João Lopes

João Lopes

Graduado em Ciências Econômicas pela UNICAMP. Integra o time da Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil desde 2019 nos mercados de Grãos e Pecuária.

Atraso no plantio de soja gera receios em relação às segundas safras de milho e algodão no Mato Grosso

Produtores podem substituir algodão por milho safrinha, mas rendimento do grão ainda preocupa

Com a chegada dos meses finais de 2020, as atenções se voltam cada vez mais para as questões climáticas e seus possíveis impactos sobre a safra 2020/21 de grãos no Brasil. Durante o inverno, entre junho e agosto, a maior parte do território nacional, principalmente a região Centro-Oeste, enfrenta um período marcado pela acentuada escassez de chuvas. Assim, é necessária a ocorrência de precipitações para garantir uma umidade mínima do solo que permita o plantio e o desenvolvimento inicial das sementes das culturas de verão, com destaque para a soja.

Brasil | Precipitação acumulada entre agosto e outubro (mm)

Fonte: INMET.

Em Mato Grosso, principal produtor nacional de grãos e algodão, as chuvas começam a ocorrer com maior intensidade, geralmente, a partir da segunda quinzena de setembro. Contudo, neste ano, a estiagem perdurou até a segunda semana de outubro, resultando em um atraso no plantio da soja no estado. Até o último dia 16, segundo dados do IMEA, cerca de 8,2% da safra do grão havia sido semeada. No mesmo período de 2018 e 2019, quando as precipitações ocorreram mais cedo e com maior regularidade, o plantio havia atingido, respectivamente, 41,8% e 50,95%.

Contudo, é importante destacar que, no caso da soja, os produtores têm a capacidade de progredir rapidamente com os trabalhos no campo. Portanto, com a chegada de precipitações mais volumosas, o plantio tende a avançar rapidamente, como ocorreu no final deste mês de outubro. Nas últimas semanas, ainda que de maneira irregular, as chuvas voltaram a cair com maior intensidade no Mato Grosso, o que possibilitou uma considerável redução no atraso na semeadura da oleaginosa. Segundo estimativa da StoneX, a semeadura da soja chegou a 61% no estado nesta sexta-feira (30). Assim, a safra 2020/21 de soja não é motivo de grande preocupação, visto que, caso não ocorram complicações climáticas durante o desenvolvimento das lavouras, a produção do grão não deverá sofrer grandes impactos e tampouco deve influenciar o consumo dos adubos do complexo P e K, visto a perspectiva de avanço das aplicações nas lavouras da oleaginosa em 2020.

Mato Grosso | Evolução do plantio de soja

Fonte: IMEA e StoneX.

Por outro lado, a concentração do plantio de soja entre o final de outubro e o início de novembro resultará em um estreitamento da janela de colheita do grão. Assim, a maior parte da oleaginosa será colhida em fevereiro, exigindo que o trabalho no campo ocorra rapidamente, de modo que as culturas plantadas em sequência – algodão e milho no caso de Mato Grosso – possam pegar a janela ideal de semeadura, considerando necessidade de preparo do solo com fertilizantes antes do recebimento das sementes.

Em vista disso, as preocupações em relação ao clima em fevereiro já passam a ganhar força no mercado, uma vez que um excesso de chuva pode fazer o produtor postergar a colheita, gerando mais atrasos para o plantio do milho e algodão safrinha no estado.

Possíveis impactos sobre as safras de inverno e estoques de fertilizantes

Considerando as janelas de plantio e a necessidade da reposição de nutrientes do complexo P e K, mais consumidas pela oleaginosa, ambas as culturas de inverno subsequentes apresentam maiores necessidades fisiológicas por moléculas de nitrogenados, que precisam de umidade do solo adequada para serem absorvidas, devido a sua alta volatilidade. Ademais, o atraso do início nos trabalhos em campo também pode resultar em maiores estoques domésticos de fertilizantes na passagem de 2020 para 2021, influenciando na curva sazonal das importações no primeiro trimestre, resultando em uma delonga no retorno do Brasil ao mercado internacional.

Em geral, a semeadura do algodão se dá a partir da segunda quinzena de dezembro nas principais regiões cotonicultoras. Se aproveitada esta janela, o desenvolvimento da fibra ocorrerá dentro do período de chuvas na região, favorecendo seu amadurecimento e posterior colheita durante a estação de seca. Caso seja comprovada a impossibilidade do plantio no intervalo ideal, duas possibilidades distintas emergem.

