João Lopes

João Lopes

Graduado em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Integra o time da Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2019 nos mercados de Grãos e Pecuária.
Este texto teve a colaboração de Ana Luiza Lodi..

Mesmo com a valorização dos animais ao longo dos últimos meses, relação de troca com os insumos recuou significativamente.

Fortalecimento dos preços dos grãos pesa sobre rentabilidade dos pecuaristas no Brasil

Os mercados de grãos estão num momento de predominância de fatores altistas, com os preços se mantendo em patamares sustentados, mesmo com o período de colheita no Brasil. No caso do farelo de soja, o aumento do esmagamento tem pesado um pouco, mas os preços também continuam fortalecidos.

Esse cenário tem grande impacto no custo da pecuária, uma vez que o milho e o farelo de soja são os principais componentes da ração, respondendo em conjunto por cerca de 85%, com o cereal fornecendo energia e o farelo sendo o ingrediente proteico.

É importante destacar os fatores que têm contribuído para a manutenção dos preços do milho e do farelo de soja fortalecidos. O câmbio é uma das principais variáveis que condicionam esse movimento, com o real estando mais desvalorizado, acima de R$ 5,00 desde o primeiro semestre de 2020. Essa situação cambial favoreceu muito as exportações brasileiras do ciclo 2019/20, destacando que a demanda interna também se recuperou após os impactos iniciais da pandemia, com o relaxamento de medidas de isolamento social e também pelo auxílio emergencial concedido pelo governo.

Destaca-se, ainda, que o segundo semestre foi marcado pela recuperação das cotações também em Chicago, em meio a algumas perdas de safra nos EUA, a um clima menos favorável ao início do ciclo na América do Sul, aliados a uma demanda aquecida, com destaque para as compras de soja norte-americana pela China e pelas vendas estadunidenses em geral. As exportações norte-americanas de milho também ganharam o reforço das compras chinesas, destacando que o país asiático deve se consolidar como o maior importador mundial do cereal no ciclo 2020/21.

Atualmente, o Brasil vai consolidando uma safra recorde de soja, estimada pela StoneX em 134 milhões de toneladas, enquanto a produção da safrinha ainda é incerta, devido aos atrasos no plantio, que podem resultar em perdas de produtividade por falta de chuvas entre o final de abril e maio.

De qualquer forma, mesmo se der tudo certo com a safra de milho, é importante destacar que não é todo o grão que estará disponível no momento da colheita, uma vez que a comercialização da safrinha do cereal já ronda 50%. No caso da soja, a situação é semelhante, com quase 70% da oleaginosa do ciclo 2020/21 já comprometida, num momento de exportações extremamente aquecidas, com os line-ups indicando mais de 16 milhões de toneladas em abril.

Para compreender com mais detalhes o real impacto deste cenário de fortalecimento dos preços dos insumos no setor de proteínas animais, é necessário analisar como a lucratividade dos pecuaristas foi atingida. Para isso, a relação de troca, que informa quantos quilos do insumo poderiam ser adquiridos ao vender 1 kg do animal vivo, é um dos principais indicadores para analisar como a operação foi impactada.

De modo geral, o encarecimento dos insumos durante o segundo semestre do ano passado atingiu de maneira muito similar os produtores de bovinos, suínos e aves. Apesar da valorização dos preços dos animais, com a cotação dos suínos subindo cerca de 30% e a do boi gordo e do frango avançando por volta de 20% na metade final de 2020, as relações de troca com o milho e o farelo de soja recuaram significativamente no período, visto que os insumos valorizaram, respectivamente, ao redor de 50% e 45%.

Relação de troca do boi gordo com insumos em São Paulo

Fonte: Cepea e StoneX.

Em 2021, os insumos seguem exercendo um elevado peso sobre a lucratividade dos pecuaristas no país. No que tange a bovinocultura de corte, a relação de troca entre o boi gordo e o milho chegou a 14,1 em março de 2021, seu menor patamar desde junho de 2018. Já a relação de troca com o farelo de soja apresentou uma leve melhora para o produtor do animal neste último mês. Após chegar a 6,9 em dezembro de 2020, seu menor valor desde junho de 2018, o indicador avançou para 7,8 em março de 2021, puxado, principalmente, pela recente desvalorização do farelo de soja.

Relação de troca do frango vivo com insumos em São Paulo

Fonte: Avisite, IHS e StoneX.

Pelo lado dos produtores de frango de corte, a evolução do peso dos custos com ração na atividade apresentou um movimento similar ao observado na bovinocultura. A relação de troca com o milho chegou a 3,2 no último mês, seu menor valor em mais de 3 anos, enquanto a relação de troca com o farelo de soja, após atingir sua mínima em mais de 3 anos em dezembro de 2020 (1,5), avançou para 1,8 em março deste ano.

Relação de troca do suíno vivo com insumos em São Paulo

Fonte: Cepea, IHS e StoneX.

Já para os suinocultores, a lucratividade da atividade ficou ainda menos atrativa neste início de ano. No primeiro trimestre de 2021, os preços do suíno vivo recuaram em torno de 11%, pressionando a relação de troca com o cereal para 4,6, seu menor valor desde maio de 2018 e a relação de troca com o farelo de soja para 2,5.

Esse cenário de encarecimento dos insumos tem motivado a busca por alternativas ao milho e ao farelo de soja na ração animal. Um exemplo é o Plano Duas Safras, que pretende implantar um sistema de duas safras na Região Sul do país com a finalidade de ampliar o cultivo de culturas alternativas ao milho, como o trigo, triticale, cevada, centeio, canola e aveia durante o inverno.

Contudo, a estrutura das cadeias produtivas dessas fontes alternativas é muito menos desenvolvida que a dos principais grãos utilizados no país e dificilmente, ao menos no curto prazo, o uso de alternativas aos principais grãos utilizados na alimentação animal não deverá ser capaz de proporcionar um alívio considerável nos custos. Segundo dados da Conab, a produção conjunta de trigo, triticale, centeio, cevada, aveia e sorgo – alternativas para o fornecimento de energia ao animal –  deverá totalizar 10,5 milhões de toneladas na safra 2020/21, enquanto a produção de canola, sementes de girassol e caroço de algodão – alternativas para o fornecimento de energia ao animal – deverá ficar m 3,7 milhões de toneladas, volumes muito inferiores ao que se produz de milho e soja no país.

 

João Lopes

Graduado em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Integra o time da Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2019 nos mercados de Grãos e Pecuária.
Este texto teve a colaboração de Ana Luiza Lodi.

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