Fábio Rezende

Fábio Rezende

Possui graduação em Ciências Econômicas e especialização em Finanças Corporativas pela UNICAMP. Trabalha na divisão de Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2014.

Demanda brasileira por GNL deve crescer nos próximos anos        

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), do total da oferta de gás natural no Brasil em julho, 14,1%, ou 13,39 milhões de metros cúbicos por dia (Mm³/d), surgiu da regaseificação de gás natural liquefeito (GNL), o maior volume e participação na oferta mensal de gás desde janeiro de 2016.

O recente crescimento da demanda brasileira por GNL é justificado pelo aumento da demanda das usinas termelétricas, além da redução da oferta de gás natural importado por gasoduto da Bolívia (-2,2%) e da produção nacional (-0,7%). Nos próximos meses, a sazonalidade da demanda brasileira de gás natural deve voltar a reduzir as importações de GNL, todavia, no longo prazo, mesmo com a tendência geral de crescimento da produção doméstica, com a exploração dos campos do pré-sal, o país deve voltar a depender cada vez mais da importação de GNL, como nos anos anteriores à recessão econômica.

A atual dependência externa do Brasil em gás é de cerca de 25 Mm³/d na média do ano, mas ela atinge 32 Mm³/d nos meses de pico de consumo (meses de seca, quando cresce o despacho de geração das termelétricas). O Brasil tecnicamente possui produção suficiente para cobrir o consumo doméstico: em julho, se produziu 115,97 Mm³/d, enquanto que a demanda interna total foi de 89,61 Mm³/d. Todavia, parte do produzido é perdido, queimado ou então consumido pelas próprias unidades de exploração, produção e processamento, antes de chegar ao mercado (cerca de 19% no mês de julho). Uma parte ainda maior da produção (aproximadamente 31% em julho), principalmente aquela do pré-sal, é reinjetada nos poços afim de manter a pressão dos reservatórios e maximizar a produção e petróleo ou então por falta de infraestrutura para transportar o gás das plataformas marítimas para o continente. Em julho, 28,45 Mm³/d da produção brasileira de gás natural foi reinjetada, volume maior que o que foi importado da Bolívia (23,63 Mm³/d).

Nos últimos anos, a oferta nacional, definida como a produção nacional menos as perdas, queima, consumo das unidades de E&P e UPGNs e reinjeção, tem crescido num ritmo relativamente estável de 4,5 Mm³/d por ano. O consumo, por outro lado, esteve abatido em decorrência da recessão e deve voltar a crescer junto com a economia do país. Utilizando as projeções de crescimento econômico do FMI para o Brasil, estimamos que nos próximos cinco anos a demanda brasileira por gás natural subirá em média cerca de 5,9 Mm³/d por ano, portanto num ritmo mais acelerado que a oferta.

Dessa maneira, o Brasil deve importar mais gás natural nos próximos anos. Todavia, o futuro das importações de GNL dependerá das condições da renovação do contrato de importação de gás com a Bolívia (Gasbol), que expira em 2019. O atual contrato com a Petrobras prevê o fornecimento de no máximo 30 Mm³/d e um take-or-pay de 24 Mm³/d. Dessa maneira, como se tem observado nos últimos meses, as compras da Bolívia nunca ficam muito tempo abaixo dos 24 Mm³/d já que esse gás será pago independente de sua utilização. Assim, a importação de 23,63 Mm³/d observada em julho pode ser interpretada como um piso no médio prazo – a não ser por problemas de fornecimento da Bolívia.

Na renegociação do contrato em 2019, contudo, é bastante provável que os volumes sejam reduzidos. Há inclusive rumores de que a Petrobras pode não renovar o contrato, tanto pelo sentimento de que o pré-sal tornará o Brasil autossuficiente, como pela certa inimizade entre a atual gestão da Petrobras (e provavelmente a próxima) e o governo boliviano, que nacionalizou as reservas de gás natural do país em 2006.

Entretanto, como mostramos, é bastante improvável que o Brasil de fato se torne autossuficiente, já que o consumo deve voltar a crescer num ritmo maior que a produção conforme o país sai da recessão econômica. Em relação a inimizade, vale a máxima “amigos, amigos… negócios à parte”. Dessa maneira, a não renovação do contrato não é provável, mas uma queda no volume contratado sim, mesmo porque é questionável se a própria Bolívia, cuja produção atingiu um pico em 2014 e se encontra em tendência de declínio, terá capacidade para manter essa oferta ao Brasil durante a vigência do contrato. O período de vigência também deve ser menor que os 20 anos do contrato atual, e a precificação mais vantajosa à Petrobras. Destaca-se também que é esperado que algumas distribuidoras negociem contratos diretamente com os bolivianos após o término da vigência do contrato da Petrobras.

A evolução do mercado internacional de GNL que é esperada para os próximos anos também dá uma nova opção à Petrobras e futuros importadores, e a crescente dependência externa do Brasil nos próximos anos muito provavelmente será suprida por um aumento da importação do produto em estado líquido. Fornecedores tradicionais de GNL para o Brasil, como Trinidad e Nigéria, devem voltar a ter participação relevante conforme a importação brasileira retorna a crescer, dado suas vantagens logísticas. No entanto, o maior destaque para esse novo ciclo de expansão da demanda de GNL serão os Estados Unidos, capazes de oferecer ao mercado internacional cada vez mais produto com seus baixos custos de extração e com a inauguração de novos terminais de liquefação. Os Estados Unidos devem assumir o papel de maior fornecedor de GNL ao Brasil já em 2019.

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