João Botelho

João Botelho

Economista, com graduação na UNICAMP e especialização em Finanças Corporativas pela mesma Universidade. É Especialista em Inteligência de Mercado na INTL FCStone, com foco em açúcar e biocombustíveis.

INTL FCStone visita administradora de usinas de açúcar na Tailândia

Após dar quase meia volta ao mundo nos dois dias anteriores, o primeiro dia da viagem à Tailândia tinha apenas um item na agenda: reunião no escritório da Kaset Thai Sugar Industry (KTIS). Fomos recebidos pelo gerente geral (COO) de etanol da companhia, pela supervisora de  planejamento e desenvolvimento de negócios e pelo gerente sênior da área de açúcar.

João Paulo Botelho, Analista de Inteligência de Mercado da INTL FCStone,
e COO de etanol da Kaset Thai Sugar Industry

A KTIS é um grupo que administra três usinas de açúcar no país, com capacidade de moagem combinada de 88 mil toneladas de cana por dia, o que  faz deste o terceiro maior grupo da Tailândia. Além disso, a empresa é uma das principais produtoras de etanol e de bioeletricidade do país.

Entre os tópicos discutidos na reunião, posso destacar a situação do mercado tailandês de etanol. A produção vem crescendo ano-a-ano na última década, em grande parte devido ao melaço excedente da produção de açúcar no país, que também cresceu de forma vertiginosa. Essa dependência é resultado de que legislação local impedia a produção de etanol a partir do caldo da cana, apenas podendo ser utilizados os melaços C, que são subprodutos de açúcar.

Existe hoje apenas uma planta, de pequeno porte, que produz açúcar diretamente a partir do caldo da cana. E isso apenas porque esta está localizada em região na qual a condição do solo impede que produtos agrícolas sejam destinados ao consumo humano. A primeira destilaria de grande porte a  usar esta matéria-prima está sendo construída pela própria KTIS, em parceria com empresa petroquímica, projeto este que só se tornou possível  através de alteração na regulação do setor, aprovada no ano passado.

Muitas outras particularidades do mercado tailandês de etanol foram discutidas na reunião, como a competição das destilarias do biocombustível com o setor de bebidas para o consumo do melaço produzido pelas fábricas de açúcar. Algumas destilarias, entretanto, contam com a alternativa de usar o amido de mandioca como matéria-prima, sendo que quatro empresas (com 14% da capacidade instalada) possuem flexibilidade para operar com ambos insumos. Desta forma, os mercados de mandioca e de etanol no país estão fortemente entrelaçados.

Os mercados de açúcar de mandioca ainda estão relacionados por mais uma questão: troca de área. Segundo os executivos da KTIS, parte significativa dos fornecedores de cana mostraram interesse em plantar mandioca na área que seria renovada. O motivo para esta mudança são os baixos preços internacionais do açúcar, e seu reflexo sobre os preços da cana, que estariam até 30% abaixo do custo de produção. Além disso, o mercado de mandioca vem oferecendo preços elevados devido à forte procura pelo amido no mercado externo, e os custos de produção nesta cultura são menores que os da cana.

Por outro lado, os mesmos executivos indicaram que estes agricultores poderiam voltar rapidamente a plantar cana-de-açúcar se os preços reagirem, tornando a produção tailandesa mais responsiva às cotações internacionais do açúcar. Além disso, assim como ocorre no Brasil, grande parte dos fornecedores não deve trocar de cultura em meio às baixas margens oferecidas pela cana, mas devem reduzir o investimento na lavoura e a taxa de renovação, o que pode ter impacto de alta nos custos de produção nos próximos anos, ao diminuir a produtividade média.

Outro fator aumentando o custo da cana é o aumento do gasto com a colheita – que é majoritariamente manual no país – em meio à redução na disponibilidade de mão-de-obra imigrante do Camboja, país que passa por rápida industrialização. Para reduzir este problema algumas usinas têm incentivado a mecanização da colheita, mas esta mudança é dificultada pela pequena área dos fornecedores, que normalmente varia de 8 a 16 hectares.

Considerando este cenário de baixos preços e elevados custos, a indústria pisou o pé no freio dos investimentos. Após muitos anos de crescimento acelerado, investidores externos não estão mostrando interesse em entrar no setor e as próprias usinas vem atrasando o início ou a conclusão de projetos que, em alguns casos, já tinham até as licenças necessárias para começar a operar.

Estes tópicos, obviamente não foram os únicos a serem discutidos, também se falou sobre a segmentação do mercado tailandês de combustíveis, do apoio do governo e de montadoras a misturas maiores de etanol, logística do açúcar no país, precificação da cana, do açúcar, dos melaços e do etanol, cogeração de energia elétrica, entre tantos outros que não cabem neste espaço.

Ao final da reunião, apresentei as perspectivas da INTL FCStone para os mercados de açúcar e de etanol no Brasil, com grande destaque para as novidades no setor. Amanhã, o dia será de mais reuniões: a primeira com o diretor-geral da Thai Sugar Millers Corporation (TSMC), a segunda com o chefe de política e planejamento do Escritório do Conselho para a Cana e o Açúcar (OCSB), do governo da Tailândia.

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