Felipe Sawaia

Felipe Sawaia

Estudante de Ciências Econômicas pela Unicamp. Trabalha desde 2021 na Inteligência de Mercado da StoneX, com foco nas áreas de pecuária e grãos.
Este texto teve a colaboração de João Lopes.

Argentina suspende exportações de carne bovina e revolta pecuaristas do país

Medida pode trazer consequências para o mercado interno e para o setor agropecuário mundial

Como é recorrente na história da Argentina, o país novamente enfrenta um período de altos níveis de inflação. O crescimento de preços mensal registrado em abril foi de 4,1% e no acumulado de 2021 já chegou a 17,6%. Quando se faz a comparação anual, os argentinos viram o custo de vida aumentar 46,3% nos últimos doze meses. Nesse complicado cenário econômico, o governo do país vem sendo obrigado a dividir o foco do combate à pandemia com a luta pela estabilização dos preços. Um dos produtos mais afetadas no país foi a carne bovina, produto central da cesta de consumo da Argentina e que sofreu um aumento de 65,3% nos últimos doze meses, valor consideravelmente acima da taxa geral de inflação.

Inflação mensal na Argentina (%)

Fonte: Indec. Elaboração: StoneX.

Na interpretação do presidente argentino, Alberto Fernández, não há nenhuma explicação razoável para esse movimento de alta. As severas medidas de isolamento social fizeram o PIB do país cair 9,9% em 2020, diminuindo substancialmente o poder de compra da população e elevando a taxa de probreza para 42%, avanço de 6,5 p. p. no comparativo anual. Nesse cenário de queda expressiva do nível de atividade econômica, Fernández defende que a inflação não poderia ser resultado de um excesso de demanda. Buscando outras explicações, o governo argentino identificou que produtos com alta participação nas exportações tinham se valorizado acima da inflação. Interpretando que o aumento da carne bovina era causada pela elevação da demanda internacional, especialmente chinesa, o governo argentino suspendeu por trinta dias a exportação de carne bovina, medida que se iniciou na segunda-feira (17/05) e gerou um turbilhão no mercado internacional da pecuária.

A medida estatal enfureceu os pecuaristas do país. De imediato, a Comissão de Enlace das Entidades Agropecuárias, órgão que representa o setor, anunciou repúdio à medida. Mais que isso, anunciaram a interrupção da comercialização de carnes no país na quinta (20) e sexta-feira (21). Eles argumentam que a inflação não tem nenhuma relação com os produtos de exportação, sendo resultado do aumento do déficit fiscal e da emissão monetária, colocados em prática pelo governo ao longo de 2020 a fim de fornecer os auxílios emergenciais à população. Frente a essa forte pressão exercida pelos pecuaristas, não se sabe se o governo irá conseguir manter a medida pelos trinta dias prometidos. Em janeiro, medida similar havia sido anunciada para o milho, mas o governo voltou atrás após reunião com fazendeiros do setor.

Nesse cenário de grande incerteza, alguns velhos temores voltam a atormentar o país. Isso porque não é a primeira vez que a Argentina utiliza a proibição de exportações como medida para conter a inflação. Em 2006, no governo de Nestor Kirchner, foram proibidas as exportações de carne bovina durante seis meses e, depois disso, medidas restritivas passaram a ser usadas regularmente até o final de 2015. Dado esse histórico, ninguém duvida da eficácia da medida no curto prazo, que já se provou certeira no passado. De fato, horas depois do anúncio da semana passada, o quilo da carne recuou de 111,4 pesos para 94,6 pesos no Mercado de Hacienda de Liniers, centro comercial que abastece os frigoríficos de Buenos Aires. O que preocupa economistas são as consequências de longo prazo que essas medidas podem desencadear.

Analisando os cerca de dez anos em que as restrições as exportações de carne foram recorrentes, o que é claramente perceptível é que a queda da lucratividade dos pecuaristas no período fez com que muitos desses fazendeiros abandonassem esse ramo de atividade, voltando-se para outros setores. Com isso, o rebanho da Argentina diminuiu consideravelmente. Para se ter uma ideia, logo antes do país suspender as exportações em 2006 existiam cerca de 62 milhões de cabeças de gado na Argentina. Hoje, quinze anos depois, a quantidade diminuiu para 50 milhões. Esse movimento, além de ter trazido enorme prejuízo para um dos principais setores exportadores do país, acabou sendo contraprodutiva, no médio/longo prazo, também no combate à inflação. Gerando escassez de oferta, as medidas fizeram com que a inflação no mercado de carne bovina fosse mais recorrente e acelerada do que antes. Assim, tendo como base essa experiência histórica argentina, o setor pecuarista do país exige o fim das suspensões impostas pelo governo, afirmando que a medida colocada em prática agora em 2021 pode aprofundar ainda mais a crise vivida pela Argentina.

Evolução do rebanho de bovinos na Argentina (milhões de cabeças)

Fonte: IERAL e Minagri. Elaboração: StoneX.

É importante destacar que ainda é muito cedo para dizer como esse decreto irá afetar o mercado argentino. A suspensão tem um prazo razoavelmente curto e mesmo esses trinta dias não estão garantidos. Apesar disso, o farol de alerta já está aceso. Da mesma maneira, prever consequências dessas medidas para a pecuária brasileira também seriam apenas apostas. Não há um prognóstico óbvio a ser seguido. Apesar disso, caso se concretize a manutenção da suspensão de exportação pelos trinta dias, é possível que vejamos alguns impactos, principalmente no curto prazo, no mercado de carnes bovinas do Brasil.

Em primeiro lugar, um indicador que pode ser impactado são as exportações de carne do Brasil, em maio e em junho. Segundo dados do International Trade Center, 83,1% de toda carne bovina argentina exportada em 2020 teve como destino a China. Dada as fortes e bem estabelecidas relações comerciais entre os frigoríficos brasileiros e os importadores de carne chineses, é possível que, enquanto perdurar a suspensão, parte significativa da demanda externa pela carne argentina transborde para os mercados do Brasil. Como a suspensão é por um tempo limitado, provavelmente ela não deve impactar significativamente no médio prazo as exportações da Argentina. Apesar disso, medidas como essa diminuem a confiança dos agentes, sendo possível que alguns importadores abandonem permanentemente o mercado argentino, beneficiando a indústria brasileira.

Seguindo com as especulações, essa já é um pouco mais distante. Porém, caso se concretize a maior demanda chinesa, pode ser que os consumidores brasileiros vejam a carne inflacionar mais alguns pontos percentuais. Ganhando poder de barganha, toda a cadeia de compra e venda de boi pode aproveitar o momento para maximizar seus lucros, com a conta do aumento generalizado dos custos ficando, no final, tanto para o mercado externo, como para os consumidores internos.

Se concretizando ou não esses prognósticos, fato é que o mercado bovino da Argentina vive um momento conturbado. A queda de braço no país entre setores peronistas e pecuaristas é antiga e equilibrada, com os primeiros tendo a seu favor o peso da máquina estatal e os segundos contando com a importância de ser um dos mais importantes setores econômicos do país. O desenrolar da situação é algo a se observar, com esse podendo ser o início de um novo capítulo de disputas no constantemente conturbado cenário econômico argentino.

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