Rafaela Souza

Rafaela Souza

Graduada em Ciências Econômicas pela UNICAMP com passagem pela Berlin School of Economics and Law . Trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, com foco na área de açúcar e etanol.
Este texto teve a colaboração de Marina Malzoni, Natalia Silva e Vitor Andrioli.

Conjuntura macroeconômica e perspectivas para o consumo de combustíveis

Licenciamento de veículos diminuiu em 2020 e reforça queda no consumo de combustíveis do Ciclo Otto

Não é novidade que o ano de 2020 foi marcado por firme retração econômica, em meio à pandemia do novo coronavírus no Brasil e no mundo. Como não poderia deixar de ser, essa dinâmica pesou sobre o setor automobilístico doméstico – o que se refletiu, evidentemente, em menor procura por combustíveis.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), responsável pela divulgação de estatísticas mensais e acumuladas da indústria automobilística brasileira, 232,9 mil novos automóveis foram licenciados em dezembro/20, aumento mensal de 8,6%, mas queda anual de 7,6%. Ainda que o licenciamento continue abaixo do observado no ano anterior, vale notar que vem se recuperando desde abril/20, quando alcançou o menor valor para a série histórica desde 2012, de 51,4 mil novos automóveis vendidos.

Com isso, no acumulado do ano, o licenciamento de novos veículos totalizou 1,9 milhão de unidades, diminuição de 26,7% em relação à 2019, além de queda de 19,9% frente à média de três anos. É interessante notar que essa foi a primeira retração observada no licenciamento anual desde 2016, período que também foi marcado por forte recessão econômica.

Mobilidade dirigindo no Brasil (base 100 = 13/01/2020)

Fonte: Anfavea. Elaboração: StoneX.

Especificamente, a categoria de carros flex-fuel foi a mais afetada, sendo que a diminuição no licenciamento de novos veículos ocorreu na ordem de 28,5%, para 1,6 milhão de unidades. Ainda que em menor medida, as vendas de automóveis movidos exclusivamente a gasolina também sofreram retração, para 58,9 mil unidades (-20,2%).

Vale notar, inclusive, que a participação dos veículos flex-fuel no licenciamento de novos automóveis em 2020 diminuiu 2,2 pontos percentuais, para 85,2% do total. Em paralelo, os veículos movidos exclusivamente a gasolina representaram avanço anual de 0,2 p.p., para 3,0%.

Por fim, observa-se que o licenciamento de veículos movidos a diesel alcançou 211,1 unidades, diminuição anual de 66,5%. Os carros elétricos, por sua vez, continuaram apresentando crescimento no licenciamento, mas este se deu em menor proporção frente aos anos anteriores. Entre 2018 e 2019, por exemplo, o aumento nas vendas desses automóveis foi de 198,7%, ao passo que, em 2020, essa proporção foi de 66,5%, para 19,7 mil unidades.

Por mais que a divulgação da Anfavea considere apenas veículos novos que entraram na frota brasileira em 2020, destaca-se que a revenda de seminovos e usados também diminuiu no último ano – fator adicional de pressão sobre o consumo de combustíveis. De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), a reinserção desses carros e comerciais leves à frota brasileira totalizou 1,9 milhão de unidades em 2020, queda de 26,6% em relação ao ano anterior.

Mobilidade dirigindo no Brasil (base 100 = 13/01/2020)

Fonte: Apple. Elaboração: StoneX.

Tal como anteriormente mencionado, a diminuição na venda de automóveis e, consequentemente, na demanda por combustíveis do Ciclo Otto, parece ser resultado do desaquecimento da atividade econômica no Brasil no último ano. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) acumulado até o 3º trimestre apresentou retração anual de 3,4%. Dentre todos os setores da economia, apenas o agronegócio observou elevação do indicador. Para 2020, economistas consultados pelo Boletim Focus, do Banco Central, estimam que o PIB brasileiro tenha queda acumulada de cerca de 4,4%.

Para além disso, os impactos da pandemia da COVID-19 sobre a atividade econômica levaram ao aumento do número de pessoas consideradas desocupadas no último ano, para 14,3% no trimestre encerrado em outubro de 2020, com consequente diminuição da renda em circulação. Atualmente, 14,1 milhões de pessoas encontram-se desocupadas, 1,7 milhão de pessoas a mais no comparativo com o mesmo período de 2019. Com o mercado de trabalho deprimido, a massa salarial também se contraiu significativamente, sendo 5,3% menor do que o observado em outubro do ano anterior.

Ainda assim, é importante ponderar os efeitos do auxílio emergencial em 2020, que se mostrou essencial para a preservação da renda e, portanto, do consumo das famílias, viabilizando a trajetória de recuperação da economia. Ademais, o auxílio também foi importante para a complementação da renda de trabalhadores informais, incluindo motoristas e entregadores por aplicativo, ajudando a compensar os próprios custos destas atividades. Dessa forma, em última instância, o benefício colaborou para que a perda de empregos e do dinamismo do setor automobilístico não fosse maior.