A primeira delas consiste na manutenção da área plantada planejada do algodão safrinha, ainda que fora de sua janela. Neste caso, as condições climáticas mais distantes do ideal tendem a impactar o nível de produtividade da segunda safra – que se destaca como a principal –, considerando que os algodoeiros podem receber volume de chuvas aquém do ideal nas etapas finais de desenvolvimento reprodutivo. De tal modo, a remuneração e as margens esperadas pelos cotonicultores são um fator chave na tomada de decisão do agricultor no 4º trimestre. Por um lado, a necessidade de aplicação de menores volumes de nitrogenados durante o plantio do algodão safrinha impacta positivamente os custos de produção – isto pois a cultura se aproveita dos resíduos de N deixados no solo pela soja colhida anteriormente. Relembrando que a cotonicultura representa cerca de 5% do consumo nacional de fertilizantes no Brasil.

Dada a competição entre o milho e o algodão, o segundo cenário se constitui justamente na migração do cultivo da pluma para o grão. Com a finalidade de compreender o porquê dessa possível substituição e os impactos sobre o consumo de fertilizantes, deve-se realizar uma comparação entre fundamentos relacionados a ambas as culturas.

O primeiro deles se refere ao nível de comercialização das lavouras. Segundo levantamento do IMEA, até 30/set, 43,9% da safra 2020/21 da pluma havia sido comercializada no Mato Grosso. No mesmo período de 2019, a comercialização da safra 19/20 era de 50,53%. Em relação ao milho, 57% da safra 2020/21 mato-grossense havia sido comercializada até o final do mês passado, enquanto no mesmo período do ano anterior, 38% da safra 2019/20 havia sido negociada, de acordo com dados da StoneX – para acessar o acompanhamento completo do grão, clique aqui.

Desse modo, pode-se observar um aumento do apetite de compra pelo milho, com os estoques de passagem da safra 2019/20 estimados em 10,4 milhões de toneladas pela Conab. Tanto a demanda doméstica como a internacional pelo grão brasileiro vêm aumentando nos últimos anos, exigindo aquisições cada vez mais antecipadas por parte dos compradores. Por outro lado, em 2020, o consumo de algodão foi intensamente impactado pela queda na atividade têxtil nacional e nos principais polos internacionais, em função da crise causada pela pandemia da COVID-19. Os estoques finais da safra 2019/20 brasileira da fibra natural estão estimados em 2 milhões de toneladas, um recorde para o país.

Mato Grosso | Comercialização do algodão

Fonte: IMEA.

Mato Grosso | Comercialização do milho safrinha

Fonte: StoneX.

Outra questão relevante, atrelada aos fatores tratados no parágrafo anterior, é a evolução dos preços. Entre o início do ano e o final deste mês, as cotações do milho em Mato Grosso, de acordo com o IMEA, avançaram cerca de 95%, enquanto o de algodão valorizou aproximadamente 59%. Além disso é relevante ressaltar que, em função da necessidade de importação de cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no mercado doméstico, os custos de produção das culturas brasileiras são mais vulneráveis às flutuações da taxa de câmbio. Desse modo, o processo de desvalorização cambial enfrentado pelo real em 2020 também contribuiu para a maior atratividade do milho, em detrimento do algodão, considerando uma valorização mais acentuada dos preços físicos.

Mato Grosso | Preços físico de milho (R$/sc) e algodão (R$/@)

Fonte: IMEA e StoneX.

No tocante ao desenvolvimento das culturas, tem-se outro ponto favorável ao milho. O ciclo do grão dura entre 90 e 110 dias, enquanto o algodão leva de 120 a 150 dias para se desenvolver. Neste sentido, o risco do plantio do milho é menor, visto que sua semeadura e desenvolvimento terão maior chance de ocorrer no período adequado. Contudo, se por um lado a safrinha de milho pode se beneficiar de áreas adicionais, por outro, a produtividade do ciclo 2020/21 é motivo de grande preocupação.

Como já dito, o intervalo mais estreito para a colheita da soja poderá fazer com que a maior parte do milho precise ser plantada nos últimos 15 ou 10 dias de fevereiro, a fim de aproveitar a janela ideal. Assim, existe uma considerável possibilidade de que o plantio do grão atrase, o que pode vir a impactar seu rendimento. Atualmente, a Conab estima a produtividade da safrinha em 6,4 t/ha, em linha com o obtido nas safras 19/20, 18/19 e 16/17, temporadas caracterizadas por chuvas regulares e trabalhos no campo dentro da janela ideal.

Nas safras de 2017/18 e 2015/16, quando o Mato Grosso enfrentou a escassez de chuvas e o atraso no plantio, os rendimentos foram de, respectivamente 5,9 t/ha e 4,0 t/ha. Contudo, vale ressaltar que, nessas duas ocasiões, a seca e o atraso foram menos intensas do que as observadas neste ano, o que liga o sinal de alerta para os possíveis danos à produtividade do milho no estado.

 

Este texto teve a colaboração de Felipe Vezquez e Gabriela Fontanari, membros da equipe de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil.

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