmente é ampliada em períodos no qual o preço dos combustíveis tradicionais está elevado. O GNV figura-se como uma alternativa mais barata se comparada com a gasolina e o etanol, todavia, o preço de instalação, a desvalorização de revenda e a potencial perda de espaço de armazenamento no veículo são fatores negativos à sua instalação. Assim, a elevação dos preços dos combustíveis observada no ano passado, fomentou o aumento da demanda automotiva por gás natural.

A oferta nacional de gás natural caminha em linha com a demanda nacional, ao passo que a infraestrutura brasileira de estocagem do combustível é limitada. A oferta média apresentada para 2018 foi de 84,12 Mm³/d, representando uma redução de 6,4% em relação aos 89,83 Mm³/d registrados em 2017. Os principais fatores que contribuíram com a redução da média diária no ano foram o uso do gás natural destinado à reinjeção nos poços associados, a qual se elevou consideravelmente de um patamar de 27,61 Mm³/d para 35,10 Mm³/d, a fim de elevar a produtividade de extração do petróleo e outro mecanismo utilizado para balancear o resfriamento da demanda foi a redução do volume importado da Bolívia – no ano de 2017 importou-se em média 24,33 Mm³/d, frente aos 22,11 Mm³/d do ano anterior. Cabe dar enfoque às médias de importação registrada nos últimos dois meses do ano do gás natural boliviano, os quais registraram 17,89 e 13,55 Mm³/d respectivamente, montante muito inferior ao piso do acordo take-or-pay (24 Mm³/d) que a Petrobrás possui com o país vizinho.

Perspectivas 2019 – Oferta de gás natural

A produção brasileira de gás natural deve continuar em ritmo de crescimento, impulsionada por novos poços no Pré-Sal. Todavia, o aproveitamento dessa produção continuará limitado pela logística deficitária e falta de capacidade de armazenamento. Consequentemente, as taxas de reinjeção devem continuar avançar em 2019. A produção do Pré-Sal poderá ser mais aproveitada a partir da construção do gasoduto “Rota 3”, que conectará a Bacia de Santos ao COMPERJ. O gasoduto e a unidade de processamento de gás (UPGN) do complexo petroquímico, contudo, deverão ficar operacionais somente a partir de 2020. A UPGN terá capacidade de 21 Mm³/d, enquanto que o gasoduto terá vazão de escoamento de 18 Mm³/d.

Dessa maneira, o país continuará dependente de gás natural importado. Nessa parte do balanço, mudanças também começarão a ser observadas ao longo de 2019. No final do ano, o contrato TCQ da Petrobras com a estatal boliviana YPFB se expira. Como a Petrobras ainda tem volume a receber como parte do contrato, o fluxo deverá se manter por mais tempo, mas como já foi observado em 2018 (especialmente nos últimos dois meses), o volume de gás natural importado da Bolívia deve oscilar mais drasticamente. Eventualmente, o gasoduto Gasbol terá capacidade ociosa de 18 Mm³/d, deixada pela expiração do contrato. A TBG, empresa proprietária e operadora da parte brasileira do gasoduto (controlada pela Petrobras) ofertará a capacidade ao mercado por meio de chamada pública. A contratação poderá ser feita na modalidade de entrada e saída, e permitirá que as distribuidoras comprem gás diretamente dos produtores, sem participação da Petrobras.

A importação de gás natural liquefeito (GNL) deve crescer em 2019, diante dos preços competitivos no mercado internacional, com crescimento da oferta dos EUA, Qatar e Austrália. Também cresce a capacidade de regaseificação brasileira, com a inauguração dos terminais e FSRUs do Porto de Açu e Barra dos Coqueiros. Assim como em 2018, as compras de GNL devem atingir seu pico entre junho e setembro, período de seca, para atender a demanda sazonal das usinas termelétricas.

Perspectivas 2019 – Consumo de gás natural

A demanda para consumo de gás natural no segmento industrial está associada ao nível de atividade econômica do país. Segundo o boletim Focus, do Banco Central, a mediana dos economistas projeta um crescimento do PIB de 2,48% em 2019, que seria o maior desde 2013, apesar de ainda ser uma taxa de crescimento baixa para um país em desenvolvimento. Historicamente, uma variação dessa magnitude no PIB se relaciona com um aumento de 4,1% no consumo industrial de gás natural no Brasil, mantendo todos os demais fatores constantes. Isso representaria um avanço médio de 1,63 Mm³/d.

Entretanto, após vários meses de delonga, a Petrobras hibernou as duas FAFENs do Nordeste, em janeiro. O consumo de gás natural das duas juntas foi de 2,27 Mm³/d em 2018. A Petrobras iniciou, também em janeiro, pré-qualificação de empresas para participação em licitação destinada ao arrendamento das FAFENs. Todavia, não há qualquer expectativa de quando as fábricas voltarão a operar normalmente (se é que voltarão). Dessa maneira, apesar da lenta recuperação econômica, o volume de gás demandado para fins industriais pode apresentar nova baixa em 2019, o que marcaria o quarto ano consecutivo de queda.

Por outro lado, o consumo de gás para geração de eletricidade, segundo mais importante segmento de uso do combustível no Brasil, pode apresentar recuperação no ano. Os modelos de previsão climática de longo prazo apontam para precipitação próxima da média histórica nas principais regiões brasileiras, porém os baixos volumes atuais dos reservatórios das hidrelétricas devem impulsionar o consumo de gás das termelétricas. A inauguração de novas usinas e seus bons desempenhos nos leilões de energia também sugerem que haverá crescimento da demanda por gás para o segmento de geração elétrica em 2019.

O consumo de gás natural veicular (GNV), segmento que mais cresceu em 2018, tende a desacelerar no ano atual, porém continuar crescendo. O barateamento dos combustíveis tradicionais nos últimos meses deve reduzir novos investimentos em kit-gás. Os motoristas que realizaram a conversão em 2018, contudo, devem continuar a consumir GNV, criando um piso ao consumo.

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