Matheus Costa

Matheus Costa

Formado em Engenharia Agronômica pela UFSCar. Trabalha na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2017 na área de Açúcar e Etanol.

Perspectivas para o diferencial Londres-NY são majoritariamente altistas

Impactos sobre mercado brasileiro devem ser diferentes para produtores e para consumidores

Ao longo dos últimos meses, o diferencial Londres-Nova Iorque manteve, em grande parte, trajetória de baixa. Desde o início de janeiro, o prêmio do branco – como é comumente conhecido – recuou 18,4% e atingiu US$ 53,69/t nesta sexta-feira (08). As perspectivas para os próximos meses, por outro lado, sugerem que este indicador pode ter comportamento majoritariamente altista, uma vez que o balanço global entre oferta e demanda do açúcar refinado tende a se estreitar.

A União Europeia desempenha papel importante neste contexto, uma vez que, por conta da menor produção em 2018/19 (out-set), as exportações de açúcar pelo bloco podem se manter menores nos próximos meses. No acumulado do ciclo atual até dezembro, as vendas de adoçante refinado a outros países totalizaram 617 mil toneladas, volume que representa retração de 39,0% ante a 2017/18.

Sob a ótica de médio e longo prazo, a área semeada com beterraba para a próxima safra pode sofrer nova redução, uma vez que outras culturas – como o trigo, por exemplo – têm proporcionado maior retorno econômico ante ao açúcar. Para análise mais aprofundada sobre o tema, clique aqui.

A Tailândia também deve ser determinante. Em meio às perspectivas de redução da produção de açúcar na safra 2018/19 no país, estimada em 14,0 milhões de toneladas (-7,0%) pela INTL FCStone, o açúcar branco deve registrar menor representatividade na fabricação total do produto. O acompanhamento de safra mais recente, referente ao acumulado até a terça-feira (05), mostrou que a variedade supracitada obteve participação de 21,4%, retração de 3,1 pontos percentuais no comparativo anual. Com isso, a exportação de branco pelos tailandeses deve ser mais afetada em relação ao equivalente bruto.

E como essas perspectivas se refletem no mercado brasileiro?

As perspectivas altistas para o prêmio do branco devem impactar o mercado doméstico brasileiro. Destaca-se, no entanto, que os efeitos serão diferentes para as duas pontas da cadeia do açúcar.

Para os produtores, a concretização do cenário discutido anteriormente pode proporcionar diversas oportunidades. Usualmente, o prêmio do branco é tido como importante parâmetro usado por refinarias para avaliar a margem de transformação do açúcar bruto em refinado. Isso significa que a demanda destas empresas por VHP pode crescer ao longo dos próximos meses em meio à alta do indicador supracitado.

Desta forma, é possível que usinas do Centro-Sul ampliem ainda mais as exportações de açúcar bruto para países com grande capacidade de refino. Neste sentido, é preciso lembrar que o Brasil expandiu os negócios com Argélia¹ e Arábia Saudita¹, por exemplo, cujas vendas totalizaram 2.293,9 mil toneladas (+3,6%) e 1.427,2 mil toneladas (2,2%) em 2018, respectivamente.

Ademais, produtores brasileiros podem encontrar ambiente favorável para aumentar a produção de Cristal ou refinado – especialmente em meio às perspectivas de crescimento do mix açucareiro de 2019/20 (abr-mar). Ou seja, parte significativa do aumento na produção pode ser dar com açúcar branco, não bruto.

Na safra que se encerra, por conta do maior foco na destilação de etanol, o mercado doméstico tem observado menor disponibilidade de açúcar – contexto que é corroborado pelos menores níveis dos estoques do adoçante. Com isso, o indicador do Cepea/Esalq para o Cristal 150, que tem mantido trajetória de alta, pode continuar se fortalecendo – o que sustenta, também, seu diferencial em relação ao açúcar #11. Na média preliminar de fevereiro, por exemplo, a margem entre os dois produtos atingiu US$ 97,8/t, valor que representa crescimento de US$ 62,7/t em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para os consumidores, o contexto analisado ao longo desta matéria pode não ser tão positivo. O aumento das exportações brasileiras de açúcar bruto para polos de refino pode fazer com que o balanço interno de O&D permaneça relativamente estreito na próxima safra.

Ademais, espera-se que a possibilidade de maior produção de açúcar branco não proporcione alívio à disponibilidade doméstica. Isso porque o crescimento do prêmio do branco no mercado internacional tende a fortalecer o basis do Cristal 150 nos portos brasileiros, estimulando usinas a entregarem seu produto para exportação.

De forma geral, ambos cenários sugerem que os preços do açúcar praticados no mercado brasileiro tendem a se elevar, uma vez que, mesmo em meio ao possível crescimento da produção em 2019/20, os estoques podem se manter pressionados. Com isso, é possível que as empresas consumidoras observem alta nos custos de aquisição do adoçante.

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