Bruno Santos

Bruno Santos

Formado em Relações Internacionais pela FACAMP e cursando Economia pela mesma instituição. Trabalha desde 2021 na Inteligência de Mercado da Stonex do Brasil, com foco na área de Energia.
Este texto teve a colaboração de Leonardo Rosseti, Marina Malzoni, Rafaela Souza, Vitor Andrioli, Natalia Silva e Caíque Souza..

Como a conjuntura atual do petróleo pode influenciar a produção de etanol na Índia?

Transição para o etanol tende a ser estimulada pelos preços mais elevados do óleo bruto

Historicamente, a Índia se coloca como importante importadora de petróleo, tendo em vista que seu amplo mercado consumidor de combustíveis é suprido quase em sua totalidade por derivados do óleo bruto. Nos últimos anos, contudo, o acúmulo de excedentes de açúcar pelas usinas do país tem incentivado investimentos no aumento da capacidade de destilação de etanol, o que visa não apenas retirar parcela do adoçante do mercado doméstico, mas também tornar a matriz energética indiana mais renovável, contribuindo para a redução da emissão de gases do efeito estufa (GEE).

De modo geral, parece provável que essa tendência ganhe ainda mais força na conjuntura atual de preços do petróleo, o que pode favorecer de maneira significativa a balança comercial da Índia. Por isso, ao longo dos próximos parágrafos, a Inteligência de Mercado da StoneX discutirá como o ciclo de alta de commodities pode influenciar a transição energética indiana para o etanol.

Índice de commodities CRB (pontos)

Fonte: CommodityNetwork Traders’ Pro. Elaboração: StoneX.

Inflação de commodities

Nos últimos meses, a conjuntura global tem sido marcada por um movimento de forte alta dos preços do complexo de commodities no mercado internacional. Enquanto no segundo semestre de 2020 os avanços das cotações ocorriam de forma a se recuperarem do vale atingido em meados de abril e maio, devido à elevada aversão ao risco no mundo e às perspectivas de baixo crescimento ou retração das principais economias globais em função dos impactos provocados pela pandemia da Covid-19, as altas em 2021 se mostram de outra natureza.

No mês de maio, o índice CRB, que mede a variação das cotações internacionais de uma cesta de commodities agrícolas, energéticas e metálicas, atingiu seu maior patamar em quase 6 anos. Este avanço ocorre por um conjunto de fatores, relacionados à recuperação de demanda reprimida nos mercados globais, que tende a se acelerar conforme os programas de vacinação contra a Covid-19 avançam nos países, mas também ligados a complicações pelo lado da oferta. Uma série de agentes têm enfrentado dificuldades em elevar o fornecimento de matérias-primas no mesmo ritmo exigido pela demanda, provocando gargalos de oferta, que vão desde alimentos, até insumos e componentes industriais, como por exemplo o observado para semicondutores.

A duração desse cenário global de inflação de commodities, no entanto, ainda divide opiniões. É possível argumentar que a trajetória dos preços é uma reação pontual à reabertura recente de setores que tiveram suas atividades interrompidas pela pandemia, e que será apenas transitório, devendo se enfraquecer conforme mais economias caminhem em direção à normalização e eventuais atrasos de fornecimento sejam superados. Por outro lado, espera-se que os amplos programas de estímulo adotados ao redor do mundo, que atingiram cifras sem precedentes, não só facilitem a retomada econômica a partir deste ano, como também mantenham a demanda sustentada por algum tempo, o que poderia conferir suporte prolongado para as cotações das matérias-primas.

O mercado de petróleo em 2021

Como descrito na última seção, o setor de commodities vêm se recuperando conforme a demanda mundial se reaproxima de seus patamares pré-pandemia. No caso do petróleo, o mercado segue a mesma tendência, em meio à recuperação gradual do consumo do produto.

O progresso das campanhas de vacinação nos EUA e na Europa permitiu a redução das restrições de mobilidade em algumas regiões, garantindo assim a expansão do consumo de combustíveis. Em paralelo, os pacotes emergenciais criados por alguns países para a contenção dos impactos econômicos da Covid-19 acarretaram maior poder de compra por parte da população, permitindo aumento das viagens em países que passam por um período de “driving season”, como no caso dos EUA.

