João Botelho

João Botelho

Economista, com graduação na UNICAMP e especialização em Finanças Corporativas pela mesma Universidade. É Especialista em Inteligência de Mercado na INTL FCStone, com foco em açúcar e biocombustíveis.

Altos preços de DDG nos EUA ameaçam produtores de etanol no Brasil

Cotações mais altas do insumo para ração animal estimulam produção de etanol a partir de milho nos Estados Unidos

A oferta de milho ao redor do globo atualmente encontra-se bastante ampla — principalmente no maior produtor do mundo, os Estados Unidos. A recém colhida safra 2017/18 foi a segunda maior da história do país, abaixo apenas do ciclo 2016/17.

Dentre os diversos usos do milho nos EUA, está a fabricação de etanol. De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), cerca de 44% do consumo total do cereal no país é para a fabricação do biocombustível. Nesse sentido, a ampla disponibilidade de milho leva a uma forte produção de etanol no maior país produtor do mundo, que registrou mais um novo recorde histórico em 2017, somando 15,78 bilhões de galões (59,7 bilhões de litros), 4,2% acima do ano anterior.

A demanda pelo biocombustível no país também cresceu no ano passado, porém em ritmo menor: registrou 13,96 bi galões (52,8 bi litros), alta de 1,0% ante 2016, de acordo com dados do Departamento de Energia (DOE). A ligeira queda no consumo de gasolina limitou o avanço da demanda pelo etanol, que é usado exclusivamente como aditivo ao derivado fóssil nos EUA. Nesse contexto, os estoques americanos registram volumes elevados de etanol, o que faz com que os preços fiquem pressionados. Em meados de dezembro a cotação futura na bolsa de Chicago renovou suas mínimas históricas, chegando a ser negociada a até US$ 1,262/galão. Apesar do cenário de baixos preços do biocombustível — que pressionam a margem das destilarias americanas — a produção de etanol continuou registrando volumes elevados nos últimos meses, apresentando apenas quedas sazonais ligadas às festividades de fim de ano e ao inverno bastante rigoroso no país, que diminui drasticamente o uso de automóveis por conta das nevascas. Assim, surge a dúvida: porque destilarias dos Estados Unidos continuam produzindo bastante etanol, mesmo com margens pressionadas? A resposta para essa pergunta está em um subproduto da fabricação do etanol: o DDG. O grão seco por destilação (DDG, na sigla em inglês) é um farelo com relativa alta concentração proteica que pode servir para a fabricação de rações animais.

Por se tratar de um subproduto da destilação de etanol, por vezes seu preço é inclusive inferior ao preço de seu insumo, o milho. Contudo, não é o que tem sido visto atualmente: do início da safra 2017/18 em setembro para cá, o cereal acumula alta de 3% na bolsa de Chicago, enquanto a cotação spot do DDG em mesma cidade acumulou ganhos de 25%.

Isso porque a demanda por DDG para exportação, principalmente por parte de países da Ásia, tem se mostrado firme, dando suporte às cotações do subproduto. Assim, embora o diferencial entre os preços de etanol e milho sugira uma baixa atratividade da produção do biocombustível a partir do cereal, quando o preço do DDG também é considerado nos cálculos, destilarias enxergam margens mais favoráveis. Nesse cenário, a perspectiva é de que os baixos preços de etanol nos Estados Unidos perdurem ao longo dos próximos meses.

Impactos no Brasil
Enquanto isso, no Centro-Sul do Brasil as cotações do álcool carburante crescem por conta da entressafra canavieira e por causa das altas no preço da gasolina no país. Isso elevou o diferencial entre os preços de etanol nos EUA e no Brasil, indicando arbitragem favorável para importações de álcool americano dentro da cota de 150 milhões de litros por trimestre.

Até os importadores que não obtiverem licenças para importar etanol podem, pontualmente, encontrar arbitragem favorável para trazer etanol americano para o Brasil com o imposto de importação fora da cota de 20%, caso esse cenário de preços nos dois países se intensifique. Contudo, estima-se que o impacto baixista dessas importações sobre as cotações brasileiras de etanol sejam mais limitados que o visto no início de 2017, por exemplo, justamente por conta do sistema de cotas, que deve limitar parcialmente as compras do exterior.

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