Leonardo Rossetti

Leonardo Rossetti

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, atuando nas análises sobre os mercados de café, cacau, câmbio e macroeconomia.
Este texto teve a colaboração de Fernando Maximiliano, Luigi Bezzon e Marcelo Bonifácio..

As cotações dos principais nutrientes aplicados nos cafezais brasileiros mais que dobraram ao longo do último ano

Alta dos fertilizantes e aproximação da florada. Como ficará a adubação dos cafezais da safra 2022/23 no Brasil?

Desde o início de 2021, os preços de café apresentaram uma forte tendência altista, quando as cotações da commodity tiveram alta de 42,3% em NY até o fim do mês de julho – o contrato mais ativo fechou o mês cotado a US₵ 179,55/lb. Em Londres, a variedade robusta teve valorização de 30,2%, fechando o mesmo mês cotado a USD 1.786/ton. Como resultado, os preços de café arábica no mercado físico brasileiro apresentaram alta de 64,7% de janeiro a julho; o indicador CEPEA atingiu valores acima de R$ 1.000/sc, nível jamais visto no mercado brasileiro. Já os preços do café conilon foram vistos pertos das máximas históricas da variedade, acumulando ganhos de 42,5% entre janeiro e julho, quando o indicador CEPEA terminou o mês em R$ 580,56/sc.

Preços domésticos de café arábica e robusta (R$/saca)

Fonte: CEPEA. Elaboração: StoneX.

Esta forte valorização foi resultado de um conjunto de eventos, que vão desde o ciclo bianual do café, fatores climáticos e macroeconômicos. Por ser um ano com bienalidade negativa, já existia uma expectativa de uma produção menor no ano-safra 2021/22, perspectiva que foi acentuada pelo clima adverso no fim de 2020 e no primeiro semestre de 2021. Além disso, com a chegada do inverno brasileiro, a ocorrência de três geadas no cinturão cafeeiro em junho e julho provocou grande volatilidade e suportou ganhos no mercado internacional de café. Ademais, a manutenção do dólar em patamar elevado contribuiu para a forte valorização do café no mercado doméstico.

Com o avanço da colheita da safra 2021/22 e a aproximação do fim do inverno brasileiro, as atenções do mercado passam a se voltar para o potencial produtivo da safra 2022/23, que será um ano com bienalidade positiva. Além das questões ligadas ao clima, o potencial produtivo em 2022/23 também depende do nível de tratamento das lavouras, incluindo a etapa de fertilização. Devido ao ciclo da cultura, no segundo semestre do ano ocorre o maior volume das adubações das lavouras no Brasil, o que torna este aspecto fundamental para entender o potencial para 2022/23.

Participação de fertilizantes nos custos avançam, mas
diferenciais receita-custo do produtor têm crescido

A aplicação de fertilizantes é uma importante técnica utilizada nos cafezais como alternativa de elevar a produtividade das lavouras. Mesmo que a adição dos nutrientes no solo contribua diretamente para produtividade das safras de café, elevando a rentabilidade do produtor, o consumo dos fertilizantes também tende a elevar as despesas dos cafeicultores.

Participação dos custos com fertilizantes nas despesas totais das
lavouras de café

Fonte: Conab. Elaboração: StoneX.

Os fertilizantes também possuem expressiva contribuição na estrutura de custos dos produtores de café. De acordo com um estudo realizado pela Conab entre os anos de 2008 e 2017, os produtos ocuparam uma parcela de em média 18,5% das despesas operacionais do período. Nos últimos anos, esta participação subiu a médias ainda mais elevada no custo das lavouras, atingindo patamares acima de 20,0%. É importante destacar que esta participação não se deve a uma maior utilização dos adubos nas lavouras, mas principalmente aos preços significativamente mais elevados dos fertilizantes de forma geral desde meados de 2020. No último levantamento realizado pela Conab nas regiões produtoras café, em março de 2021, importantes referências como Guaxupé (Sul de Minas) e Manhuaçu (Matas de Minas), por exemplo, apontaram para uma presença de 26,0% e 22,9%, respectivamente, dos fertilizantes nos custos de suas lavouras.

Entretanto, ao analisarmos o custo total de produção por saca até março deste ano, e o preço médio da saca comercializada nas respectivas regiões no mesmo período, é possível observar um aumento dos diferenciais receita-custo, indicando uma melhora da rentabilidade da cultura cafeeira de forma geral. Isso ocorre pelo fato de os avanços dos preços do café terem ocorrido de forma mais significativa neste período frente aos custos com fertilizantes, maquinário, mão de obra, entre outros.

Evolução do diferencial receita-custo médio na cultura cafeeira (R$/saca)

Fonte: Conab, StoneX. Elaboração: StoneX.. *Dados até março.