Pelo lado da oferta, a OPEP+ vem gradualmente ampliando a sua produção conforme decisão feita no início de abril, em que os países membros do cartel se comprometeram com a redução dos cortes de produção ao longo do primeiro semestre, dado o aumento da previsão da demanda futura por petróleo. Além disso, a quantidade de sondas ativas de petróleo e gás nos EUA segue crescendo (ainda que de forma lenta), guiado tanto pela manutenção dos preços da commodity, que hoje operam acima da shaleband (faixa de preços da produção de xisto), quanto pelo aumento dos investimentos em produção, acompanhando novas previsões de aumento da demanda por petróleo e derivados no país ao longo do ano.

Janela de oportunidade para os biocombustíveis

O período atual, marcado pela recuperação dos preços do petróleo e de seus derivados, oferece as condições para que mais economias reavaliem a participação de combustíveis fósseis em suas matrizes energéticas. Além das metas de redução da emissão de poluentes e GEE, previstas nos acordos internacionais de combate às mudanças climáticas, a transição para fontes alternativas pode ser estratégica para algumas economias do ponto de vista da segurança e independência energética.

Na década de 1970, marcada pelas crises do petróleo de 1973 e 1979, o Brasil aproveitou de seu protagonismo histórico como importante produtor de cana-de-açúcar para lançar em 1975 o PróÁlcool, que visava estimular a produção de etanol para a substituição da gasolina pelo setor automotivo. O programa foi a primeira iniciativa formal de incentivo à adoção de energia renovável no mundo.

Apesar de a utilização de etanol nos Estados Unidos ter sido implementada já nos anos 1980, visando reduzir a concentração de monóxido de carbono do ar de algumas regiões do país, sua ampliação à esfera nacional se deu somente em meados dos anos 2000, com o estabelecimento de metas de mistura compulsória de combustíveis renováveis aos carburantes fósseis. À época, o mercado de petróleo operava em um ciclo de alta, repercutindo o crescimento acelerado da economia chinesa e as tensões geopolíticas no Oriente Médio, com as cotações chegando a ultrapassar os USD 100/bbl antes do colapso dos preços em 2014.

Devido ao seu papel de destaque na produção global de cana-de-açúcar, por seus recorrentes excedentes de fabricação do adoçante e por sua ampla dependência às importações de petróleo, a economia indiana apresenta condições para ampliar sua posição no mercado global de biocombustíveis, como importante produtora e consumidora de etanol.

Importações de petróleo pela Índia (milhares de toneladas)

Fontes: Ministério de Petróleo e Gás Natural da Índia e StoneX . Elaboração: StoneX.

De fato, desde o início da segunda onda da Covid-19 na Índia, o mercado segue preocupado com a demanda futura por petróleo e seus derivados no país. Dados divulgados pelo Ministério de Petróleo e Gás do governo indiano mostraram que o país vinha recuperando os seus níveis de importação desde outubro/20, conforme aumento dos índices de mobilidade e reaquecimento econômico, com o volume crescendo de 15,26 milhões de toneladas no mês citado para 20,49 milhões de toneladas em dezembro/20.

No entanto, a Índia passou a registrar queda das importações de petróleo e derivados com a chegada da nova onda de contágios no país em fevereiro de 2021. Apesar de a redução entre janeiro e fevereiro ser explicada, em parte, por movimentos sazonais, as importações de fevereiro passaram a operar abaixo da média mensal de 5 anos, com 17,01 milhões de toneladas adquiridas. Da mesma forma, o volume importado em março alcançou patamar próximo da mínima histórica para o mês, em 18,26 milhões de toneladas. Em abril, as importações se mantiveram estáveis, com queda de 0,03% quando comparado a março, mas acima da média de 5 anos.

Com relação ao consumo de produtos petrolíferos, os dados mostram que entre abril e agosto de 2020, a demanda por petróleo e derivados operou nas mínimas históricas dos últimos 5 anos, passando a retomar crescimento acima da média de 5 anos apenas em outubro/20.

Mesmo com a segunda onda de contágios por Covid-19, o país conseguiu manter, desde então, o valor de consumo acima da média dos 5 anos, muito guiado pela manutenção dos índices de mobilidade, que começaram a sentir os efeitos da segunda onda a partir do início de abril/21.

Consumo de produtos petrolíferos na Índia (milhares de t)

Fontes: Ministério de Petróleo e Gás Natural da Índia e StoneX. Elaboração: StoneX.

Diante disso, o mercado aguarda uma possível redução das importações e do consumo por petróleo e derivados da Índia nos próximos meses. Essa diminuição também está atrelada com os índices de mobilidade no país, dado que, de acordo com a Apple, no dia 20/03/2021, a mobilidade do tipo “dirigindo” na Índia estava 60,55% acima da data base (13/01/2020), ao passo que o mesmo indicador se apresentava 47,6% abaixo da data base em 18/05/2021.

