Marina Malzoni

Marina Malzoni

Formada em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP e mestranda em Economia Agrícola pela University of Alberta. Trabalha desde 2019 na Inteligência de Mercado da StoneX do Brasil, com foco na área açúcar e etanol.
Este texto teve a colaboração de Rafaela Souza.

Apesar do déficit produtivo esperado para 2020/21, perspectivas de longo prazo para a Tailândia se mostram mais positivas

Há muito se comenta que a temporada 2020/21 (out-set) deve ser marcada por déficit produtivo na Tailândia. Vale lembrar que estimativas da StoneX apontam que o país asiático deve produzir apenas 7,6 milhões de toneladas de açúcar na temporada corrente, queda de 10,1% no comparativo safra-a-safra. Este cenário é resultado das condições climáticas atipicamente secas em 2020 e das indicações de que parte das áreas de cana do país foi substituída por outras culturas mais rentáveis, tais como a mandioca e o milho.

Apesar disso, o mercado já começa a se atentar para a dinâmica de longo prazo na Tailândia. Ainda que de forma muito preliminar, as primeiras indicações são de que a fabricação de açúcar pode se recuperar no país em 2021/22, dada a conjunção entre preços mais atrativos para produtores de cana e perspectivas de ambiente climático propício ao plantio.

Dessa forma, ao longo dos próximos parágrafos, apresentaremos alguns fatores que podem corroborar a recuperação da produção no país asiático, trazendo possíveis cenários para a competitividade da cana-de-açúcar frente à outras culturas.

Área colhida de cana e de mandioca na Tailândia (em mil hectares)

Fonte: USDA, OCSB & The Thai Tapioca Development Institute. Elaboração: StoneX. *Estimativa.

A dinâmica de preços na Tailândia

Nos últimos anos, a expansão da área com cana-de-açúcar na Tailândia tem se mostrado mais branda. De modo geral, um dos principais determinantes desse cenário parece ter sido a queda acentuada no preço base que é pago aos produtores da cultura no país asiático. Especificamente, observa-se que essa cotação retraiu 33,3% entre 2016/17 e 2018/19, para THB 700/t (US$ 23,03/t) – safra em que alcançou o menor patamar da última década.

Evolução do preço e da área destinada à cana-de-açúcar na Tailândia

Fonte: Mitr Phol & F.O. Licht, USDA, OCSB. Elaboração: StoneX. *Estimado.

Em 2019/20, por sua vez, estimativas apontam que houve leve recuperação no preço da cana, na ordem de 7,1%, para THB 750/t (cerca de US$ 24,68/t). Apesar da valorização, o patamar das cotações ainda não foi suficiente para promover significativa expansão das áreas canavieiras no país. Para 2020/21, por outro lado, as expectativas são de aumento considerável na remuneração obtida com o a produção da cultura.

Variação de preço das principais culturas cultivadas na Tailândia (2015/16 = 100)

Fonte: Mitr Phol & F.O. Licht, The Thai Tapioca Trade Association, OAE & TREA. *Estimado.

De maneira geral, o range médio das projeções do mercado se mostra amplo, mas aponta que o preço base da cana pode apresentar aumento de entre 6,7% a 46,7% em relação ao observado na temporada anterior. Como não poderia deixar de ser, a concretização dessa dinâmica tende a estimular o plantio da matéria-prima, especialmente se ela se mostrar mais rentável que outras culturas com as quais compete área.

Nesse sentido, nós da StoneX traçamos três possíveis cenários para a cotação paga aos produtores de cana-de-açúcar na Tailândia para a temporada corrente. Dado que a cultura compete área, sobretudo, com a mandioca, mas também com o milho e com o arroz no país asiático, é importante analisar se a remuneração obtida com a cana tem potencial de ser superior à cotação média atual dos demais cultivos:

Cenário 1: No primeiro cenário, considera-se que o preço base da cana alcance THB 850/t. Neste caso, a matéria-prima ainda não seria rentável frente às demais culturas com que compete área. Especificamente, sua cotação seria 9,7% inferior em relação à média dos preços pagos à mandioca em 2020, além de se posicionar 3,5% e 20,9% abaixo da cotação do milho e do arroz, respectivamente.

Cenário 2: No segundo cenário, a projeção feita considera que a cotação da cana alcance THB 950/t, o que torna a cultura 0,9% mais atrativa frente à mandioca e 7,8% mais vantajosa em relação ao milho. Ainda assim, a cotação da cana se posicionaria cerca de 11,6% abaixo do preço médio pago ao arroz no ano corrente.

Cenário 3: No terceiro cenário, estima-se que o preço da cana seja de THB 1.050/t. Ainda que a cultura permaneça 2,3% menos vantajosa frente ao arroz, a valorização em relação à mandioca e ao milho cresceria significativamente, na ordem 11,6% e 19,2%, respectivamente. Além disso, considerando que a cotação da cana possa se elevar ainda mais em relação ao patamar apresentado, sua atratividade frente ao arroz também poderia ser maior.

Ao analisarmos as simulações expostas acima, parece provável que o plantio de cana se mostre mais atrativo frente à mandioca e ao milho, especialmente se levarmos em consideração que o amplo range de preços projetado pelo mercado abre espaço para a concretização do Cenário 2 e, inclusive, do Cenário 3.

De modo geral, essa dinâmica se coloca como uma das primeiras sinalizações positivas para a retomada da produção de açúcar na Tailândia na próxima temporada.

Apesar disso, é preciso ponderar que, segundo o USDA, o custo médio da produção da cultura se posiciona em cerca de THB 1.131/t. Ou seja, mesmo que haja elevação dos preços, alguns produtores, especialmente os que apresentam menores rendimentos, podem ter dificuldade de arcar com suas despesas totais.

Contextualização climática

Como não poderia deixar de ser, a análise sobre as perspectivas de plantio de cana na Tailândia, que ocorre entre outubro/20 e maio/21, também precisa levar em consideração as projeções climáticas para os próximos meses.

Segundo o Departamento de Meteorologia do país (TMD, em inglês), estima-se que as precipitações se situem acima da média entre novembro e janeiro. Para o mês corrente, considerando as máximas projetadas, o crescimento das chuvas frente à normalidade pode ser de 6,4% na região Nordeste e de 16,3% na Central – principais áreas produtoras de cana na Tailândia.

Para dezembro e janeiro, por sua vez, as precipitações devem alcançar menos de 10 mm nas regiões supracitadas, mas ainda tendem a exceder a média de longo prazo em 50% em ambas as localidades. Vale notar que a diminuição no volume de chuvas nesta época do ano é sazonal, mas a maior umidade frente à normalidade tende a beneficiar o teor de água dos solos.

Previsão de chuvas na Tailândia (mm)

Fonte: TMD. Elaboração: StoneX.

No entanto, é preciso ponderar que as temperaturas também devem se manter acima da média no período, tanto na região Nordeste quanto na Central, o que pode mitigar, ainda que parcialmente, os efeitos positivos das precipitações.

Em suma, ainda que as condições climáticas sejam extremamente dinâmicas e possam se alterar no médio prazo, a expectativa de maior volume de chuvas no trimestre novembro-janeiro se coloca como uma sinalização positiva para o plantio de cana. Essa dinâmica, aliada à possível maior atratividade da matéria-prima frente às outras culturas, indica que a fabricação de açúcar no país possa se recuperar em 2021/22.

 

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