Matheus Costa

Matheus Costa

Formado em Engenharia Agronômica pela UFSCar. Trabalha na Inteligência de Mercado da INTL FCStone do Brasil desde 2017 na área de Açúcar e Etanol.

Impacto do clima sobre beterraba nos EUA pode se estender para 2020/21

A beterraba tem sido um dos destaques nos Estados Unidos ao longo das últimas semanas, uma vez que as condições climáticas desfavoráveis impactaram a fase final de desenvolvimento e a colheita da cultura. Em meio ao elevado volume de neve acumulado desde o início de outubro, especialmente em relação ao mesmo período do ano anterior, as temperaturas ficaram muito aquém da normalidade no respectivo mês e ao longo de grande parte de novembro.

Neve acumulada*  nos EUA desde o início de outubro até 27 de novembro (em metros)

*Áreas de produção de beterraba estão sombreadas. Fonte: NOAA. Elaboração: INTL FCStone.

Tanto que produtores de Minnesota e da Dakota do Norte, estados que correspondem a quase 50% da área cultivada, sinalizaram que lavouras nas quais o tubérculo não havia sido colhido foram impactadas e não deverão ser colhidas. Neste sentido, estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês), referente à situação dos campos em 1º de novembro, apontaram para queda anual significativa nas áreas destinadas à colheita nas duas regiões citadas, para 135 mil hectares (-17,9%) e 60,3 mil hectares (-25,1%), respectivamente.

No entanto, considerando que as temperaturas congelantes continuaram impactando os dois estados até a 3ª semana de novembro, é possível que não somente a área colhida possa ser menor, mas também a produtividade. Tanto que na publicação acima, o USDA estimou que Minnesota e Dakota do Norte registrariam as respectivas produtividades de 65,5 t/ha (+3,1%) e 69,4 t/ha (-2,4%) – rendimentos que podem recuar de forma significativa nas próximas divulgações.

Mesmo com os efeitos sobre o balanço de O&D do setor açucareiro americano em 2019/20 (out-set) e sobre o tradeflow regional e global da commodity, conforme analisado pela INTL FCStone em diversos relatórios, a conjuntura climática atual precisa ser considerada sob ótica do plantio da beterraba na primavera de 2020.

Temperatura no Meio Oeste dos Estados Unidos (em ºC, desvio em relação à média histórica)

Fonte: NOAA. Elaboração: INTL FCStone

É preciso notar que em meio ao elevado volume de neve acumulado nas últimas semanas, a umidade das camadas superficiais (0-20 cm) e subsuperficiais do solo (20-40 cm) nas duas regiões analisadas ao fim da primeira quinzena de novembro está muito elevada, superando a média histórica em mais de 200%. No curto prazo as previsões do NOAA/Star apontam para a probabilidade elevada de que as precipitações permaneçam acima da normalidade no Meio-Oeste americano.

Quando se analisa a época de primavera, compreendida entre fim de março e fim de junho e que é caracterizada pelo período de plantio da beterraba, as expectativas para a maior umidade frente à normalidade persistem. Ademais, a projeção é de que as temperaturas na época analisada se posicionem abaixo do usual para o período. Em termos práticos, como a concretização dessas perspectivas pode afetar a implementação do tubérculo nas lavouras e seu desenvolvimento inicial?

Para cultivos comerciais visando a extração de açúcar, umidade excessiva durante as fases iniciais de crescimento da beterraba pode levar ao atraso no desenvolvimento das folhas – essenciais para garantir crescimento vegetativo pleno, especialmente no período de fechamento das fileiras durante o verão.

A literatura aponta que os termômetros, por sua vez, precisam se posicionar entre 5ºC e 10ºC para garantir taxas de germinação e desenvolvimento ideias. Neste sentido a projeção de frio mais acentuado em relação à normalidade no Meio-Oeste dos EUA pode ser prejudicial, visto que as temperaturas médias na região costumam se posicionar entre 4ºC e 7ºC durante o início da primavera.

Umidade do solo nos EUA em 15 de novembro de 2019 (desvio ante à média)

Fonte: FAS/USDA. Elaboração: INTL FCStone

Projeção climática para meses compreendidos entre março e maio/2020 (% de chance de concretização)

Fonte: NOAA. Elaboração: INTL FCStone.

Balanço de O&D e risco agroclimático

O relatório de oferta e demanda divulgado pelo USDA em novembro, este que ainda não havia considerado de forma integral o cenário apresentado na seção anterior, mostrou que a relação estoque uso poderia recuar para 10,5% ao fim da temporada 2019/20 (out-set) – caso se consolide, esse seria o menor desde que a série histórica começou a ser computada, em 2000/01.

Conforme discutido anteriormente pela INTL FCStone, um senador dos Estados Unidos pediu cautela ao USDA em relação às possíveis medidas a serem tomadas, como por exemplo permitir a maior entrada de produto internacional, argumentando que os estoques atuais são suficientes para suprir o consumo doméstico ao longo da temporada.

Pondera-se, contudo, que se os Estados Unidos não ampliarem suas compras internacionais, utilizando o volume armazenado para atender a demanda – e pressionando a relação estoque/uso – o risco agroclimático sobre o cultivo da beterraba em 2020 se elevará. Desta forma, se as condições menos favoráveis de fato impactarem a semeadura e desenvolvimento inicial da beterraba no próximo ano, o aperto no balanço de O&D seria ainda maior.

 

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