A queda acentuada da mobilidade do país está diretamente relacionada com o aumento das restrições de deslocamento em algumas regiões da Índia nas últimas semanas, conforme avanço dos contágios por Covid-19.

O Peso do petróleo sobre a pauta de importação indiana

Devido ao alto volume de importações pela Índia, as cotações do petróleo são variáveis-chave para a economia do país. Além disso, como observado no gráfico abaixo, os preços do petróleo e a participação da commodity no valor das importações indianas apresentam uma correlação forte, de 85,1%.

Brent e share do petróleo nas importações indianas

Fontes: Ministério da Indústria e Comércio da Índia e StoneX. Elaboração: StoneX.

No primeiro período da última década, a maior participação do petróleo nos gastos vinculados às importações foi resultado da alta nos preços do Brent, após este atingir um pico de USD 125,89/bbl em abril de 2011. A partir de 2014, o mercado observou uma queda das cotações, devido ao superávit na relação entre oferta e demanda. Tal dinâmica foi guiada pelo boom produtivo dos EUA com a segunda revolução do xisto no país, a mudança na política produtiva da OPEP e uma demanda abaixo do esperado da commodity na Ásia e na Europa. Com isso, a participação do petróleo no valor das importações totais indianas passou de uma média de 33,67% entre 2011 e 2014, para 25,23% de 2017 a 2020, aliviando seu peso sobre as contas externas do país.

Com relação à trajetória futura dos preços do petróleo, a StoneX espera aumento dos preços no curto e médio prazo, guiado pela provável recuperação da demanda, dinâmica que não tende a ser acompanhada no mesmo ritmo pela oferta, causando um déficit no balanço da commodity.

Diante disso, caso mantidos os níveis de importação e consumo de petróleo por parte da Índia, o país pode sentir um impacto ainda maior na sua balança comercial, o que tende a corroborar aumento da procura do governo indiano pela diversificação de sua matriz energética.

A economia indiana em 2021

Os números ainda bastante altos de casos e óbitos por Covid-19 no mundo, e o risco de surgimento de novas cepas do vírus que sejam mais transmissíveis e letais da doença, ou resistentes às vacinas desenvolvidas até o momento, seguem como fator de risco para a recuperação global. Neste quesito, a Índia se tornou o centro das atenções nos últimos meses, quando passou a registrar um aumento substancial no número de infecções, tornando-se o epicentro da pandemia em abril, e a detecção de novas variantes da Covid em sua população dificultam o enfrentamento à doença no país e preocupam outras economias. Na última quarta-feira (19), o país registrou 267 mil novos casos e 4.529 mortes pela doença em 24 horas, novo recorde de óbitos em um dia, ultrapassando a marca de 4.475 atingida pelos Estados Unidos em janeiro.

Desta forma, as dificuldades do controle do vírus na Índia, e as medidas preventivas adotadas por outras nações, como a restrições de viagens e voos ao país e a possibilidade de atrasos na flexibilização de medidas de distanciamento social, ameaçam novas disrupções em cadeias produtivas e logísticas globais, bem como limitam as perspectivas de crescimento e consumo da economia indiana em 2021.

Em suas últimas estimativas, divulgadas no final de março, o FMI havia revisado para cima suas projeções de crescimento para o PIB da Índia neste ano, de 11,5% em janeiro para 12,5%. O diagnóstico mais otimista levava em consideração a dinâmica de crescimento pré-pandemia, acima da média global e de outras economias da Ásia em desenvolvimento, e a retirada de restrições à socialização e mobilidade. Com o recrudescimento da pandemia no país, e o surgimento da variante de atenção B.1.617.2 – mais transmissível do que as cepas originais do novo coronavírus – espera-se uma moderação na trajetória do crescimento indiano em 2021.

Mesmo com a deterioração nas expectativas para a retomada da atividade econômica, a rúpia indiana tem se mostrado mais resiliente do que outras moedas de economias emergentes desde o início da pandemia. No comparativo com a média das cotações registradas em janeiro de 2021, a rúpia acumula desvalorização de 2,4%, consideravelmente menor do que a observada para o real brasileiro (-21,4%), o rublo russo (-15,7%) e a cesta de moedas emergentes calculada pelo J.P. Morgan (-5,3%). O enfraquecimento recente do dólar no cenário global e a expectativa de que medidas mais amplas de estímulo possam ser adotadas pelo governo de Nova Delhi para amparar a recuperação econômica após o surto devastador de Covid-19 dos últimos meses têm contribuído para limitar as perdas da rúpia em 2021.

