Marina Malzoni

Marina Malzoni

Formada em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP e mestranda em Economia Agrícola pela University of Alberta. Trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, com foco na área de milho e pecuária.

Suspensão das compras chinesas: Se concretizada, qual será o impacto para o setor de proteína animal?

O cenário continua otimista para as exportações nacionais de carnes

O surto de coronavírus permanece causando temor no cenário internacional e com consequências ainda incertas para grande parte das commodities agrícolas, que esperam por atualizações sobre o quadro de evolução do vírus e de seus impactos na economia mundial para melhor balizar o direcionamento do mercado.

Até a primeira semana de fevereiro, mais de 28 mil casos já foram confirmados, número bem acima ao registrado pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que incidiu sobre o país asiático entre 2002 e 2003 e que apresenta um material genético 80% similar ao do coronavírus.

Ainda que a tensão no mercado externo continue imperando, o movimento tem sido de maior cautela, acompanhando as notícias recentes sobre o seu baixo risco de fatalidade, na ordem de 2%. Grande parte deste sentimento também veio de uma visão mais aprofundada sobre o desenvolvimento da economia chinesa. Ao longo da história, o PIB per capta chinês seguiu um movimento favorável, mesmo diante de surtos, pestes e conflitos, tais como o recente embate comercial com os EUA.

Figura 1. Exportações brasileiras de carne bovina para a China (mil toneladas)

Fonte: ComexStat. Elaboração: StoneX.

Por mais que a evolução do vírus e a sua chegada em demais polos consumidores de commodities agrícolas preocupe o mercado, o movimento de tensão para o longo prazo tem perdido força, sendo avaliado mais como uma questão pontual.

Com isso, na China, nação que detém 99% da contaminação do vírus, o grande problema tem sido ao redor das dúvidas com relação ao tempo de controle do vírus e à rede de logística do país. As políticas públicas do gigante asiático continuam sendo de contenção do trânsito populacional e de mercadorias, o que tem retraído o comércio e causado danos aos diversos setores de sua economia.

Para o setor de proteína animal, os impactos e medidas de controle para a contenção do vírus levaram à dificuldade no abastecimento de granjas, o que tem dizimado o rebanho de aves chinês em função da falta de formulados de rações no mercado. A China, que ainda sofre com os impactos da Peste Suína Africana (PSA) de 2019, e com a consecutiva redução de cerca de 50% de seu rebanho suíno efetivo, agora, tem enfrentado novos desafios para sustentar sua produção de carnes.

Figura 2. Exportações brasileiras de carne suína para a China  (mil toneladas)

Fonte: ComexStat. Elaboração: StoneX.

Sendo assim, para conturbar ainda mais este cenário, casos de gripe aviária já estão sendo relatados no país asiático. Os 3 surtos que incidem na China, quase que simultaneamente, influenciam o comportamento do consumidor, o que deve colocar a proteína brasileira em uma situação de maior destaque. Políticas chinesas em favor da segurança alimentar, associadas à busca do consumidor por fontes de proteínas mais confiáveis, poderão incentivar as exportações do Brasil.

Isto já vinha sendo observado com o estreitamento de laços do gigante asiático com frigoríficos brasileiros exportadores de carnes, os quais se movimentam para aumentar o número de unidades habilitadas a atender a demanda chinesa.

Ainda assim, é importante ressaltar que, com a incidência do coronavírus, a China tem importado proteínas do Brasil em uma menor escala neste primeiro momento. Apesar das manchetes apontarem para uma suspensão em novas compras chinesas, o que contribuiu com o movimento baixista para o setor brasileiro exportador de carnes nesta sexta-feira (7), alguns pontos precisam ser ponderados.

O movimento de baixa, como já muito comentado, era esperado. A China recompôs os seus estoques de carne bovina no final do ano passado, o que dá margem para o gigante asiático reduzir suas compras agora, e competitividade da proteína animal brasileira no âmbito internacional. Em síntese, apesar do recuo pontual da demanda chinesa, a expectativa é de um avanço acelerado no médio prazo.

De qualquer forma, a atenção ainda se volta à evolução do coronavírus, bem como às descobertas em torno da sua forma de transmissão. Vale dizer que o quadro atual ainda deve oscilar, principalmente, se constatada uma relação da contração do vírus com hábitos alimentares, o que poderia mudar a dinâmica do consumo de proteínas e aumentar a busca por carnes de origens mais seguras, em destaque a brasileira, que é conhecida mundialmente pelo seu bom manejo sanitário.

Figura 3. Exportações de carne de frango brasileira para a China (mil toneladas)

Fonte: ComexStat. Elaboração: StoneX.

 

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