Felipe Sawaia

Felipe Sawaia

Estudante de Ciências Econômicas pela Unicamp. Trabalha desde 2021 na Inteligência de Mercado da StoneX, com foco nas áreas de pecuária e grãos.

Animais de reposição passam por processo de barateamento

VALORIZAÇÃO DO BOI GORDO NOS ÚLTIMOS CINCO MESES NÃO FOI ACOMPANHADA NA MESMA INTENSIDADE POR BOI MAGRO E BEZERRO

No dia 28 de outubro de 2021, a StoneX identificou a menor cotação para o boi gordo no estado de São Paulo em mais de um ano: R$ 256,92/@. A forte pressão sobre o animal terminado era resultado do embargo chinês às exportações brasileiras de carne bovina, que de uma hora para a outra cortou em cerca de 15% a demanda pela produção brasileira.

Entretanto, desde então, o animal terminado está se valorizando. Já em novembro, sua cotação retornou para o patamar pré-suspensão, movimento decorrente da forte limitação da oferta. Em meados de dezembro, com o retorno das vendas para a China, o boi gordo deu um novo salto, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos R$ 330,00/@ em São Paulo. Nos três primeiros meses de 2022, a tendência de alta perdeu impulso, mas o animal seguiu sendo negociado a valores extremamente elevados, ficando cotado no dia 29 de março a R$ 333,77/@. Assim, nos últimos cinco meses, o boi gordo teve uma valorização de 29,9%.

No mercado de reposição, a dinâmica não foi exatamente a mesma. Olhando para os preços do boi magro de 12,5@ (370 kg) no estado de São Paulo, percebe-se que ele até variou em conjunto com o animal terminado, seguindo a tendência indicada com um atraso de 10 a 15 dias. A diferença, entretanto, foi a intensidade do movimento. Em especial, a valorização de 22,8% do boi gordo em novembro não foi acompanhada na mesma medida pelo boi magro, que em sua recuperação teve alta de apenas 6,4%. No restante do período, os dois animais variaram de maneira relativamente similar, o que foi insuficiente para que o boi magro recuperasse o terreno perdido. Assim, sua valorização acabou sendo 15,7 pontos percentuais inferior à do boi gordo. No gráfico abaixo, percebe-se como a cotação em arrobas dos animais se tornou extremamente parecida.

Cotação  do boi gordo e do boi magro no estado de São Paulo (R$/@)

Fonte: StoneX e CEPEA. Elaboração: StoneX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mercado de bezerros, também utilizando o estado de São Paulo como referência, o movimento de alta foi ainda menos intenso. Do final de outubro até o final de dezembro de 2021, o animal de 6,5@ teve valorização de apenas 6,5%, porcentagem consideravelmente inferior à de 26,1% do boi gordo. O ano de 2022 veio apenas para aumentar a discrepância. Nos três meses até aqui transcorridos, o terminado atuou em estabilidade, enquanto o de reposição se desvalorizou quase que constantemente.

Variação percentual do boi gordo e do bezerro no estado de São Paulo (28/10/2021 = 100)

Fonte: StoneX e CEPEA. Elaboração: StoneX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frente aos ganhos mais significativos do animal terminado, é claro que o ágio do boi magro (@boi magro/@boi gordo) e o ágio do bezerro (@bezerro/@boi gordo) se tornaram menos significativos nesses últimos meses, um indicativo de forte barateamento relativo dos animais de reposição. Entretanto, dado o ciclo sazonal da pecuária, não é ideal comparar dados de diferentes períodos do ano. Sendo assim, olhemos para o ágio médio dos últimos cinco anos para o mês de março.

No mercado de boi magro, o ágio em 2022 é o menor da série histórica. Quando comparado com os últimos dois anos, período em que a retenção de fêmeas e a escassez de animais de reposição estavam no auge, o ágio atual de 0,2% se torna especialmente discrepante, sendo mais do que cinquenta vezes inferior aos valores de 2020 e 2021.

Ágio médio do boi magro no mês de março para os últimos cinco anos (@boi magro/@boi gordo)

Fonte: StoneX e CEPEA. Elaboração: StoneX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mercado de bezerros, o ágio não é o menor dos últimos cinco anos, já que o de 2022 é maior que o de 2017 e o de 2019. Mesmo assim, os 27,4% são significativamente inferiores aos valores próximos dos 50% registrados nos dois anos imediatamente anteriores.

Ágio médio do bezerro no mês de março para os últimos cinco anos (@bezerro/@boi gordo)

Fonte: StoneX e CEPEA. Elaboração: StoneX.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De modo geral, isso significa grandes oportunidades para o pecuarista. Aquele envolvido com o confinamento está observando o boi magro relativamente mais barato dos últimos cinco anos. Como mais de 60% dos custos com confinamento se dão com a aquisição de animais, é provável que esse produtor consiga atuar com margens mais folgadas. O comprador de bezerros também encontra um cenário mais favorável, já que ele pode obter o animal jovem a preços mais acessíveis. Até mesmo o pecuarista que oferta boi gordo é afetado por esse novo cenário, sabendo que conseguirá adquirir uma reposição mais barata caso venda seu animal.

Além das oportunidades, esse barateamento dos animais de reposição levanta a questão: estamos observando a inversão do ciclo da pecuária? De modo geral, esses números são um indício de que está existindo uma oferta maior de bois magros e bezerros. Portanto, é possível dizer que estamos pelo menos no início do processo de reversão.

Entretanto, muitos produtores ainda estão optando pela retenção de fêmeas, entendendo que esse animal trará mais lucro com a reprodução do que a venda para corte. Os dados do IBGE para o 4º trimestre de 2021 não deixam dúvidas: foram abatidas apenas 1,45 milhão de vacas, menor quantidade de abates em um trimestre desde o longínquo ano de 2002.

Sendo assim, conclui-se que em 2022, provavelmente, não existirá uma abundância de fêmeas à disposição dos frigoríficos, mas que a oferta desse tipo de animal já começou a aumentar e deve continuar avançando.

Felipe Sawaia

Estudante de Ciências Econômicas pela Unicamp. Trabalha desde 2021 na Inteligência de Mercado da StoneX, com foco nas áreas de pecuária e grãos.

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