Taxa de desocupação média da população brasileira

*Considera o período entre janeiro e outubro. Fonte: IBGE. Elaboração: StoneX.

Em 2021, contudo, o fim do auxílio, em um cenário em que a campanha de vacinação nacional é lenta, pode pressionar de forma significativa a retomada da atividade econômica. Segundo o último boletim Focus, os economistas consultados projetam que o PIB brasileiro deve crescer aproximadamente 3,4% no ano corrente – porém, esses valores podem ser revistos ao longo dos próximos meses, a depender da continuidade e intensidade da pandemia.

É preciso destacar, ainda, que no caso do setor automobilístico, as medidas de distanciamento social, que se deram a partir de menor circulação de veículos e pessoas, pesaram diretamente sobre as vendas e licenciamento de automóveis. Apesar disso, dados da Apple mostram que a mobilidade “dirigindo” se recuperou desde o final do ano passado, posicionando-se 7,0 pontos percentuais acima de janeiro/20 na última quinta-feira (14).

No mais, ressalta-se que o acesso ao crédito para a compra de veículos também diminuiu no auge da pandemia em 2020, fator determinante para a queda recente no número de licenciamentos. Observa-se, por exemplo, que o crédito para pessoas física e jurídica em abril/20 se posicionou 55,8% e 53,5% abaixo do ano anterior, respectivamente. Apesar disso, a concessão de crédito para pessoa física voltou a aumentar a partir de meados do último ano, ultrapassando 2019 desde setembro/20.

Impactos – ainda que preliminares – sobre o Ciclo Otto

Em 2020, a queda expressiva no número de licenciamentos, bem como revenda de seminovos e usados, desestimulou o consumo de combustíveis do Ciclo Otto – este que totalizou 44.211,5 mil m³ no acumulado de janeiro a novembro, queda de 9,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

Sob a ótica do etanol, a paridade desfavorável em relação à gasolina, que atingiu média de 70,5% no Brasil em 2020, pressionou a procura por hidratado, fazendo com que a demanda se posicionasse no menor patamar desde 2017, para 12,1 milhão de m³ de gasolina-equivalente no acumulado entre janeiro/20 e novembro/20. Esse volume, por sua vez, é 15,1% inferior ao mesmo período de 2019. Consequentemente, a participação dessa variedade no Ciclo Otto alcançou média de 27,4% no período analisado, posicionando-se 1,8 ponto percentual abaixo da mesma época do ano anterior.

Participação do hidratado no consumo de C.O. (jan-nov)

Fonte: ANP. Elaboração: StoneX.

Perspectivas para 2021

O processo de retomada econômica em 2021 dependerá ,em grande medida, do sucesso da campanha de vacinação contra o novo coronavírus no país. A velocidade de distribuição e aplicação do imunizante e a amplitude da taxa de vacinação serão determinantes do tempo para a normalização de atividades e para a suspensão das restrições que têm sido readotadas devido ao crescimento no número de casos da COVID-19 após as festas de fim de ano.

Como fatores de risco para a recuperação e normalização da economia, merecem destaque a politização da vacinação, que pode afetar negativamente a disposição das pessoas para se vacinarem, e a ausência de uma política de renda em substituição ao auxílio emergencial a partir de janeiro. O suporte à demanda garantido pelas transferências pagas desde o início de abril encerrou em dezembro, apesar de a taxa de desocupação registrar nível recorde (para a série histórica da PNAD Contínua) ao final de outubro, e a taxa de participação na força de trabalho continuar baixa, em 56%. Sem o benefício do auxílio emergencial, uma parcela maior de pessoas deve procurar emprego nos próximos meses, elevando a taxa de participação no mercado de trabalho e a taxa de desocupação.

A retomada das atividades parlamentares, em fevereiro, será marcada pela eleição das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, que definirá quais grupos políticos terão influência sobre a pauta de votação em plenário e para a formação de comissões especiais. A disputa, que já causou certa paralisia no Congresso nos últimos meses de 2020, deve alongar um pouco mais do que o desejado no calendário de votação das reformas administrativa e tributária, consideradas como cruciais para a melhora do ambiente de negócios e a retomada econômica.

Sob a ótica dos combustíveis, a recuperação, ainda que moderada, da economia tende a estimular o aumento no licenciamento de veículos novos e usados, com consequente estímulo ao consumo de combustíveis do Ciclo Otto. De fato, essa dinâmica também é corroborada pelo aumento gradual da mobilidade urbana no país, tal como anteriormente comentado.

Apesar disso, caso a relação de preços entre o hidratado e a gasolina continue mais vantajosa ao segundo produto, parece provável que a participação de álcool no consumo se mantenha modesto.

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