Nos últimos meses foi observado um cenário de significativa elevação dos preços de grande parte dos componentes da estrutura de custos aos produtores de café, em função do contexto da conjuntura brasileira de forte pressão inflacionária. Apesar de as recentes geadas terem impulsionados os preços domésticos de café à níveis recordes, garantindo forte poder de compra aos produtores que não foram afetados, alguns produtos, como os fertilizantes, costumam ser adquiridos pelos agricultores de forma diluída ao longo do ano. Desta forma, é necessário analisar não só a dinâmica entre o mercado de café e fertilizantes atualmente, mas como esta relação se deu ao longo dos 7 primeiros meses do ano, e o que esperar para os próximos meses, a fim de compreender como os produtores podem ter se posicionado para a aquisição dos adubos neste período, e como isso pode impactar o potencial produtivo para a próxima temporada.

Os impactos da dinâmica do mercado de fertilizantes na atividade cafeeira

Segundo os últimos dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), em 2019, estima-se que 4,7% das entregas brasileiras de fertilizantes (cerca de 1,6 milhões de toneladas) foram destinadas aos cafezais, atrás apenas da soja, milho, cana-de-açúcar e algodão.

Entrega de fertilizantes por cultura no Brasil em 2019

Fonte: ANDA/Siacesp. Elaboração: StoneX.

Com uma produção interna pequena, o Brasil é majoritariamente importador de fertilizantes e um dos principais consumidores do mundo. Em 2020, o volume entregue de fertilizantes aos agricultores brasileiros superou 40,5 milhões de toneladas, o maior volume anual já registrado no país. Ainda, o volume de fertilizantes importados no Brasil até o final do primeiro semestre de 2021 superou o 1º semestre de 2020 em 11%, prometendo volumes entregues ainda maiores neste ano.

Nos últimos meses, entre outros fatores, a forte valorização dos preços dos grãos incentivou o crescimento do consumo de fertilizantes em todo o mundo, justificado por relações de troca favoráveis aos agricultores na comparação com a maior parte das culturas. Assim, o panorama global do mercado de fertilizantes vem refletindo a crescente incapacidade da oferta em acompanhar as compras dos principais países consumidores, resultando em escassez de insumos em algumas regiões e preços crescentes às máximas em anos para os principais nutrientes.

No Brasil, o cenário de preços internacionais crescentes ainda se soma à importante desvalorização cambial registrada nos últimos meses, para resultar em cotações de fertilizantes significativamente mais elevadas que há um ano. Considerando o complexo NPK consumido nos cafezais, a tabela a seguir traça uma estimativa do preço pago por cada nutriente nas principais praças cafeeiras na primeira semana de agosto deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. As cotações dos fosfatados e potássicos mais que dobraram no período, enquanto a ureia cresceu cerca de 80%.

Estimativa de preço da Ureia, MAP e KCl nas principais regiões cafeeiras do Brasil (ago/2021 x ago/2020)

Fonte: StoneX. ** Origem Santos. *** Origem Vitória

Apesar da significativa valorização nos últimos meses, as relações de troca dos nutrientes com soja e milho permaneceram favoráveis aos agricultores durante boa parte do primeiro semestre, o que acabou incentivando o forte volume de compras no período, e resultando nos elevados volumes entregues nos portos brasileiros até o momento. Para o café, as cotações do grão não conseguiram acompanhar o mesmo ritmo da alta dos fertilizantes neste ano, o que acabou depreciando as relações de troca para níveis historicamente elevados.

Relação de troca entre o café arábica C (ICE/NY) e os adubos (sacas/t)

Fonte: Stonex.

Desde meados de julho, no entanto, observou-se uma disparada dos preços do café no físico e na bolsa, após o registro de geadas nas áreas produtoras brasileiras, culminando em um potencial elevado índice de perdas nos cafezais. No mesmo período, as cotações dos principais fertilizantes começaram a sinalizar uma desaceleração dos preços, diante da estagnação da demanda no hemisfério norte e aos já fortes volumes adquiridos pela demanda brasileira.

Ainda que ligeiramente mais fracos no início do segundo semestre, espera-se que os preços globais dos fertilizantes realmente comecem perder força apenas após a finalização do consumo brasileiro para a safra verão, no final do terceiro trimestre. Ainda assim, o fortalecimento da demanda americana deverá entrar no mercado para sustentar as cotações, já pensando nas compras de primavera, a partir do final do ano.

Portanto, mesmo com um cenário de relações de troca desfavoráveis à demanda dos cafeicultores e um quadro de perdas produtivas originadas pelas geadas no período do inverno, os elevados preços observados no mercado doméstico e o aumento dos diferenciais receita-custo deverão justificar a manutenção dos níveis de adubação nas lavouras que não foram impactadas pelos eventos climáticos. No entanto, vale destacar que o fator climático nos próximos meses ainda pode impactar negativamente neste aspecto, caso ocorra o atraso das chuvas no segundo semestre, tendo em vista a dependência das aplicações de fertilizantes nos cafezais após o período de chuvas e os volumes observados abaixo da média histórica neste ano.

 

Leonardo Rossetti

Formado em Ciências Econômicas pela UNICAMP, trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, atuando nas análises sobre os mercados de café, cacau, câmbio e macroeconomia.
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