Índice de mobilidade na Índia (data base = 13/01/2020)

Fonte: Apple. Elaboração: StoneX.

As perspectivas para o desenvolvimento do setor de etanol

Diante da conjuntura apresentada acima, a Índia tem apostado cada vez mais nos incentivos para o aumento da capacidade de destilação de etanol. Tal medida vem em linha com o compromisso do país com o Acordo de Paris, ou seja, de reduzir suas emissões de carbono entre 33% e 35% até 2030 em relação aos níveis de 2005.

Para além do compromisso ambiental, os incentivos ao aumento da produção de etanol também garantem uma menor dependência do país com as importações de petróleo. De fato, os planos indianos se mostram bastante ambiciosos, já que o país visa o alcance de 10% (E10) de mistura do etanol na gasolina já em 2022, bem como a antecipação do E20, de 2030 para 2025.

Ainda que otimistas, tais perspectivas não se mostram tão distantes da realidade. Isto porque, em 2021, o país alcançou o recorde de mistura do biocombustível nas bombas, na ordem de 7,3% – patamar que tem se mostrado ainda superior nas regiões canavieiras do país, chegando a se aproximar de 10% em Maharashtra, Uttar Pradesh e Karnataka. Vale lembrar que, em 2020, a adição do etanol à gasolina era de apenas 5,2% na média do país.

Ademais, tal conjuntura também garante melhora na saúde financeira do setor açucareiro indiano, já que viabiliza o direcionamento do excedente produtivo à destilação. De fato, diversas medidas foram adotadas nessa direção, como a elevação do preço do álcool, taxação de biocombustível importado e concessão de crédito para o investimento na capacidade produtiva.

Consequentemente, tais incentivos aumentaram a atratividade do etanol frente ao açúcar, com o preço do litro do biocombustível atualmente sendo cerca de 1,6 vez superior ao quilograma do adoçante, de acordo com divulgação recente da ISMA. Nesse sentido, a expansão dos combustíveis renováveis na Índia estará atrelada às perspectivas para o setor sucroenergético, tendo em vista que a cana-de-açúcar é a principal matéria-prima utilizada na fabricação do álcool.

Até o momento, o firme crescimento da destilação de etanol tem sido pautado pela maior produção de açúcar ao longo das últimas temporadas, sendo que o direcionamento ao biocombustível ganhou destaque em 2020/21 (out-set). A ampla disponibilidade de matéria-prima para a destilação é reforçada, também, pelos possíveis impactos da Covid-19 sobre o consumo do açúcar, o que poderia aumentar os estoques finais da commodity em 1,0 milhão de toneladas na safra corrente.

Tal cenário tende a persistir ao longo da safra 2021/22, em vista das condições climáticas favoráveis e crescimento da área canavieira indiana, com o direcionamento de açúcar à destilação sendo projetado para 2,5 milhões de toneladas. No entanto, quando pensamos em um horizonte de mais longo prazo, alguns pontos precisam ser ponderados.

De modo a alcançar o E20, contatos da StoneX na Ásia apontam que a Índia precisará produzir cerca de 7,0 a 10,0 milhões de m³ de etanol anualmente. Considerando que pouco menos de 80% da destilação em 2020/21 deve ocorrer a partir de melaço B ou caldo de cana, matérias-primas que retiram açúcar de forma parcial ou integral no processo produtivo, projetamos que entre 5,0 e 7,0 milhões de toneladas do adoçante deverão ser direcionadas à produção de álcool até 2025.

Ao analisarmos que o país, em condições climáticas dentro da normalidade, tem potencial de apresentar superávit produtivo de 6,0 milhões de toneladas da commodity, torna-se evidente que Nova Delhi precisará estimular a produção de etanol a partir de outras matérias-primas, sobretudo grãos. Tal cenário ganha relevância quando pensamos em eventuais adversidades e quebras na safra de cana – especialmente porque o açúcar é alimento básico para a população indiana, o que leva à necessidade de garantia de uma certa quantidade de estoques para a segurança alimentar.

Produção de açúcar e etanol* na Índia (mi toneladas)

*Diversificado da produção de açúcar Fontes: ISMA e StoneX. Elaboração: StoneX.

Apesar disso, fica cada vez mais claro que o crescimento do setor de etanol tende a contribuir com a receita das usinas, ajudando a aliviar o excedente produtivo de açúcar no mercado doméstico, bem como a favorecer a menor dependência do país com o mercado externo, em especial as importações de petróleo.

 

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